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CONSTRUINDO INSTRUMENTOS A PARTIR DE FOTOGRAFIAS DE PIERRE VERGER – PARTE 1

A Fundação Pierre Verger abriga o acervo de fotografias do etnólogo Pierre Verger, além dos livros publicados por ele e da sua vasta biblioteca particular.
Pierre Verger registrou, com sua lente, imagens da vida e da cultura de grupos étnicos que não eram tidos, até então, como protótipos de beleza ou de interesse estético, se encaradas através da lente das civilizações ocidentais. Sua fotografia, fixada em negativos, (preto e branco) eterniza momentos do cotidiano de pessoas e grupos, estabelecendo, sobre o seu lazer, seu trabalho ou sua religiosidade, um novo “olhar”, o olhar de Oju Obá, os olhos do rei Xangô.
Não por acaso, encontramos, entre essas imagens, o registro de instrumentos musicais de percussão, alguns dos quais caídos em desuso, e mesmo no esquecimento, quer pela ausência do modelo original ou do seu registro visual/sonoro, quer pela escassez ou pelo desaparecimento de recursos empregados na sua confecção.
A foto de Verger nos fornece subsídios valiosos para tentar reconstituir estes objetos na sua forma original, além de demonstrar com toda clareza a forma do seu uso: não há fotos isoladas de instrumentos, registrados de forma estática, senão objetos sonoros em ação.

Nosso trabalho começa aí. O primeiro estímulo foi proporcionado pelo olhar atento a essas fotografias de Verger.
Conduzimos os alunos à biblioteca do Espaço Cultural (Biblioteca Jorge Amado), onde tiveram acesso à obra fotográfica disponibilizada  nas páginas dos diversos livros.

LEVANTAMENTO ICONOGRÁFICO POR LIVRO

Objetivo: demonstrar a existência, na primeira metade do séc. XX, de instrumentos de percussão com estrutura, usos e funções extintos, visando sua reconstituição, a partir da análise de fotografias do etnólogo Pierre Verger.

Verger, Pierre. O Olhar Viajante de Pierre Fatumbi Verger.
Salvador: Fundação Pierre Verger, 2002.

Verger, Pierre. 1902-1996. Retratos da Bahia: 1946-1952.
Salvador: Corrupio, 2005.

Verger, Pierre. Pierre Verger: O Mensageiro: fotografias 1932-1962.
Salvador: Fundação Pierre Verger, 2002.

Carybé & Verger: Gente da Bahia.
Salvador: Fundação Pierre Verger: Solisluna Design Editora, 2008.

Verger, Pierre. 1902-1995. O Brasil de Pierre Verger.
Rio de Janeiro: Fundação Pierre Verger, 2006..

PESQUISA ICONOGRÁFICA.

Identificando livros de fotos de Pierre Verger. Foto: Lavínia.

Alunos na Biblioteca Jorge Amado. Foto: Roberto Luis.

Descobrindo instrumentos de matriz africana. Foto: Roberto Luis.

Anotando as fontes pesquisadas. Foto: Roberto Luis.

Uma rica iconografia disponível no Espaço Cultural. Foto: Roberto Luis.

Não foi difícil identificar os instrumentos de matriz africana presentes nos registros fotográficos. Os alunos puderam com facilidade perceber os tambores, pandeiros, tamborins, assim como os materiais de que foram feitos: barris de madeira, pele de cabra, de cobra, de boi.
As situações de uso, a funcionalidade dos instrumentos: o samba-de-rua, as festas de largo, o carnaval, os ritos religiosos.
Através dessa viagem no tempo (as fotos situam-se entre 1930 e 1960), e do espaço geográfico do observador, (a maioria das imagens selecionadas foram tomadas em Salvador, Bahia, mas constatamos o registro de instrumentos percussivos e de seus elementos constituintes no interior do estado, assim como em Recife, Pernambuco e até na Guatemala, América Central) nossos jovens pesquisadores puderam perceber a importância dos barrís de madeira – sua utilização original e o seu re-aproveitamento, seja  transportando água, no lombo das “mulas”, seja servindo à confecção de tambores, por sua vez utilizados nos grupos de “afoxés” e blocos de carnaval..

PELE NATURAL

Os instrumentos mostrados nestas fotografias, eram invariavelmente encourados com pele de origem animal, fossem de cobra, de boi ou de cabras, ou bodes.
Tal constatação provocou a reflexão sobre o uso dos recursos naturais e as diversas questões ecológicas implícitas, cuja compreensão suscita a necessidade de desenvolver uma consciência ambiental.
Discutimos sobre a pseudo-tradição do uso da pele de gato nos tamborins, muito em voga entre os sambistas no Rio de Janeiro, mas revestida de contradição, ao ser contestada pelos experts:

