O homem técnico e o esquecimento do ser

O homem técnico e o esquecimento do ser.
Leidiane Coimbra – Mestre em Filosofia Universidade Federal da Bahia

Resumo

O homem contemporâneo, instituído a partir dos ditames da razão na modernidade, corresponde ao modo de ser que se revela como tecnológico. À essência da técnica moderna, liga-se a essência do homem moderno. Esta essência é deflagrada em nossa época a partir da dicotomia sujeito-objeto, instituída na modernidade com a apreensão do homem enquanto sujeito, em detrimento de outras possibilidades de ser. Enquanto modos de desvelamento de ser, tanto a técnica quanto o sujeito são verdades e caracterizam o modo como ser se desvela na contemporaneidade. O homem, ao assumir o modo de ser do sujeito, se relaciona com o mundo e com sua época no distanciamento que objetiva tudo que lhe é exterior. Desse modo, torna-se possível afirmar, com Heidegger, que o homem vive a época do esquecimento da diferença entre ser e ente, diferença a partir da qual pode-se compreender o ser que ele mesmo é.

O homem técnico e o esquecimento do ser.

No instante em que o homem foi apreendido no modo de ser do sujeito racional, instaurou-se uma época em que a racionalidade seria a condutora do modo em que ele se coloca diante do mundo. Ao sair da determinação da criatura, forjada pela teologia cristã da Idade Média, na Modernidade o homem assume nas ciências, nas artes e na filosofia, o caráter de medida a partir do qual os entes no mundo são apreendidos e classificados.

A frase tão repetida de Descartes “Penso, logo existo”, não quer dizer apenas a supremacia do homem em relação ao mundo. A supremacia do cogito, estabelecida a partir da racionalidade, refere-se também ao modo a partir do qual, o homem, o ente que pensa e por isso tem existência, se relaciona com os entes do mundo, estes, por sua vez, são apreendidos como objetos, uma vez que são exteriores ao homem e não se inserem na categoria que determina a existência de algo, qual seja, a racionalidade. Enquanto modo de ser do sujeito, que tem a sua existência assegurada por algo que é inerente à ele próprio, ou seja, a razão, o homem só pode se relacionar com os entes no distanciamento da diferença, haja visto que estes, não são dotados de nenhuma racionalidade, o que os torna, nesta dicotomia, objetos distanciados do sujeito homem.

Embora a determinação do homem como sujeito, ponha em risco a sua essência, ela deve ser entendida como verdade, ou seja, desvelamento de ser. A verdade em seu sentido originário significa alétheia, ou seja, des-encobrimento, des-velamento. Refere-se ao movimento que conduz o que está encoberto, oculto, ao des-velamento. A verdade, nesse sentido, tem uma significação que supera a única significação assumida em nossa época, que é de verdade enquanto garantia de certeza, asseguramento do modo de ser de um ente revelado. Ainda que apreendida como certeza e asseguramento, a verdade é um modo de ser que se desvela.

Nesse movimento, há uma relação de pertença entre verdade e ser, e ser e verdade onde a verdade sempre se revela num modo de ser e, a partir daí, o ser se mostra num determinado modo. Este imbricamento essencial entre ser e verdade, permite que o ser se desvele em um modo ou outro e, a partir desse desvelamento de ser, o homem constitui sua essência na disposição a partir da qual referir-se-á ao modo desvelado de ser.

Na atual época, o ser se desvela como esquecimento. Mas de que forma?

No esquecer não somente algo escapa de nós, mas o esquecer decai para um ocultamento, de tal modo que nós mesmos caímos no ocultamento precisamente em relação ao esquecido.1

A essência do homem é, segundo Heidegger, caracterizada de modo mais originário e positivo a partir das possibilidades de ser que lhe são inerentes. O homem é um ente que tem um certo privilégio em relação aos outros entes no mundo, porque a essência do homem tem um caráter de abertura, que lhe permite ter modos de ser em contraposição aos entes do mundo que, por sua vez, desvelam um modo de ser e não tem em sua essência uma abertura que lhe permita ser, por si próprios, de um outro modo. O quadro na parede, o livro no chão, não se dão de outro modo por si mesmos. Embora o homem tenha o poder de interferir no uso do objeto com o qual se relaciona na ocupação, e, através da manualidade atribuir ao objeto uma outra função diferente da que este realiza, o objeto por si não pode desenvolver um outro modo de ser.

