Por poesia revolucionária, Maíra Castanheiro

Por poesia revolucionária:


Venho aqui lhes contar uma história recheadas de outras histórias extraídas das íris, com leves pitadas neuróticas, com suco de palavras esdrúxulas, doses de anseios controladas, com histórias salpicadas ao molho marginal e poesias a gosto.

É bala na agulha! Sexo, drogas e rock and roll! Pode parecer clichê e démodé, mas esses temas ainda são tabus além de serem gostosos. Vá ver que é justamente por isso, pelo seu tabu imposto, por atentar o pudor e vir com outras morais e entendimentos do mundo, que eles continuam atraindo gerações e gerações! Mas apenas alguns entendem mesmo, o sentido visceral e léxico. Sexo, drogas e rock and roll! É muita bala na agulha, é pra poucos, meus caros. Não é qualquer um que agüenta mesmo não. Nem todos os punks, nem todos os beats, nem todos os marginais sobreviveram sustentando as mesmas vestes. Alguns mudaram de roupas, tomaram banho. Outros ficaram nus. Restam uns poucos que ainda se sustentam sob as mesmas vestes.

Neste artigo buscaremos entender o universo da Poesia Marginal que através da palavra seja esta escrita, dita ou vista, produziu um testemunho e uma voz de sua época. O poder da palavra. A palavra do poder. A palavra é a arma ou a bala da arma? Pólvora queima papel.

Peço-lhes licença, meus caros, para contar-lhes um capítulo esquecido (ou marginalizado?) da História Cultural brasileira. Antes irei narrar-lhes um trágico capítulo da minha história.

Em fevereiro de 2007 Salvador vivia mais uma vez, como de praxe e tradição, seu tumultuado carnaval, em meio a chuvas de confetes e chuvas que alagam a cidade.

Na velha Ribeira (bairro situado na Cidade Baixa de Salvador) várias casas tiveram goteiras devido às chuvas incessantes. Em uma determinada casa essas goteiras fizeram de vítimas alguns livros e documentos amarelados, amassados e sujos. Tentando salvar seus preciosos documentos e livros, o poeta Zeca de Magalhães, sobe ao telhado para consertar a goteira, combater o inimigo. Porém, não teve muito sucesso. Escorregou no telhado há muito molhado e caiu como o anjo que caiu do céu, bateu a cabeça e morreu.

Essa tragédia me deixou como herança alguns livros e documentos amarelados, amassados e sujos que sobreviveram à pancada das águas.

Tomando o conhecimento do fato, o professor Dr. Antônio Liberac, também amigo do poeta falecido, me propõe pesquisar sobre o universo da Poesia Marginal, o qual o mesmo presenciou. Universo este que tem como personagens meus pais, alguns amigos e outros tantos poetas. Universo este, em que eu fui parida.

Aceitando a proposta do professor Dr. Antônio Liberac resolvi então, sob sua orientação, mexer nesses papéis sujos, amarelados e amassados. Eles fazem parte do meu acervo particular que consiste basicamente em: jornais, panfletos, poesias, pôsteres-poemas, fanzines, cartas, diários, fotos. Nessas fontes podemos encontrar temas como: descriminalização das drogas, legalização da maconha, repressão militar, racismo, feminismo, políticas de esquerda, políticas de auto-gestão, anarquismo, pornografia, etc.

E foi assim que comecei a construir essa história nos quais os personagens principais são poetas: das praças, dos hospícios, das estradas, marginais ou não, alternativos por opção ou imposição, ou ainda como conseqüência de suas idéias.

Poesia: um artefato de revolução, trabalho e linguagem

Era o ano 1979 em pleno verão tropical quando uns poetas resolveram se juntar diariamente na Praça da Piedade em Salvador, em frente à Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia. Na hora sagrada da ave-maria: às 18 horas, com o badalar do sino da igreja lembrando à hora da missa, junto com os pedintes nas escadas da igreja e calçadas estreitas, o pôr do sol e o fim do expediente, o trânsito engarrafado nas apertadas avenidas Sete de Setembro e Joana Angélica, os poetas soltavam o verbo na praça, agora além de ser da Piedade, é também desde já a sagrada Praça da Poesia.

A rotina do fazer poesia na praça impulsionada por Antonio Short, Ametista Nunes, Eduardo Teles e Gilberto Costa, foi agregando cada vez mais os poetas como Geraldo Maia, o casal Margareth Castanheiro e Zeca de Magalhães, entre outros, os levando a se organizarem e a se autodenominarem como Poetas na Praça. Em novembro deste mesmo ano lançaram seu manifesto: Por – Poesia Revolucionária.