“Segundo Mestre Marçal, por exemplo, o tamborim tinha couro de boi, não couro de gato, como afirmado por muitos sambistas. Para Marçal, no entanto, isto seria um mito. No seu depoimento ao pesquisador Carlos
Didier disse a respeito:
Couro de gato não tem resistência, é igual a papo de galinha. É um mito que existe no samba e que não é verdade. […] Sempre foi couro de boi, que naquela época se chamava de raspa.
[…] Para encourar, você molhava a pele, encostava no aro e dava duas tachas no mesmo lado, numa ponta e na outra. Puxava o couro e botava tacha em todo o lado oposto, bem preso. Para os outros dois lados, a mesma coisa. Quando o cara não queria deixar a tacha aparecendo, fazia, com o próprio couro molhada, um viés para cobrir. Botava em cima e dava uma tacha em cada ponto (apud Cabral, 1996: 102).
O couro na época influenciou também a sonoridade, pois ressoa ao contrário do nylon, usado hoje. Mudou também a baqueta que era menor que um palmo e fino, na grossura de um cigarro, que produziu um som grave. Hoje, a baqueta é comprida, mede 30 a 50 cm de comprimento, dependendo do fabricante, e o nylon que substituiu o bambu é flexível que resulta num som de estalo. Com a flexibilidade transformou-se também a maneira de tocar. Antigamente, tocava-se o tamborim de lado, a batida se encaixando no conjunto do restante da bateria. Havia improvisação, enquanto hoje o arranjo é padronizado.”
(“O criador na tradição oral: a linguagem do tamborim na escola de samba – Dra. Marianne Zeh
XVI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música (ANPPOM) Brasília – 2006)

CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA

Dentro da idéia da sustentabilidade, vimos que o uso em instrumentos musicais da  pele de cabra/bode não oferece ameaça à preservação ambiental, observando as técnicas de produção em alguns curtumes, através de pesquisa via internet. A carne,  o leite,  e até as vísceras de caprinos são utilizados na alimentação humana.
No contexto das religiões de matriz africana, (uma vivência direta para a maior parte dos sujeitos envolvidos neste projeto) constata-se o uso ritual das peles dos animais sacrificados (bodes) no encouramento dos atabaques da orquestra ritual. Um dado significativo é que a carne desses animais é posteriormente consumida pelos membros da comunidade religiosa, em respeito ao sacrifício do animal.
A conclusão levantada a partir dessas considerações é a de que não se justifica o abate de animais exclusivamente para a obtenção da pela natural, constituindo atitude não ecológica a captura de animais silvestres com este fim.
Só após essa etapa é que foi oferecida aos alunos a oportunidade de acompanhar a confecção de um tamborim quadrado, aproveitando um retalho de pele de cobra obtido há mais de 20 anos atrás, em uma das feiras de Salvador, idêntica à dos rústicos pandeiros com soalhas comercializados à mesma época nos mercados de artesanato da cidade..

VIVÊNCIA CONSTRUTIVA

Apresentando a pele natural de cobra. Foto: Ricardo Pamfilio

Pele adquirida na feira há mais de 20 anos. Foto: Roberto Luis

O índio Tanawi também examina o material. Foto: Ricardo Pamfilio

Tamborim quadrado com pele de cobra. Foto: Roberto Luis

Um exemplar do pandeiro com pele de cobra, com mais de vinte anos porém em bom estado de conservação, foi apresentado aos alunos, que não esconderam sua admiração diante da qualidade sonora e estética do instrumento..

Pandeiro antigo com pele de cobra. Foto: Roberto Luis

Assim, fechou-se um ciclo, pois voltamos ao objeto da foto de Pierre Verger.

Photo Pierre Verger©Fundação Pierre Verger

Pandeiro com pele de cobra. Salvador, festa do Bonfim.
(Detalhe) Photo Pierre Verger©Fundação Pierre Verger

Tamborim quadrado pele de cobra. Pedra Furada, Salvador.
(Detalhe) Photo Pierre Verger©Fundação Pierre Verger

Vídeo: “Cobra no Pandeiro”
http://youtu.be/WBAkW3k8YYI

Neste vídeo, o professor de Percussão (Everton) experimentava o pandeiro da foto acima, quando o aluno Léo, não resistindo ao groove do samba, improvisou: “Quebra, quebra, vai, quebra, vai”.  Porque a levada do pandeiro insinuou a rítmica do “pagode baiano”…

TAMBORIM QUADRADO

Os tamborins quadrados confeccionados com os alunos foram produzidos com madeira de reflorestamento (Pinus) e  peles tratadas de caprinos, adquiridos em um curtume de Recife, Pernambuco. Essas peles são fornecidas mediante nota fiscal de venda ao consumidor e podem ser adquiridas inteiras ou nos formados padronizados (cortes em círcunferência) nos tamanhos adequados para os instrumentos de percussão.

Tamborim quadrado em processo de encouramento.
Foto: Roberto Luis.

Tamborim quadrado finalizado. Foto: Roberto Luis.

Tamborins quadrados em ação. Foto: Roberto Luis

Vídeo: “Improviso no Tamborim Quadrado”

http://youtu.be/FcCAT8DfLso

 

Logo após a confecção dos tamborins quadrados, foi feita uma sessão se experimentação, com a participação do professor de Percussão (Everton Isidoro). Note que os executantes evitam percutir com força nas peles, ainda úmidas.

TAMBORINS COLORIDOS

A rota criativa desenvolvida nessas oficinas incluiu a decoração dos tamborins, com pinturas elaboradas na moldura de madeira e na própria pele, usando tinta gouache e posteriormente o verniz feito à base de álcool e extrato de sementes de urucum..

A planta e o extrato natural de urucum. Foto: Roberto Luis.

Tamborim decorado com guache e urucum. Foto: Roberto LuisTamborim quadrado. Foto: Roberto Luis.

Tamborim quadrado construído e decorado nas oficinas.
Foto: Roberto Luis