Inquisidores, Mártires, Hereges e Libertinos

Inquisidores, Mártires, Hereges e Libertinos

Felipe Ribeiro

A ideologia materialista da civilização técnica evolutiva moderna ao desdobrar sua metaprodutividade na globalização, urbanizou todas as experiências vitais, domesticando os instintos sagrados, encarcerando os corpos ao cálculo do progresso positivista de seu conhecer-fazer  num saber-poder. Fazendo de nômades, turistas; formatando a vivência de autoprodução poética à reprodução gramática dos códigos convencionais. Estabelecendo, a partir do modelo laico capital-socialista, territorializações arbitrariamente tidas como pragmáticas sobre todos os terrenos; impôs seu jovem modelo de comunhão social a todas as culturas, agora tidas como extintas ou exibidas como arqueologias museológicas sob o rótulo ‘povos originários’.

Piratas fundaram as megacorporações transnacionais de tráficos (armas, drogas, corpos, especiarias, tecnologias) que embasaram o capitalismo e hoje  dão margem à hipnose da dieta mundial, ou tornaram-se corsários que obedecem aos governos no seu aparelhamento dos mares. Mendigos são catalogados e contabilizados em censos anuais e, da mesma maneira que loucos e prostitutas, passaram de protetores dos limites a aleijados do espírito analisável. Os videntes calaram-se, temendo que seus conhecimentos caissem em mãos erradas; ou foram calados pelo descrédito e pela desinformação organizada. Cada vez mais se proibe a pirataria de produtos e seus preços aumentam, ampliam a repressão aos moradores de rua e os preços dos imóveis aumentam, se mistifica e ridiculariza o pensamento e a intuição sensível e o preço da educação aumenta. A ideologia do paraíso perdido que sustenta esta cultura civilizatória, critica o cerne da experiência do aqui-agora e torna sua solução inalcançável para a maioria, criando um pedágio das experiências vitalizantes (tal como uma cerca ao redor de uma cachoeira).

O que resta é o feudo mundial, nascido do crescimento artificinatural da aldeia global sob o controle do pensamento racionalista. A civilização controla a cultura da espécie da mesma forma que às cidades, onde todos os meios são organizados de maneira a manter a previsibilidade dos movimentos e sua categorização. Esta série de barragens dos fluxos acabam por se aglomerar fazendo da cidade como da cultura civilizatória grandes produtoras de lixo, físico e subjetivo. Assim, xs sujeitxs estando sujeitxs à visão objetiva e reduzindo-se a força de trabalho e consumidores de bens materiais, como um agricultor que queima parte da safra para manter uma certa margem de lucro, a civilização mantém continuamente um holocausto silencioso de expurgo voluntário da parte de sua população insubmissa às regras hierárquicas monetárias de transpoder (micropoder em seus desdobramentos macropolíticos). Tais ritos escondem-se sob o imaginário do perigo e da criação contínua de necessidade de segurança, remete-se aqui ao medo produzido pela possibilidade de nos tornarmos piratas, mendigos ou charlatães (bodes expiatórios) e na perseguição consequente a isto.

A inquisição é a metodologia onde através do indagamento de perguntas chegar-se-ia a uma resposta. Das questões, soluções. Desta metodologia vimos surgir tanto a ciência moderna experimental quanto um dos mais pesados dogmas maniqueístas já vislumbrados: o Santo Ofício, que buscava a eliminação de todxs xs crentes numa verdade não oficial. Percebemos uma relação direta entre a ideologia tecnofetichista científica – que reduz a pesquisa das faculdades cognitivas de maneira a conduzir os processos de acordo com um interesse materialista – com esta perseguição à variedade da experiência humana – que reduz a vivência dos modos de vida por uma não aceitação da condição humana, sempre submissa às leis do tempo e da natureza. Tal ideologia inquisitiva serviu de embasamento moral para a colonização das mais distintas culturas, em prol de uma reserva de mercado de servidores, agindo contra o sincretismo religioso, este pensamento crítico sobre a experiência religiosa. Como um exemplo, o princípio inquisidor que levou a idéia de evolução progressiva à pesquisa melhorista da música gerou também a perseguição à música popular ‘profana’ bem como às formas de soação não tonais. O programador teve um pesadelo onde a igreja da ciência atuando em ritos de consumo e entretenimento fez do Vale do Silício uma nova Vaticano. Editais de fomento transformam artistas em burocratas preenchedores de formulários, desarmam seus discursos e inquirem sobre cada gesto antes de sua realização. Redes de relacionamentos inquirem o que pensamos, levam a uma confissão social que interpõe a intimidade com produtos culturais. Os métodos de pesquisa das empresas de propaganda são cada vez mais científicos e bem desenvolvidos, e os cartéis de pedágio sobre a saúde ampliam seus domínios…