Hoje acordei com vontade de ser um qualquer. Daqueles que vivem tranquilos sem querer convencer ninguém. Sem querer ser notícia. No meio de tantos formadores de opinião, reservar-me o direito de deixar a minha para depois. Estou com preguiça de parecer inteligente, culto, atualizado, descolado, alternativo. Cansado de tanta informação de utilidade discutível. Nada contra quem parece de tudo saber, e dispara máximas como uma metralhadora aristotélica. Mas é que ser vulgar tem suas vantagens. Se ninguém me segue, posso ir impunemente a qualquer canto. Visitar qualquer ideia.
Ando desconfiado das urgências modernas. Das promessas de futuros fulgurantes. Da novidade fabricada e da obsolescência programada. O que queremos está sempre à frente. O que sabemos e criamos fica sempre para trás. Por isso o melhor a fazer é descer do carro e contemplar a paisagem, nem que seja por uns momentos. Não há pressa. Ver melhor os detalhes pode acabar até te levando mais longe. Além disso, acredite, tem tanto bonde passando por aí que não é difícil pegar carona no próximo.
O discurso é velho, eu sei. Mas o desespero também. Por isso escolho o lado que mais me convém. Uso o tempo que preciso. Dou um sorriso maroto pra última moda. Pro último update. O progresso avança como um tornado. Mas hoje ele nem move meus cabelos. Não enche meus olhos de areia. Não enche meus olhos. Deixo preguiçosamente o sol me contar verdades que não aparecem no jornal. Abro os braços e flutuo no caos. Não porque estou farto de tudo, mas porque tenho uma fome imensa. Mas nada do que me dão me sacia.