O homem é para Heidegger, Dasein, ou ser-aí, traduzido por Márcia Schuback como presença2. O prefixo inicial da palavra, significa em sua estrutura interna, uma abertura. Ontologicamente, ou seja, em relação ao seu modo de ser, o dasein é enquanto possibilidades de ser que se mostram nessa abertura. As possibilidades de ser do dasein, do homem, acontecem no mundo. É pelo fato de o homem ser um ser-lançado-no-mundo, que ele tem possibilidades de ser e com isso tornar-se um ser-no-mundo. Enquanto ser-no-mundo, o homem é constituído por algo que, de antemão lhe parece exterior: o mundo. De fato, apenas parece.

Mundo, segundo Heidegger, é muito mais do que a nossa compreensão de sujeito pode alcançar quando o vê como objeto do qual podemos dispor. Mundo é o horizonte em direção do qual o homem se dirige, encontra possibilidades de ser e pode realizar um modo de ser diferente do que é. Desse modo, o mundo deve ser considerado uma estrutura essencial do homem, que está intrinsecamente ligada ao seu caráter de abertura e por isso o fundamenta. Ora, o homem é no mundo, e somente no mundo pode realizar seus modos de ser. Esta é uma estrutura fundamental do homem porque sem o mundo o homem se determina num único modo, o que equivale ao aniquilamento do homem como ser-no-mundo e, consequentemente, o domínio da concepção do homem unicamente como sujeito.

A época tecnológica que, segundo Ivan Domingues em seu artigo intitulado Ética, Ciência e Tecnologia, terá um impacto mais profundo que a Revolução Industrial, sustenta este modo de ser do homem, ou seja, o modo do sujeito. O sujeito tecnológico, comporta-se segundo o modo do técnico, do perito, que se dispõe no mundo como um ente hierarquicamente superior porque pode dispor do mundo e pode dominá-lo, investigá-lo, explorá-lo e fazer uso dele segundo suas próprias vaidades. Entretanto, não é o caráter de dominador ou explorador do mundo que coloca o homem na iminência do aniquilamento de sua essência. Mas, é pelo fato de antes, o homem já ter esquecido do ser, e do ser que ele mesmo é, que ele pode ser um explorador e consequentemente destruidor do mundo, ou seja, de si mesmo, uma vez que este é fundamento essencial de sua estrutura ontológica, do seu modo de ser.

A objetivação do mundo pelo homem, põe em perigo sua essência de abertura e consequentemente o acesso às possibilidades de ser que lhe vem ao encontro no mundo. Na objetivação do mundo, florestas são derrubadas, árvores são transformadas em fonte de energia térmica, carvão; rios são transformados em usinas, pois todos os entes são apreendidos apenas em sua serventia, como algo do qual o homem dispõe para um uso. Esse afastamento permite que o mundo seja apreendido no modo de ser do recurso, ou para usar o termo de Michel Zimmerman, da “matéria-prima”3. Ao se relacionar com o mundo e com os entes de tal forma, o homem determina a configuração histórica de sua época, ainda inserido na dicotomia sujeito-objeto. Nessa relação assume um modo de ser que lhe dá supremacia em relação aos entes, em detrimento de modos de ser que o coloquem numa relação de proximidade originária com o mundo e com a totalidade de entes que o cercam e o constituem, mesmo que sem seu reconhecimento. Devido ao advento tecnológico, o homem pode criar máquinas, para “facilitar” seu trabalho, para substituí-lo. Computadores, eletro-eletrônicos, robôs, são realidades de nossa época, usados em geral, para substituir o trabalho humano. Entretanto, essa demanda nunca é inteiramente satisfeita e a apreensão do homem como máquina de trabalho é inevitável. Prova disso, são os grandes departamentos de recursos humanos.

A tecnologia veicula ou articula o modo de ser da humanidade, quando sua essência tende a desapropriá-la da possibilidade de pensar seu modo de ser e, assim, a bloquear o caminho que lhe permitiria dispor de outras formas de existência que não as tecnológicas e maquinísticas.4

A configuração de nossa época como tecnológica, é uma conseqüência da apreensão do homem como sujeito, que por sua vez, tornou-se um modo de ser efetivamente real, devido ao fato do afastamento do homem de sua estrutura essencial, mundo, ter tornado possível o esquecimento do ser. Desse modo, e a partir da consideração do homem como sujeito é que podemos afirmar com Heidegger que a época da técnica, corresponde à época do esquecimento de que o ser se demonstra de diferentes modos porque se revele de diferentes modos.