O título do manifesto já explicita a compreensão de poesia que os poetas defendem. A poesia como instrumento de revolução, como uma linguagem mais acessível ao povo que coloca em discussão os problemas do “aqui/agora”. Para os Poetas na Praça, o poeta e sua poesia se estabelecem numa relação interdependente, na qual a poesia está associada diretamente ao mundo do poeta, em outras palavras, o poeta se expressa a partir do que ele próprio vive, do mundo em que ele se comunica, é necessariamente um homem do povo. Daí então a atenção deste poeta para com o povo, pois ele como povo também deve transitar no mesmo espaço dos trabalhadores. Em uma entrevista cedida ao jornalista Gilfrancisco, o Poeta da Praça Geraldo Maia justifica o lugar da poesia na praça:

A tomada da praça foi um ato político-poético que possibilitou o exercício da crítica, do questionamento, da discussão em torno da visão de mundo das oligarquias dominantes e do regime militar, já na fase final do seu processo de mimetismo. Os poetas se reuniam na praça para o ofício da vida, porque a mesma se encontrava ameaçada de extermínio. Guiados por uma aguçada sensibilidade e pela consciência de serem meros instrumentos do universo, saíram de suas tocas, dos antros onde a poesia era subterrânea e se juntaram na praça para contribuir na luta pela preservação da espécie” .

Além de ser um instrumento de revolução, a poesia é também uma ferramenta de trabalho: “nós poetas na praça / vivemos do nosso trabalho / como qualquer outro trabalhador”. E assim querem ser reconhecidos: como trabalhadores da arte que se preocupam com os problemas sociais e cotidianos, e a poesia tem de estar a serviço da mudança social e cultural. “Não se pode conceber / uma forma de arte / que carregue em sua linguagem / a análise burguesa da sociedade / ou um substituto reformista qualquer”.

Em Por – Poesia Revolucionária os poetas suscitam o desejo de uma sociedade mutualista, que tem por princípio a solidariedade e a coletividade, ao passo que, vivem sob uma sociedade baseada num capitalismo liberal selvagem e sob a vigência de uma ditadura militar repressora e opressora. Diante disso,

o movimento Poetas na Praça / existe / a partir de uma necessidade / concreta / de mudar essa realidade / porque ela não satisfaz as necessidades de cada ser humano / para viver como tal / em qualquer parte do mundo do universo”.

Os Poetas na Praça, todavia não compartilham com os partidos de esquerdas, acusando-os de reduzirem “a luta revolucionária / a uma simples luta / por ascensão de classe / mas não das ideias”. Propõem uma sociedade sem Estado, contra o autoritarismo, a censura e a ditadura, em suma, uma sociedade anarquista.

manifesto apresenta críticas à Fundação Cultural do Estado da Bahia acusando-a de usar mecanismos burocráticos para dificultar a comunicação / relação entre os “trabalhadores da arte” e o Estado e de contribuir para manter os privilégios da elite burguesa. A estética e a linguagem, a mensagem poética destes poetas, não correspondem aos valores estéticos do mercado editorial literário e muito menos se enquadram nas normas da “academia brasileira de letras”. Portanto,

com esse objetivo / o movimento Poetas na Praça / propõe à comunidade / que a Fundação Cultural da Bahia / seja autogerida / pelos trabalhadores das artes / a fim de que nós possamos encontrar / por nós mesmos / as verdadeiras soluções / para as nossas necessidades / de vida e trabalho”.

E assim, o Movimento Poetas na Praça pretendia continuar uma luta por uma sociedade libertária tendo como suporte principal a arte, um artefato de Revolução, Trabalho e Linguagem. Os integrantes deste movimento realizaram uma série de práticas pela promoção e incentivo da poesia. Uma poesia que representasse as angústias e as necessidades de um povo marginalizado. Estas práticas não se limitavam apenas à produção de livros e recitais, em algumas oportunidades os poetas enfrentavam as autoridades públicas para expor-lhes a realidade do povo.

Nós somos a geração de março”

Salvador, seis de março de 1986. Era uma quinta-feira. O jornal do Brasil em seu primeiro caderno, na página dois, publica uma nota sobre a visita do presidente do Brasil, José Sarney, na capital da Bahia. Este é surpreendido pelo poeta e ator Geraldo Maia. A pequena nota conta que o poeta segurou o presidente José Sarney pelos ombros e soltou os seguintes versos do poema Nós somos a geração de março:

Nós somos a cria da censura / Funcionários da tortura / Frutos do absurdo / Que são todas as ditaduras / Nós somos a raiz do mal / O radical doente / Mas, apesar de nós, essa loucura, somos de repente / A cura / A cura / A cura .

