Corpos Conectores

>>dos contágios e narrativas

No dia da consciência negra é uma satisfação falar de uma luta específica, a do quilombo de Alto Alegre – CE. Falar do cotidiano, do sorriso de sua gente e da batalha em se afirmar e conquistar o espaço para falarem de si e de sua cultura. A luta é cotidiana, o preconceito, já muito vencido, ainda resiste ali bem próximo, identificado em pequenos gestos. Não é à toa sua desconfiança imediata. Mas se chega com leveza, afrouxa o sorriso e é só afeto. Abraçar esse cotidiano é tocar uma consciência que deixa de ser alheia. Mais do que uma reparação, esse dia da consciência é um convite à escuta, ao conhecimento da luta, à percepção de uma diferença para se aproximar. Foi da história trilhada por nossos antepassados que herdamos uma distância. Mas é se misturando que se faz a consciência. Essa luta, como essa gente, é incansável. ‪#‎ConsciênciaNegra‬

Retratos do Quilombo • cores, consciência e faces IMG_8376Estampas inspiradas no repertório visual da comunidade e a beleza feminina de Alto Alegre com Isadora, Mariana, Fabrine, Lyara, Ryanna, Cristina, Jamirys, Fabíola e Milena

IMG_8534Ensaio fotográfico explora o cenário inspirado na criação das estampasIMG_8504 IMG_8509Dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, acontece o concurso Princesa do Quilombo e Miss Negra. Uma semana comemorativa valorizando a cultura e as pessoas da comunidade.

Ensaio fotográfico idealizado pela equipe de produção da ARQUA, conectando as ações do projeto corpos conectores com os eventos do Centro Cultural Negro Cazuza. Lindo de ver!

equipe de modelagem dos tecidos • Alexsandra Amaral e Das Dores Vale
idealização • Tatiana Ramalho :: produção • ARQUA
apoio • Nego de Neco, banda Afro Alegre e Rafael (mercadinho)
fotografias • Zzui Ferreira

clique para ver todo o ensaio fotográfico

IMG_8440A pequena Lyara com adereço da exposição Raízes do Quilombo. Poema Tatiana Ramalho

“Africanidade, identidade
Africanidade, liberdade
Africanidade, realidade”


As identidades e o corpo coletivo • o quilombo e seus espaços de conexão3X4-retratos-OK

Aqui me identifico corpos conectores, um corpo estrangeiro que percorre das trilhas da mata atravessada pelo rio Pacoti, às plataformas de experimentação digital do labCeu de Horizonte; dos quintais das casas quilombolas aos pequenos comércios da cidade; dos ateliês da comunidade ao centro de artes (CEU). Uma imersão à prova do porvir, um convite ao encontro, uma ocupação a constituir-se de outros corpos, os conectados. Provoco a subversão dos sentidos dos percursos, onde a comunidade possa estar mais presente na cidade, ocupando o seu lugar de “identidade cultural” visível, expressa e para além das fronteiras do quilombo. Conecto a cidade com o saber dos seus povos ancestrais através das cores da mata nativa, das fibras da carnaúba, dos olhares despertos, dos sorrisos encabulados e dos toques dos tambores.


Ser quilombola em Alto Alegre

Antonia-CarnaubaDa palha da carnaúba, Tia Antônia cria suas artes trançadas.

AntoniaRecicla
Cortinas confeccionadas com material reciclável.

