O REFÚGIO DA FRATERNIDADE

5a07bb9b-0b01-494b-aaa8-c8a2aae1ce81

Milhares de venezuelanos cruzaram a fronteira com o Brasil nos últimos meses para fugir da pior crise da história do país. A cidade de Pacaraima no estado de Roraima é a porta de entrada desses refugiados e recentemente foi palco de muita violência contra pessoas de todas as idades, inclusive crianças, numa espetacularização da desumanidade ou ainda na banalização da barbárie, um triste capítulo da nossa história …  Ver aquelas pessoas famintas, desoladas, desabrigadas, sem rumo, com crianças ao relento e não se comover é uma prova da atualidade que vivemos, de uma geração fria e uma humanidade morna… Falta de tudo, inclusive uma política nacional de apoio à essas famílias, mas o que ainda resta nesses casos é um pingo de esperança para reconstruírem suas vidas…

E nós, brasileiros, o que nos falta? Falta antes de qualquer coisa uma auto-fiscalização da fronteira que separa nossa generosidade da perversidade; talvez psicólogos possam explicar muito melhor e mais tecnicamente essa tal projeção no outro, mas quando um grupo de cidadãos de Roraima, que historicamente são esquecidos na geografia social do país, toma a brutal atitude de expulsar irmãos latinos refugiados de seu país para tentar sobreviver em solo brasileiro é mesmo uma catástrofe humanitária sem tamanho.

A dimensão simbólica é assustadora pois ninguém escolhe ser refugiado, quem foge de sua casa, de seu território, de sua nação é para proteger seus filhos da fome, da violência, do descaso, da morte… A medida que o refúgio desses seres humanos indefesos, desprotegidos encontra do lado de cá intolerância e medo é por que a dignidade por aqui já fugiu faz tempo. Em todo caso, esses cidadãos que colocaram fogo nos poucos pertences dos irmãos venezuelanos, que os atacaram feito animais irracionais, com uma voracidade absurda, inclusive contra suas crianças, esses não representam a maioria da população brasileira, esses desconhecem, por exemplo, a história centenária de nosso país com os imigrantes de diversas nacionalidades, desconhecem ainda diversos tratados internacionais de direitos humanos, dos quais o nosso país faz parte. Enfim, mais uma vez a ignorância sendo rainha dos tolos.

Não é esse Brasil egoísta, separatista, medíocre e fascista que o mundo conhece e admira, não é esse tipo de Brasil que é conhecido pelo mundo como um país fraterno e acolhedor; esse Brasil que vergonhosamente é exposto é uma migalha de discursos prontos, de protótipos de seres humanos.

Brasileiros de Roraima que também sofrem pelas negligências do poder público que não os assegura direitos básicos e fundamentais se quer foram capazes de se colocar no lugar do outro, de ter compaixão, de pensar em comunhão.  Muito me espanta ver alguns religiosos defendendo essas atitudes, realmente eles não entendem nada daquilo que leem, por isso, muito provavelmente não entenderão essas minhas humildes palavras também.

Abordar desumanidades nesse espaço de comunicação é sem dúvida um lampejo de esperança, é uma tentativa de dizer “vamos pensar juntos” ou ainda uma provocação para que jovens possam ler e refletir naquilo que eles podem ou não se tornar, sobretudo na perspectiva de que somos o reflexo de nossas atitudes e expulsar irmãos venezuelanos do Brasil jamais será uma alternativa sensata, mas uma barbárie desses tempos sombrios.

Caráter e respeito pelo próximo não tem nacionalidade, pois o amor é uma língua universal.  Ortaet

1 pensamento em “O REFÚGIO DA FRATERNIDADE”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*