O vereador Fernando Holiday (DEM-SP), que também é um dos principais líderes do Movimento Brasil Livre (MBL), foi alvo de reportagem do site BuzzFeed que revela por meio de documentos a prática de Caixa 2 em sua campanha. Eleito em 2016 com discurso anti-esquerda e anti-corrupção, Holiday não teria declarado à Justiça Eleitoral pagamentos feitos em dinheiro vivo a 26 pessoas recrutadas para fazer a panfletagem na reta final de sua campanha. 

Holiday teria pago pessoas para trabalhar em sua campanha em dinheiro vivo, não declarado à Justiça Federal.

Holiday teria pago pessoas para trabalhar em sua campanha em dinheiro vivo, não declarado à Justiça Federal.

Por Cultura Livre – SP

Segundo apuração dos jornalistas Tatiana Farah e Severino Motta, em reportagem publicada no portal BuzzFeed Brasil  nesta segunda-feira (13), o vereador do DEM de São Paulo pagou em dinheiro vivo e não declarou gastos com cabos eleitorais na reta final da última campanha eleitoral, em 2016. Holiday nega e diz que todas as despesas da campanha foram declaradas.

O BuzzFeed Brasil publicou, sem revelar a fonte, planilhas e documentos com nomes e valores pagos à 26 pessoas durante a campanha. De acordo com o site, parte delas foi localizada e confirmou os serviços prestados e os valores recebidos. Segundo os cabos eleitorais, eles faziam a panfletagem e recebiam R$60 em dinheiro vivo em um shopping na avenida Paulista. Quem os recrutava era Tatiane Carvalho, estudante que aparece em fotos ao lado de Fernando Holiday e Kim Kataguiri, outro líder do MBL.

Reprodução.

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Procurado pela reportagem, Fernando Holiday negou irregularidades e disse que todas as despesas de sua campanha à Câmara dos Vereadores de São Paulo foram declaradas à Justiça Eleitoral.

A reportagem checou a veracidade das planilhas com quatro pessoas cujos nomes e assinaturas estavam nos papéis. Eles confirmaram terem prestado serviço para o candidato e relataram que o pagamento era feito, após cada dia de trabalho, em dinheiro, na praça de alimentação de um shopping na Paulista.

Reprodução.

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Os cabos eleitorais recebiam R$ 60 dentro de um envelope com seus nomes ao final de cada dia de trabalho. Depois, assinavam a lista de presença no papel. Os panfleteiros são jovens que, à época, estavam desempregados.

Todos os ouvidos pelo BuzzFeed Brasil relataram a mesma história e disseram ter sido coordenados por uma mulher chamada Tatiane.

Ela é Tatiane Carvalho, estudante que aparece em fotos ao lado de Holiday e de outro líder do MBL, Kim Kataguiri. Tatiane era uma das administradoras da página de Holiday no Facebook.

A reportagem teve acesso a dois áudios de WhatsApp em que Tatiane relata como está sendo feito o trabalho de panfletagem de sua equipe à coordenação de campanha.

Em um dos áudios, a jovem que é ligada ao MBL relata que sobrou dinheiro porque dois cabos eleitorais não apareceram para trabalhar e que vai pagar um extra aos demais para estenderem o trabalho por uma hora.

Ouça no link o áudio 1: Tatiane Carvalho trata de pagamento, em dinheiro, para cabos eleitorais de Fernando Holiday.

https://soundcloud.com/alexandre-de-aragao/audio-whatsapp-1-tatiane-carvalho-fernando-holiday-dem

Em outro, Tatiane afirma que o trabalho de sua equipe é mais sofisticado do que o fornecido pela empresa Classe A – a empresa que aparece na prestação de contas do candidato à Justiça Eleitoral como a responsável pela distribuição de panfletos.

 

Ouça no link o áudio 2: Tatiane Carvalho reclama dos contratados pela Classe A (que aparece na prestação de contas) e diz que os panfleteiros que ela recrutou (e não aparecem na prestação) são mais eficientes.

https://soundcloud.com/alexandre-de-aragao/audio-whatsapp-2-tatiane-carvalho-fernando-holiday-dem

 

Os cabos eleitorais do MBL não fazem parte da empresa que apareceu na prestação de contas enviada à Justiça Eleitoral.