Do alpendre de sua casa Tia Antônia nos recebe numa tarde de produção artesanal. Sentada no chão ela trança um tapete da palha da carnaúba. Sempre meio desconfiada, ela olha como quem não está muito afim de prosa e adentra a sua casa. Nesse momento achei que as fotos da confecção do tapete foram suficientes e encerraria ali a visita, mas prontamente a artesã retorna ao alpendre com as mãos carregadas de suas artes. Aos 78 anos de idade, Tia Antônia é a artesã referência da comunidade. Foi ela mesma quem coletou as palhas na mata, com ajuda dos netos. “Desde menina que meu trabalho é esse aqui. Nunca quis ser empregada, porque eu gosto mesmo é de fazer minhas coisas. Tenho quase 60 anos de casada, mas graças a Deus, nunca precisei de dinheiro do marido”. Mulher de muita fibra e fé, ela fala de sua persistência no ofício que poucos sabem fazer na região. “Tem umas que até sabem, mas não se interessam porque acham pesado. Eu não. Meu trabalho é da ‘mão grossa’ mesmo”. Da continuidade desse ofício na comunidade pouco se tem esperança, os jovens estão envolvidos em outras atividades. Muitos trabalham na indústria na cidade de Horizonte. Tia Antônia é uma resistente na atividade, e nos demonstra os variados trançados com muito amor. Vende diretamente ao consumidor, os que chegam até sua casa sabendo já da sua maestria com a palha. Das técnicas do trancado com a palha ela também aplica com plásticos descartáveis. Ela exibe outros objetos feitos de reciclagem. Cortinas e luminárias “feitas daquelas garrafas de água sanitária. Deu um trabalho danado pra conseguir essas embalagens. A mulher encomendou para mais de um ano e nunca veio buscar”. Da cortina brilhosa que apresenta, explica que foi sua irmã que fez, com embalagens de ‘Cheetos’. Assim, ela soltou um lindo sorriso de quem tem o prazer no que faz e muita satisfação em contar sua história da lida com a atividade que pouco parece empolgar seus descendentes. Alguns dos admiradores do seu artesanato temem: “vai acabar…” Dona Antônia é casada com seu Cirino, um trabalhador da terra. Ele é agricultor e, mesmo aposentado, ainda vai para a roça e participa de encontros com produtores da região. A agricultura é uma outra atividade que provavelmente será pouco praticada pelas futuras gerações. “Os mais jovens não se interessam, minha filha.”


 

IMG_7377-WEB IMG_7366-webIMG_7552-web  IMG_7546-webGrupo de mulheres a aprender trabalhos manuais. Um incentivo para a melhor idade.

Da potencialidade artesanal de Alto Alegre há um grupo de mulheres que se reúne no NUPIR (Núcleo de Promoção da Igualdade Racial) a aprender e experimentar com trançados em jornal e criar outras artes manuais. Uma atividade a estimular a busca por um complemento à aposentadoria. Desse grupo, visitamos a casa de Francisca da Silva, a Chiquinha, há quatro anos vem se dedicando a trançar objetos utilitários, fazer bordados e enfeites. A comercialização do seu trabalho é ainda tímida, depende de mais incentivo, de materiais e espaços para expor. Ela fala, com amor no sorriso, da sua paixão pelo artesanato e de um desejo enorme de aprender sempre mais.


IMG_6190-webIMG_6281-web-pajeO índio descendente dos paiacu, Coelho, nos apresenta alguns encantos da mata.

Do processo imersivo e fotográfico, produzimos um banco de imagens para a oficina de estamparia digital. No percurso, próximo ao canal da integração, adentramos uma trilha na companhia do índio da região. Coelho, conhecedor dos mistérios das matas e das habilidades indígenas, é artesão e está envolvido em várias ações culturais sendo um dos colaboradores da sala de memórias do distrito de Queimadas. O ‘pajé’, descendente dos Paiacu (primeiros habitantes de Pacajus), mora em Alto Alegre. Desde que casou com a quilombola Conceição, fazedora dos deliciosos “doce da preta”, o índio fixou residência no quilombo e tem pesquisado e reconstituído sua história ancestral referente à cidade originária de Horizonte (o município de Pacajus). Bastante espiritualizado, Coelho é mais um conexão de histórias cruzadas e encontros felizes. O índio e a Preta formam um elo étnico, relembra e resgata as origens de toda uma história da região, quando o Negro Cazuza chegou nessas bandas e casou com uma índia local, e com a chegada de mais negros  refugiados, fundou o quilombo de Alto Alegre.


 

070-web 084-web Liduína em sua horta caseira e a agricultura natural. Do quintal para o LabCEU. 

