Azucrina Records

Azucrina Records

Relatos de uma experiência com selos virtuais (netlabels)

16:15 – Gravamos guitarras em casa.
17:30 – Rua da Bahia tem bastante noise.
??:?? -(ainda sonho com uirapurus)
07:15 – levanto e a realidade é punk


Quando entendi as possibilidades eletrônicas da música, não demorou muito para me
aprofundar na cultura da música eletrônica. Me interessava muito a ocupação de espaços
físicos com musicas criadas em espaços virtuais, além da expansão timbrística possível
com os instrumentos digitais ou analógicos manipulados eletronicamente. Depois de
alguns anos fazendo festas em coletivos, casas e clubes; discotecando músicas piratas
para públicos que hackeavam os costumes da tradicional família mineira, fui me cansando
da transformação da cena eletrônica queer-libertina em patrocinados 130 bpms neo-
techno-liberais com entrega de cartelas na saida. A cena de música eletrônica cresceu,
muit@s viraram djs, outr@s djs viraram don@s de clubes e pouc@s passaram de
consumidorxs digitais, piratas ou não, a produtorxs, crític@s e investigadores das
possibilidades da música eletrônica faça-você-mesm@.
A tirania da indústria fonográfica em relação a hierarquização do acesso pode ser
contornada através de downloads piratas, entretanto, em seus outros aspectos
manipuladores, segue firme e forte ditando os estilos musicais dominantes e as regras de
como produzir, mixar, masterizar e tratar as produções sonoras de maneira a atropelar a
experiência com produções em estúdios caseiros e softwares. Queria saber como é a
musica eletrônica caseira e suas comunidades. Não a música eletrônica da academia
eletroacústica, ou a musica eletrônica gringa trazida pelos dj’s, ou a produzida
comercialmente para levar elementos e ritmos brasileiros pra fora, ou a feita para bombar
milhares de pessoas nos bailes funk.
Me aprofundei na investigação das comunidades online e sites de música eletrônica não
comercial que disponibilizassem downloads gratuitos. Grande parte dos selos
encontrados eram de música experimental ou de alguma maneira extrema. Oscilavam
entre gêneros e tags como breakcore, digital core, noise, 8bits, extreme computer music,
glitch, circuit bending, handmade electronic music, microsound, soundscape, dubstep, etc.
Ainda que tenha encontrado vários sites e selos digitais (netlabels) apenas a
diferenciação do formato de disponibilização e download não eram suficientes para
caracterizar a potencialidade desse universo. As mudanças tecnológicas são fatores
determinantes na mudança do comportamento e o formato influi na produção do conteúdo
para além apenas da distribuição do produto final.
As netlabels1 são plataformas online que distribuem conteúdo musical em formatos de
audio digital como MP3, Ogg, Vorbis, FLAC ou WAV para download. Embora alguns selos
virtuais surjam no contexto da passagem do formato tradicional de um selo ou gravadora
para o formato de distribuição online com conteúdo pago, existem netlabels que preferem
disponibilizar seu conteúdo sob licenças de compartilhamento livre com apenas alguns ou
nenhum dos direitos reservados. Além das netlabels tradicionais que seguem o formato
dos selos comerciais, existe uma profusão de outras que tratam seus espaços virtuais
como comunidades e não somente medeiam produtorxs e consumidorxs mas se baseiam
na vivência dos caminhos cruzados da cultura DIY (faça-você-mesmo) e digital. Na
1 Também online label, web label, digi label , MP3 label ou download label
verdade, antes de se estabelecerem paralelas aos selos comerciais nos anos 90 e 2000,
algumas práticas digitais para o que viriam a ser as netlabels já se manifestavam no
submundo dos hackers e programadorxs da década de 80. A demoscene2, principal
exemplo desse histórico, através de selos online com identidade própria, organização
interna e listas de referências distribuía suas músicas, partituras, samples e códigos para
a comunidade3.
As relações que emergem dessas redes vêm da intersecção entre a vontade de arquivar,
se apropriar e re-circular o conteúdo, da prática e promoção do DIY e o favorecimento da
integração entre as mídias e o fluxo de idéias. A rede é uma forte ferramenta capaz de
fazer semelhantes encontrarem-se em um mundo vasto, facilita o compartilhamento de
informações e a construção de conhecimento de cunho coletivo. Todavia o mais
interessante é quando essas comunidades online transpõem suas relações digitais em
encontros presenciais promovendo festivais, oficinas, download stations e festas de
reapropriação de espaços públicos reforçando o commons (espaço comum).
