A área de comunicação é muito dinâmica. É por isso que algumas demandas costumam surgir nas agências de publicidade de forma inesperada. Geralmente é algo estratégico para o cliente, motivado pela concorrência ou mudanças de mercado. São necessidades que precisam de respostas rápidas e eficientes, mas não costumam aparecer sempre.

Do outro lado, existem as demandas esperadas e previsíveis. E por mais estranho que pareça, são os trabalhos que mais geram horas-extras dentro de uma agencia. Por falta de planejamento, muitas vezes eles acabam sendo deixados para a última hora. É aí que entra o chamado “apagar incêndio”. Esse é, aliás, um nome muito bom, se pensarmos que a maioria dos incêndios acontece por imprudência. E que por mais bem apagados que sejam, sempre acabam causando danos, tanto pelo fogo quanto pelos métodos usados para combatê-lo.

Outra coisa que acontece com freqüência é combatermos incêndios mesmo quando não há fogo. Perdeu-se a noção do que é urgente. Capricho de uma sociedade que não sabe o que é esperar. Castigo de agências que se acostumaram a dizer sim, sempre. Precisa-se para ontem, mesmo sem saber por quê. Mesmo sem saber de que. E nesta história perdemos um tempo precioso em refações, descobrindo “porquês”. E o que era urgente fica para a semana seguinte, para o mês seguinte.

Passar noites trabalhando é um fato tão corriqueiro em algumas agências que quase o tomamos como natural. O fato é que, além dos problemas citados, existe um importante agravante: a constante redução das margens de lucro do setor. Ao invés de escolher pela qualidade, a maioria das empresas escolhe suas agências pelos descontos que elas são capazes de oferecer. E aí, para dar conta do serviço, é preciso recorrer às madrugadas, aos fins de semana. Um profissional precisa fazer o trabalho de três. Um job que deveria levar dois dias para ser bem executado, agora precisa sair em uma tarde.

Então, seguem todos completamente iludidos. O cliente acha que pagou menos e recebeu rápido, sem perceber que a economia e a pressa podem estar custando para sua marca mais caro do que imagina. A agência fecha o mês no azul, sem notar que caminha para um abismo, trabalhando cada vez mais, exaurindo seus funcionários e jogando seu portifólio na lama. Apagando incêndios e com o filme queimado. Já aos funcionários, resta pagar suas contas e aproveitar o falso glamour de uma profissão cada vez mais desgastante, competitiva e que, para a maioria, acaba aos quarenta.

Marcus Vinícius “Passarinho” é redator, e acredita que neurônios queimam melhor dentro do expediente

Tags: , , , , , , , , , ,