É importante ressaltar que não é o fato de o homem ter sido apreendido no modo do sujeito que determina a época do esquecimento do ser. Mas, o fato de o homem se determinar a partir de um único modo de ser em detrimento das possibilidades de ser que lhe são proporcionadas a partir do seu caráter de abertura; devido ao seu modo de ser lançado no mundo e da sua constituição a partir da estrutura do mundo enquanto horizonte de possibilidades. No entanto, a configuração de esquecimento é também um modo de desvelamento do ser. Assim, podemos afirmar que o ser se desvela em nossa época como esquecimento, o que justifica o fato de a decisão sobre os modos de ser do homem não acontecerem unicamente a partir da sua livre vontade.

As possibilidades de ser do homem, abrem-se a partir da disposição. Esta entendida onticamente como humor, refere-se a um modo de ser-no-mundo. “O estado de humor da disposição constitui, existencialmente, a abertura mundana da pre-sença.”5 . Segundo Heidegger, o homem sempre está num humor. E, é o que se abre para o homem num humor, e a atitude do homem, frente ao que se abre, que configura seu modo de ser no mundo. Sendo um caráter ontológico do homem, o humor está sempre presente, ou seja, o homem sempre está num humor. Não existe a ausência de humor, nem o controle deste pelo homem, mesmo que caiba ao homem, diante da abertura do humor uma decisão frente ao que se abre, seja na recusa ou na entrega.

Concordamos com Heidegger, quando este afirma que:

O humor não realiza uma abertura no sentido de observar o estar-lançado e sim de enviar-se e desviar-se.[…] a disposição abre a pre-sença em seu estar-lançado e, na maior parte das vezes e antes de tudo, segundo o modo de um desvio que esquiva.”

Nesse desvio o homem volta-se para si mesmo recusando a possibilidade aberta num determinado humor e dirigindo-se à multiplicidade de modos de ser que se abrem nesta recusa. Recusar uma possibilidade, neste sentido especificamente, significa voltar-se para a abertura que lhe permite ser de modo mais próprio, ou seja, ser na abertura que o liga a mundo e por isso, aproximar-se de sua essência, segundo Heidegger, mais positiva, qual seja, possibilidades de ser.

No esquecimento, ao qual nos referimos anteriormente, específico do modo de ser de nossa época, fica vetado ao homem, esquecido de sua essência, voltar-se para a abertura de possibilidades próprias à sua constituição ontológica. Enquanto permanecer preso aos liames determinados pela dicotomia entre sujeito-objeto, estabelecida em sua época como homem-técnica, o seu modo de disposição no mundo não poderá ser superado no sentido de uma abertura originária de sua essência. Caberia a nós uma pergunta que direcionasse à uma saída para esta relação do homem com a técnica?

Talvez a experiência do que se abre na recusa, nos traga como possibilidade a abertura que nos aproxima do nosso modo de ser mais próprio e do que nos constitui essencialmente, o ser-no-mundo. Tendo em vista que na recusa do que se abre num determinado humor, nos voltamos para uma diversidade de possibilidades que nos insere na originariedade de nossa essência.

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

LEIDIANE COIMBRA DE LIMA CASTRO

O homem técnico e o esquecimento do ser.

Salvador,

Setembro, 2009.

Referências Bibliográficas:

HEIDEGGER,Martin. Ensaios e Conferências. Petrópolis,RJ: Vozes,2001.

_______________.Parmênides. Petrópolis: Vozes, 2008.

_______________. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2006.

_______________.Ser e Verdade. Petrópolis: Vozes, 2007.

DOMINGUES, Ivan. Ética, ciência e tecnologia. In: Revista Kriterion, n: 109.2004.

RÜDIGER, Francisco. Martin Heidegger e a Questão da Técnica: Prospectos Acerca do Futuro do Homem. Porto Alegre: Editora Meridional/Sulina.2006.

ZIMMERMAN. Michael E. Confronto de Heidegger com a Modernidade. Tecnologia, Política, Arte. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.

1 HEIDEGGER,Martin.Parmênides.Petrópolis:Vozes.2008.p.45.

2Id. Ser e Tempo.Petrópolis:Vozes.2008.

3ZIMMERMAN. Michael E. Confronto de Heidegger com a Modernidade. Tecnologia, Política, Arte. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.

4 RÜDIGER,Francisco. Martin Heidegger e a questão da técnica: prospectos acerca do futuro do homem. Porto Alegre: Editora Sulina,2006.p.46.

5 HEIDEGGER,Martin. Ser e Tempo.p.192.