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  • Meu adeus ao amigo, cineasta e conselheiro de alma cineclubista

    Posted on 15/06/2012 by pimentel43

    por João Baptista Pimentel Neto

    Ainda não consegui dormir e sinto-me triste como poucas vezes havia me sentido nestes meus cinquenta e tantos anos de vida. E o motivo é muito simples, humano e compreensível. Ontem perdi um baita amigo e, na verdade, mesmo sabendo que sua morte é real e irreversível ainda não consigo “acreditar” e  a, digerir..

    Infelizmente, porém, desta vez, não tem mesmo jeito e a contra gosto sei que tenho que aceitar. Afinal, a vida é assim mesmo. E é mesmo verdade. Morreu Carlos Reichenbach ou, simplesmente, o Carlão, pois era assim que ele gostava de ser tratado pelos amigos. Sem muita frescura e sem muita cerimônia, mas sempre com muito respeito, generosidade e solidariedade, que graças a Deus refletindo, neste momento de dor, sobre o nosso fragmentado relacionamento, sempre nos foram mútuos.

    Morreu o Carlão. E o cinema e o cineclubismo brasileiros amanheceram tristes e, certamente, muito menores. E, para aplacar minha dor, resolvi escrever e registrar nesta Marv@ C@ alguns pequenos e poucos momentos que marcaram nossa longa amizade. E começo rememorando onde, quando e como tudo começou.

    Conheci o Carlão, ainda, na década dos anos de 1980, no famoso Restaurante Soberano localizado na Rua do Triunfo,  em pleno coração da não menos (mal) afamada Boca do Lixo de São Paulo.

    Na época, enquanto o Carlão já era considerado um dos melhores fotógrafos de cinema do Brasil e exercia sua reconhecida liderança dentro da cena do cinema marginal que movimentava a Boca do Lixo, eu, era apenas mais “um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso e vindo do interior” que dava seus primeiros passos no movimento cineclubista e se deslumbrava com a Paulicéia desvairada e com os até então desconhecidos bastidores do mundo do cinema, do qual, como mero expectador, era um apaixonado de da mais tenra infância.

    Foi assim que, apesar de todas as nossas diferenças, conheci o Carlão e que, refletindo hoje, selamos para sempre a nossa amizade. Sim, estou certo, foi “amor à primeira vista” e estou hoje certo de que foi já naquele longo primeiro papo que tivemos no Soberano que selamos uma amizade que, apesar de ter sido, por várias vezes, interrompida, durante os períodos determinados pelos meus afastamentos e reaproximações com o mundo do cinema, resistiu e se fortaleceu ao longo de mais de duas décadas.

    Foi, também, naquela primeira tarde chuvosa que passamos juntos no Soberano, que o Carlão, ao tomar conhecimento da minha origem, se empolgou e pela primeira vez passou horas me relatando suas peripécias de adolescente como interno do Colégio Koelle que, naquela época,  ainda,  funcionava,  na minha querida Rio Claro. Um assunto que, a partir daí, sempre voltaria a fazer parte de nossas conversas quando dos nossos encontros e reencontros.

    Foi, também, ali e desde este primeiro momento, que ao me relatar de suas escapadas para assistir a sessões realizadas nos Cines Variedades, Excelsior e, especialmente, no Tabajara – que segundo ele, naquela época, era uma das maiores e mais modernas salas de cinema do país – que, ao ver seus poderosos olhos amplificados brilharem por detrás das grossas lentes de seus indefectíveis óculos, descobri o que viria a nos unir para todo o sempre. Assim, como eu, o genial cineasta, também, tinha uma alma cineclubista.

    Foi, ainda, também,  neste nosso primeiro encontro,  que descobrimos outro laço em comum que marcaria a nossa amizade: a cidade de Dois Córregos, também localizada no interior paulista, que inclusive acabou sendo título de uma de suas obras mais introspectiva e delicada. Mas, sobre esta história, prefiro hoje calar, já que traz em si marcas de tragédia e de tristeza e hoje quero falar apenas de coisas alegres, pois de tristeza já me basta ter que remoer sua morte.

    E foi assim, que de tempos em tempos, graças a estas voltas que a vida dá, nos encontramos e reencontramos, nos mais variados ambientes, e que, apesar de nunca termos gozado de uma grande intimidade, fomos cultivando e fortalecendo nossa amizade, respeito e admiração mútuos. E nossas conversas, invariavelmente, sempre se iniciavam abordando novos e velhos detalhes de suas peripécias rio-clarenses, passavam por uma formidável troca de ideias sobre o cinema e a música – esta outra grande paixão do Carlão – e se encerravam abordando os temas mais caros ao movimento cineclubista, tal como a questão dos direitos autorais, sobre o qual, aliás, as ideias defendidas pelo Carlão deveriam servir de exemplo para,  se não todos, pelo menos,  a grande maioria dos realizadores brasileiros, muitos dos quais,  ainda,  hoje,  nutrem opiniões retrógradas, marcadas por grande dose de egoísmo.

    E, novamente, foi sua alma cineclubista quem nos proporcionou nosso último e formidável encontro presencial, quando, por ocasião da realização da sexta edição do FAIA / Festival de Atibaia Internacional do Audiovisual, finalmente o CNC / Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros,  conseguiu lhe prestar uma última e justa homenagem,  ao lhe entregar o Troféu Paulo Emílio Salles Gomes (foto). Premiação reservada, pelo movimento cineclubista brasileiro, apenas, para aqueles que, reconhecidamente, tenham mais do que bons serviços prestados ao cineclubismo, possuam  uma alma verdadeiramente cineclubista,

    Nesta ocasião, de minha parte, faço ainda um último, derradeiro e, para mim, alegre registro, já que mais do que a honra e a alegria de poder homenagear o velho amigo e companheiro, consegui, finalmente, consolidar e estreitar ainda mais nossa amizade, ao convencê-lo a aceitar a ocupar um acento dentro do Conselho Consultivo do CBC / Congresso Brasileiro de Cinema, e, com seu apoio, eleger-me para presidir esta importante entidade.

    A partir daí, mais do reconhecê-lo, apenas, como um dos mais geniais cineastas brasileiros, como um de meus melhores amigos, como um cineasta de alma cineclubista, pude, finalmente, reconhecê-lo como aquilo que, na verdade,  ele sempre foi,  para mim,  enquanto vivo, : um fiel, leal e formidável conselheiro.

    Descanse em paz, caro amigo, e leve consigo toda esta imensa dor e tristeza, que hoje dilacera esta minha alma, também, cineclubista.

    * João Baptista Pimentel Neto é jornalista, cineclubista, gestor e produtor cultural, presidente do CBC / Congresso Brasileiro de Cinema e neste dia, especialmente, amigo do Carlão.

    ** foto de Calebe Augusto Pimentel

    ∞∞∞

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