As netlabels derivam de diversas práticas da cultura DIY pré-digital, e, dessa maneira
compartilham não somente músicas como informações de produção, equipamentos,
circuitos, programas, programações, esquemáticos, tutoriais, stencils, posters, zines,
textos, além de seus próprios manifestos. Sabemos que a difusão de uma nova tecnologia
não implica na substituição das tecnologias antigas e ficamos felizes de ter vivido ou
conhecido outras redes e práticas autônomas, auto geridas, people-to-people. Na
verdade, redes autônomas retro-alimentativas não são novidades da cibercultura. Alguns
exemplos que influenciam o netlabelism (cultura das netlabels):
Fanzines
Já circulavam em feiras de ficção científica nos EUA desde 1940. São tipicamente
editados por uma pessoa que desenvolve o próprio conteúdo ou uma seleção de
divers@s autorxs que contribuem com publicações, editoriais, artigos, ilustrações, artes
etc. O aspecto mais interessante do fanzine é que depende de pouc@s ou nenhum@
intermediári@ e nenhuma hierarquia entre a produção e consumo, entre a participação e
integração d@ leit@r e produtor. Além disso as contribuições não são remuneradas e as
publicações geralmente são trocadas por obras semelhantes ou contribuições para outras
edições. O primeiro fanzine brasileiro foi o Ficção, criado por Edson Rontani em 1965 em
Piracicaba, São Paulo. Criado em uma época que o termo que definia produção
independente era boletim, o fanzine trazia textos infomativos e uma interessante relação
de publicações brasileiras de quadrinhos desde 19054.
Mail Art
Já na década de 1950 a Mail-Art, se consolidava como um meio de troca de objetos e
publicações artísticas entre artistas norte-american@s e europexs através do sistema
postal. As trocas incluíam ilustrações, cartas, fanzines, carimbos, selos, estampas,
entrevistas, fotos, nudez, objetos, cartões postais, falsos relatos e nomes, narrativas,
partituras, poesia, etc. Uma máxima recorrente e manifestada sempre nas
correspondências de Mail-Art era o termo senders-receive, ou remetentes-recebem
significando que “uma pessoa não deve esperar receber mail-art a não ser que esteja
disposta a participar ativamente no movimento de troca”.
Cassette Culture
A partir dos anos 70 e 80 principalmente se refere ao intercâmbio de fitas K7 caseiras de
rock, música alternativa e experimental. Na Inglaterra e Estados Unidos o movimento teve
seu ápice na era do pós-punk devendo grande parte da abrangência de sua circulação
alimentadas pelos movimentos DIY e meios de divulgação associados a resenhas,
matérias e materiais disponibilizadas em fanzines, eventos, feiras e atividades
autônomas.
Links
A maioria das netlabels promove a publicação desterritorializada e lança sem vínculos de
nacionalidade. Em caráter de curiosidade, separamos algumas nacionais e latino-
americanas, além de outras. Conheça você mesma algumas:
Brasil
Al Revés – http://www.alreves.org/releases.php?lang=br
Azucrina Records – http://azucrinarecords.net/
Chippanze http://www.chippanze.org/
Fine Tanks – http://finetanks.com/musica/protomusica.html
Fora do Eixo Distro – http://foradoeixo.org.br/fora-do-eixo-discos
La Petit Chambre – http://www.myspace.com/lapetitechambre
Menthedechat – http://www.menthedechat.net/catalogue_e.htm
Psicotropicadelia – http://psicotropicodelia.com/
América Latina
Epa Sonidos – http://www.epasonidos.cl/
Jacobino Discos – http://www.jacobinodiscos.cl/
Leerraum – http://leerraum.ch/index.html?
name=http://leerraum.ch/releases/releases.html=../navigation/navreleases.html
Pueblo Nuevo – http://www.pueblonuevo.cl/pn_site/index.htm
Series Media – http://www.seriesmedia.org/4/musica/sern.html
Widerstand – http://www.widerstand.org/artists/idroscalo/welcome.htm
Mundo
Acediamusic – http://acediamusic.org/about.html
Audioactivity – http://www.audioactivity.net/new/
CockRockDisco – http://www.cockrockdisco.com/CRD2/menu2.html
Deathsucker – http://www.deathsucker.org/
Further Noise – http://www.furthernoise.org/
Jahtari – http://www.jahtari.org/magazine.htm
Lost Frog – http://www.lostfrog.net/about/index.html
Phonotactics – http://www.phonotactics.info/
Testtube – http://testtube.monocromatica.com/about.htm
Netalbelism
Netlabelism – http://netlabelism.com/category/articles
Netaudio.ES – http://www.netaudio.es/blog/articulos/reflexion-%C2%BFque-es-un-netlabel/
Phlow – http://www.phlow.de/netlabels/index.php/Main_Page
2 http://pt.wikipedia.org/wiki/Demoscene
3 http://www.netaudio.es/blog/articulos/reflexion-%C2%BFque-es-un-netlabel/
4 http://en.wikipedia.org/wiki/Fanzine