Digitalização ameaça pequenos cinemas nos EUA

Encontrei recentemente dois pequenos cinemas norte-americanos levantando recursos para a digitalização de seus equipamentos de projeção por meio do Kickstarter – uma plataforma de financiamento coletivo de projetos (o tal crowdfunding).

Duas salas de exibição localizadas em cidades do estado do Alabama, sudeste dos Estados Unidos. O Capri Theatre, na capital Montgomery, e o Crescent Theater, em Mobile. Segundo o censo de 2010, Montgomery conta com uma população de pouco mais de 205 mil habitantes e Mobile com cerca de 195 mil (o que faz delas a segunda terceira maiores cidade do estado respectivamente).

Capri_Theatre

Fachado do cine Capri em Montgomery

Os  cinemas têm uma programação mais alternativa, com títulos que dificilmente encontram espaço nos Multiplex. O Capri, por exemplo, foi o primeiro cinema do estado do Alabama a exibir diretores como Spike Lee, Mike Leigh e Ang Lee. Além da exibição de filmes comercialmente ambos os espaços abrigam outras atividades culturais como estreia de filmes produzidos localmente, peças teatrais e performances ao vivo e uma série de outros eventos voltados às suas comunidades de entorno.

É interessante observar que ambos os cinemas adotam tons bem críticos (ou no mínimo irônicos) quando se referem às exigências definidas pela DCI (Digital Cinema Initiatives), a joint venture criada em 2002 pelos grandes estúdios de Hollywood para fomentar a projeção digital e, consequentemente, eliminar as exibições analógicas em película. Na plataforma o Capri, após informar que conseguiu comprar o imóvel onde funciona, (“That’s the good news”), anuncia a má notícia (“The bad news is, the Digital Cinema Initiative”) e faz um comentário sobre o processo de adesão aos padrões definidos pela DCI para a digitalização (“The powers that be in Hollywood have mandated the “voluntary” conversion to digital projection”).

Além dos 25 mil doláres doados por uma Fundação, o Capri necessitava de mais 80 mil dólares para adquirir um projetor 2k compatível com o DCI, lentes, servidor de media (mediablock), som, automação, intalação e outros itens, sendo que a lista não inclui equipamentos para projeções 3D e nem aqueles necessários para eventos especiais, como óperas e concertos. Ou seja um custo de mais de 100 mil dólares.

Vá para o digital, ou morra (Go Digital, Or Die)

Crescent_Theater_Lobby

Lobby do Crescent e seu dono Max Morey

No caso do Mobile o pedido por apoio da comunidade é bem claro:

“Em 2013, a produção do filmes 35mm vai acabar, e todos os cinemas dos EUA estão sendo forçados por Hollywood para migrarem para o sistema digital com grandes despesas, ou a fecharem suas portas.  Com o seu apoio, nós seremos capazes de continuar a trazer filmes de arte independentes para a cidade e para a região. O custo de conversão para o digital é maior do que podemos pagar, por isso estamos apelando para a comunidade para nos ajudar a financiá-lo”.

Bacana ver que cinema pode ser um pequeno empreendimento comercial cumprindo importante função sócio-cultural. Interessante perceber também que, ao contrário do que parece, ainda há uma diversidade de tipos de cinemas na paisagem urbana norte-americana. Diversidade esta que, também nos EUA, se encontra ameaçada pelas barreiras de entrada e a concentração que a DCI vem estabelecendo com seus “padrões”.

 

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