O presidente José Sarney apenas responde: “Demência santa” . Estes versos verbalizados pelo poeta revelam a angústia de uma geração fruto de uma dura e violenta repressão do golpe militar de 1964. E esta ditadura criara o seu próprio inimigo, “nós somos a raiz do mal / o radical doente”, que não irá mais tolerar a censura, a violência e a repressão. Ao se afirmar como “a raiz do mal / o radical doente”, o poeta parte para o embate e contra-ataca. Entretanto, o poeta diz que “apesar de nós, essa loucura, somos de repente, / A cura / A cura / A cura”, ou seja, o poeta deposita em sua própria geração a esperança e a responsabilidade de continuar uma luta.

Um mês depois deste encontro com o Presidente, Geraldo Maia lança seu livro independente kanto d rua. Editado pelo Movimento Poetas na Praça em parceria com o Art Delírio Noturno, um outro movimento poético onde se destaca o poeta carioca Zeca de Magalhães. O livro kanto d rua é uma prática que ilustra todo um sentido de poesia, arte e poeta, que estes “trabalhadores das artes” irão defender. Já na apresentação do livro escrito pelo poeta Zeca de Magalhães, podemos encontrar alguns destes elementos: uma linguagem estética que contrapõe as normas cultas e o uso da poesia como arma.

Canto de rua é de repent o encontro dos cantos q se encontravam no poeta cantor de calçadas, praças y ruas, que joga na kra da gent seu poema universal, cantado nas línguas d toda uma amérik amarguarda, d todo poema d esperança e luta.

Como foi visto no Manifesto Por – Poesia Revolucionária, o poeta se apresenta como povo para o povo. Mesmo nessa tentativa de se igualar ao ‘povo’, há uma distância entre este e o poeta. O poeta popular, da praça, chama a atenção do povo para sua condição: submissa e desigual perante a burguesia. A condição de ser super-explorado pelo sistema capitalista: “com todos vocês nos encontramos / na luta de todo dia / enquanto se for escravo / e outros com regalia”.

Logo, o lugar da poesia e do ‘trabalhador da arte’ é na rua, pois é nela onde se encontra o povo que compartilha “a mesma desgraça”, como revela o poema (sem título) do livro kanto d rua de Geraldo Maia:

Muito bom dia senhores / reunidos aqui nesta praça / em volta das mesmas dores / suportam a mesma desgraça / muito boa tarde senhoras / de cara magra e suada / com a prestação atrasada / e o decomer de amargura / muito boa noite crianças / largadas na noite do mundo / com um buraco na pança / que a fome vai alargando.

O poema termina com um ‘grito’ incitando todos à luta, relegando a poesia como algo que pertence ao povo e como algo que é criado neste: “Poesia / é a nossa arma / e vocês / são a poesia”!

A década de 1980 no Brasil representa um momento importante para a nossa política. Estávamos em transição de uma ditadura para a dita cuja democracia. Foram os anos primordiais do PT, que foi fundado em 1979 no mesmo ano do manifesto dos Poetas na Praça que vimos aqui.

Por uma década estes poetas gritaram e foram até presos por isso, mas isso fica para outro capítulo. Muitos continuaram gritando e poetando no seu caminho (recitando, publicando, ensinando). Alguns partiram para outro mundo, aquele que o poeta sempre versaliza. Aquele mundo que o verbo se faz carne e dela o poeta continuará se alimentando e digerindo um mundo que agora é só seu. E nós aqui da terra, não vamos adentrar. Só temos suas poesias e histórias, suas histórias que são poesias e poesias que são histórias.

Ao fim de uma década os Poetas na Praça, por vários motivos, dispersaram-se. As letras embaralharam e cada qual tomou seu abecedário e fez seu dicionário. Alguns creiam serem letras maiúsculas e que muitos outros eram minúsculas. Alguns se confundiram em ora adjetivos, ora substantivos. Poucos se fizeram de transitivos diretos, já que a maioria foi pelo intransitivo indireto. Uma coisa se sabe, esses sujeitos não eram e não são ocultos. Apenas se embaralharam em tantas interrogações e exclamações. As reticências deixavam muitas dúvidas, foi aí então, que o pingo do i tomou uma atitude e virou ponto final.

Maíra Castanheiro. É historiadora e colabora com a pesquisa Contracultura Digital.

mamairato@gmail.com

I.

Manifesto Por Poesia Revolucionária. Movimento Poetas na Praça. Publicado no Jornal O Inimigo do Rei em novembro de 1979, Salvador, Bahia.