A simpática dona Liduína está sempre envolvida em muitas atividades da comunidade, cursos oferecidos para as mulheres e para idosas, no Núcleo de Promoção da Igualdade Racial (NUPIR). A aposentada é uma quilombola matriarca de uma família que vive da apicultura e do comércio em feiras de produtos agroecológicos. Liduína nos apresenta a horta caseira totalmente livre de venenos e com tecnologias alternativas de irrigação. Falamos sobre agricultura natural, o pouco valor que o consumidor dá ao produto orgânico e ao pequeno produtor. Das fotografias feitas na horta e jardim de Liduína surgiram alguns experimentos finalizados em estampas. Folhagens, flores, frutos, a mandioca, todo um universo de cores e formas naturais colhidos do quintal de Liduína. Mas a questão que atualmente preocupa e mobiliza Liduína, é a luta por um ponto de apoio à mulher, na comunidade. A violência doméstica é um dos grandes problemas em Alto Alegre, “mas ninguém fala”. “Inclusive por ser um assunto delicado, geralmente é evitado pela vítima e abafado em toda comunidade, permanecendo acoitado por esse silêncio”. “Mas eu já fui numa reunião e pedi para ser criado esse ponto de apoio para receber essas mulheres”. Liduína, outra guerreira de fibra e sabedoria.


IMG_6014-web Nego de Neco no acervo do centro cultural. Réplica de fogão à lenha , feita pelo Pajé Coelho.

“Já levei muita quengada dessa na cabeça. Eu na barra da saia da minha mãe esperando o comê sair”. Nego de Neco, presidente da associação (ARQUA), bisneto do Nego Cazuza, exibe os utensílios no acervo do Centro Cultural Negro Cazuza. Da cozinha antigamente:
“aqui o fogão à lenha, e esse aqui é o coador, que nos tempos antigos fazia café assim: colocava a água para ferver já com o café. Depois botava o tição de fogo dentro da lata com o café fervendo. Aí o café assentava no fundo da chaleira (lata), aí passava de uma chaleira para a outra”. O Nego é uma espécie de agitador cultural, como locutor da rádio comunitária ele está sempre despertando os “despertares”. “Muito se tem pra vencer ainda, mas já estamos no caminho. Antigamente nós tínhamos vergonha da nossa cor. Hoje não tenho mais! Era todo encabulado. Hoje eu sei chegar, sei sair”. Na parede exibe a ‘algora’, uma espécie de algema de amarrar os escravos. “Isso aqui é importante pra gente lembrar o quanto nossos antepassados sofreram com a escravidão”.


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Tia Souza e a Pedra Encantada. Diz a lenda de uma senhora que lá vivia e plantava num terreno ali próximo. Um certo dia ao voltar da roça para casa, Iãn passava pela pedra e encontrou uma chave de ouro, que seria para ela abrir um tesouro. “A voz falou, isso aqui é para você”. Iãn preferiu ir em casa primeiro, “buscar o véi”. Ao voltar na pedra, o tesouro estava fechado. “Era para ela só, não era para o véi vê. Quem ia se encantar era ela”… “Quem vem aqui ao meio-dia arrisca encontrar essa chave. Eu ‘merma’ não quero achar. Se eu achar, eu tenho que ir embora daqui. Eu merma não”, opina Tia Souza. A quilombola conhecedora das plantas medicinais encontrada na mata, costuma fazer a trilha. Lembrar os tempos em que sempre frequentava o caminho castigado pela vegetação seca. Atualmente vai pouco por essas bandas, desde que o canal da integração foi construído, houve muito desmatamento no local e a presença de pessoas estranhas chegadas na região tornaram o lugar perigoso, como é espalhado na comunidade.


Corpos Conectores, uma provocação ao encontro. Intimamos corpos a se conectarem nessa imersão. Agregar corpos múltiplos, desconstruir-se e reconstruir-se com o outro. Fazer reverberar em outros polos, outros sentidos, outros poros. Multiplicar as trocas, inverter os percursos e costurar as ideias. Fazer vibrar por contágio. Colorir as peles e agregar saberes. Desenhar os sonhos. Subverter os espaços. Acontecer!

 

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