A-própria-ação dos conceitos

A-própria-ação dos conceitos

Thaís Brito
Que formas tomam e que espaços ocupam as forças de dominação na
sociedade capitalista? Resistências, autonomias e apropriações…

Afiche realizado por iconoclasistas

O fim da Guerra Fria proporcionou, com a derrota dos
regimes do Leste Europeu, o anúncio do fim da contradição
capitalismo – socialismo, traduzida pelo ocidente como a oposição
entre democracia e totalitarismo; possibilitou, assim, a proclamação
do capitalismo como “uma ideologia que anunciava a chegada do
ponto final do desenvolvimento social construído sobre os pressupostos
do livre mercado, além do qual não se podem imaginar melhoras
substanciais” (ANDERSON, 2004, p. 38). O capitalismo passa, então,
a afirmar-se como a única forma possível de organização da
sociedade.
A globalização é outro fator indicativo do avanço do
capitalismo e de suas transformações. Em tempos de neoliberalismo,
ela é tida como o caminho natural e incontestável do desenvolvimento
socioeconômico global. Esse entendimento se dá, sobretudo, a partir
da queda do muro de Berlim, da implosão da antiga União Soviética
e, quase simultaneamente, a abertura da China às forças de mercado,
fatores que supõem a existência de um espaço global em que o
predomínio do capitalismo é incontestável.
Os organismos financeiros internacionais adquirem, nesse
cenário, uma eficácia muito maior na obtenção do consenso; em
muitas situações, é possível mesmo obtê-lo sem a necessidade de armas
ou soldados. O Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a
Organização Mundial para a Propriedade Intelectual ou a
Organização Mundial do Comércio desempenham bem a função de
dominação, através de suas imposições políticas e econômicas,
principalmente nos países da periferia do capitalismo.
Os meios de comunicação, monopolizados por grandes
empresas, reproduzem essa lógica, massificando e naturalizando o
discurso da globalização e criminalizando as ações de resistência. O
desenvolvimento das Tecnologias da Informação e Comunicação
(TIC’s) não foi acompanhado da democratização dessas ferramentas e
aqueles que não reproduzem o discurso hegemônico não são
autorizados a utilizar-se dessas tecnologias, ação legitimada pela
regulamentação do setor voltada quase que exclusivamente para a
defesa dos interesses das grandes empresas de comunicação.
Em todo caso, a utilização desses elementos na busca do
consenso não anulou o uso da força e da coerção como forma de
manutenção da hegemonia dominante. No caso dos veículos de
comunicação, a estratégia de dominação é não só econômica, mas
ancora-se também na legalidade e na violência física, tendo em vista a
legislação da maioria dos países que impede o livre exercício da
expressão e comunicação, criminalizando as iniciativas da sociedade
civil no uso dos meios de comunicação e a perseguição de movimentos
como os de rádios e tvs comunitárias, livres e alternativas. Mesmo não
reivindicando legalidade, negando o rótulo de (i)legal, não é possível
negar a existência da lei, da coerção, da força, do Estado – que, afinal,
não se importa com qualquer concepção de quem a lei quer calar.
A supremacia militar estadunidense e o discurso da dominação
mundial pela força, recorrendo cada vez mais à violência para manter
uma ordem mundial injusta e desigual, também demonstra a
incapacidade dessa lógica em sustentar-se apenas pelo consentimento.
Assim como é difusa a ideologia dominante e apresenta
diversas contradições; são múltiplas as ações de resistência e
estratégias de cada grupo social. Para compreender a configuração da
dominação e da resistência é preciso ir além da esfera do trabalho,
“transferir o centro da análise das relações de exploração para as
relações de dominação da vida social e transcender a esfera do
trabalho”. A organização das resistências abarca também aspectos
culturais e sociais, envolve a construção de sentidos nas diversas
esferas de reprodução da vida.
Nesse universo de sentidos múltiplos, contraditórios,
complexos, há uma dificuldade em diferenciar as criações que
subvertem, que transformam, que questionam daquelas que, ao
contrário, conformam. É comum que se torne artigo de consumo,
nicho de mercado, o que foi criado originalmente contestando a lógica
do dinheiro. Fazer da tradição, da miséria, da arte, da identidade
oportunidade de lucro; vender a rebeldia como moda jovem; vender
produtos que exploram animais com imagens de galinhas, perus,
porcos felizes; colocar a foto de Che Guevara num biquíni em desfile
de luxo. São formas de esvaziar, distorcer sentidos e confundir. São
formas de também transformar protestos, de apropriar-se do universo
simbólico, das representações de organizações de resistência.
A coerção apresenta-se como legítima, por uma atuação da
ideologia dominante capaz de provocar um certo consenso. E o
consenso surge como concepções de mundo difusas na sociedade em
diversos espaços e com sentidos múltiplos. Tal consenso forma-se não
só naquilo nos espaços essenciais de reprodução capitalista, mas nos
que contestam.
Referências
ANDERSON, Perry. A batalha das idéias na construção de
alternativas. In: BORON, Atílio, (org.), Nova Hegemonia mundial: Alternativas de mudança e movimentos sociais. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2004
CECEÑA, Ana Esther. Hegemonia estadunidense e dominação capitalista. In: CECEÑA, Ana Esther (org.) Hegemonias e emancipações no século XXI. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, julho de 2005.