Na prestação de contas de campanha de Holiday constam três notas fiscais emitidas pela empresa Classe A que somam R$ 4.755 pelo serviço de panfletagem. Uma das notas fiscais, de R$ 2000, coincide com o período em que os cabos eleitorais trabalharam: de 27 a 30 de setembro.

Mas esta nota não corresponde ao pagamento dos cabos eleitorais arregimentados por Tatiane Carvalho.

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Procurada, a empresa Classe A explicou ao BuzzFeed Brasil que não paga os trabalhadores em dinheiro e não convoca pessoas que não sejam de seu quadro de funcionários.

A Classe A afirmou que não paga os empregados por dia de trabalho prestado, mas sempre por mês. O pagamento é feito por cheque ou depósito bancário.

Os cabos eleitorais ouvidos pela reportagem nunca ouviram falar da Classe A e dizem ter sido recrutados pela campanha do então candidato. Dizem que Holiday aparecia de passagem durante a panfletagem.

Os cabos eleitorais cujo pagamento não foi declarado trabalharam com camisetas da campanha, enquanto os funcionários da Classe A usavam o uniforme da empresa.

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Cabos eleitorais vão de van para panfletar para o então candidato a vereador Fernando Holiday (DEM). Eles não aparecem na prestação de contas enviadas à Justiça Eleitoral. Reprodução

Outra diferença é que a empresa informou nunca ter arregimentado trabalhadores pelo Facebook, enquanto os cabos eleitorais ouvidos pelo BuzzFeed Brasil encontraram a oferta de trabalho pela rede social.

Os irmãos Bruno e Bruna Feitosa de Santana são dois dos cabos eleitorais que estão na planilha a que a reportagem teve acesso. Bruna contou que encontrou a oferta de trabalho em um post do Facebook. Ela convidou o irmão e outra colega para participar do trabalho.

Além dos dois irmãos, outras duas mulheres que confirmaram ter trabalhado na campanha, Bruna Thaisa Ribeiro Branco e Jaqueline Aparecida de Paula, contaram histórias idênticas sobre como foram arregimentadas e receberam em dinheiro vivo.

No link: Em vídeo, cabo eleitoral confirma o pagamento em dinheiro vivo.

https://www.youtube.com/watch?v=9KGCAT_Qt-s

 

Todos os quatro contaram ainda terem recebido a promessa de ganhar um dinheiro extra se o candidato fosse eleito. Holiday venceu a eleição, mas a promessa nunca foi cumprida.

Os quatro cabos eleitorais relataram, em entrevistas separadas ao BuzzFeed Brasil, ter trabalhado por uma semana no final de setembro.

De acordo com as planilhas e listas de presença obtidas pelo BuzzFeed Brasil, no dia 27, foram 19 pessoas; no dia 28, foram 15. Em 29 de setembro, a equipe contou com 17 pessoas e, no dia 30, com 19.

Seriam 70 diárias de R$ 60, que somam R$ 4.200. Nenhum dos 26 nomes de cabos eleitorais listado nos papéis aparece na prestação de contas como pessoa física recebedora de pagamento da campanha do candidato ou do comitê financeiro do partido dele.

No total, Holiday declarou que gastou R$52.551,68 na campanha. A principal despesa, R$ 22 mil, foi com a publicação de anúncios em jornal.

O que diz Fernando Holiday:

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Questionado pela reportagem do BuzzFeed Brasil, Fernando Holiday negou, por meio de sua assessoria de imprensa, irregularidades. A assessoria de imprensa do vereador enviou a seguinte nota:

“Conforme exige a legislação vigente, a prestação de contas da campanha foi entregue e aprovada pela Justiça Eleitoral e pode ser consultada publicamente. O mandato do vereador Fernando Holiday não é pautado por boataria, rumores ou inúmeros ataques que sofremos todos os dias. Portanto, não havendo qualquer acusação formal, tendo em vista a aprovação das contas; especulações desta natureza são apenas mais uma tentativa de atrapalhar o mandato combativo que o jovem vereador vem realizando.”