Conferência Livre do Centro: cultura são-joanense é “amparada”? “Chorosa”? “Sem cafezinho”?

“Dar murro em ponta de faca”, “bater cabeça”, “eventos que os ventos não levem”, “choradeira é mais propaganda que realidade”. Tais expressões permearam intervenções dos quinze presentes na terceira Conferência Livre de Cultura, quarta-feira, 21, no Teatro Municipal, destinada à comunidade artística dos bairros Centro, Segredo, Vila Marchetti, Caieiras, Bonfim, Guarda-Mór, Alto das Mercês e Rio Acima.

Cleonice Mara Gomes Mufatto, que trabalha em órgão local do poder judiciário, diz se ver, com o marido, “sozinhos, se debatendo, procurando oportunidades” de apresentação para a banda musical do filho adolescente. “Depois de algum tempo, você deixa de crer no poder público, não conta com a Prefeitura. Para um show na rua, o alvará, pedido com dias de antecedência, é liberado pela Prefeitura em cima da hora. Aí, a Polícia Militar, pega de surpresa, não tem escala de serviço com policial disponível para garantir segurança. É como darmos murro em ponta de faca. Aí vamos a outros municípios, onde as dificuldades são menores. Queremos apoio para que as coisas, como a produção musical de nossos filhos, apareçam. Sem apoio, não aparecem”.

Francisco Raimundo dos Santos, ex-militar, funcionário municipal, “63 anos de música” com passagem em todas as orquestras, bandas e no Conservatório Padre José Maria Xavier, diz que, neste campo musical, “a cidade está amparada, com grandes músicos, maestros, professores, bandas recebendo kits de instrumentos do governo estadual. Falta agora colocar esses músicos nos seus lugares. Por que o coreto da avenida Presidente Tancredo Neves está parado? Qual a dificuldade para apresentações musicais lá? A praça da estação ferroviária passou a abrigar, recentemente, a programação mensal ‘Banda na Estação’. Mas cadê os bancos para os músicos se sentarem, o cafezinho para eles? Tocar em pé, e no verão, dificulta”.

Celina Corrêa Batalha, professora universitária aposentada e que inicia na cidade um trabalho de “linguagens artísticas com raízes afro e índia”, reivindica que se defina algum órgão público local relacionado à cultura para “fornecer informações e assessoria técnica sobre como constituir uma organização não-governamental (ong) e a documentação necessária. Vejo uma diversidade de eventos e feiras na cidade, mas sinto falta da troca de informações, de experiências. Precisamos de uma rede de informações, senão é um bate cabeça para organizar documentos”.

Edson Paz Vieira, com atuação em jornalismo e edição de livros, propôs duas diretrizes para a nascente futura política pública municipal de cultura: “Que tal política, Conselho e Fundo priorizem projetos e recursos com vistas à formação cultural real, de médio e longo prazo, capaz de estimular o desenvolvimento de diferentes expressões e manifestações artístico-culturais locais, resultando na formação e amadurecimento de grupos teatrais, videastas, roteiristas, grupos de dança e por aí afora, de acordo com a inclinação de cada um. Oficinas de três a cinco dias oferecidas em 21 anos de Inverno Cultural, sem continuidade ao longo do ano, bem como os eventos que se encerram em si da Capital Brasileira da Cultura 2007, deixaram o que, que raízes germinando?”. Prosseguiu: “Com o surgimento de grupos e produtos culturais resultantes dessa formação continuada e densa, a cidade e microrregião poderão ter uma contínua e efervescente vida cultural própria. Aí as políticas de cultura dos diferentes municípios devem se congraçar para que tais produções não fiquem limitadas a apresentações apenas no município natal, mas que percorram um circuito microrregional, e, de acordo com o valor cultural de cada produção, daí para fora. Isso estimulará muito os artistas locais, a formação de público para as diferentes artes e alimentará a vida cultural ao longo do ano na microrregião, ao lado de atrações vindas de fora”.

Anizabel Rodrigues de Lucas, coordenadora da escola de música e coral Cantabile, na rua Santo Antônio, considera “fundamental a continuidade, o compromisso de acompanhamento permanente,  periódico, por parte dos instrutores nas oficinas e ações de formação cultural”. Disse que a entidade que preside “existe de fato, não de direito, por falta de apoio. Grupos de boa vontade querem trabalhar, mas sem apoio, é difícil”.

Antônio Pedrosa Júnior, integrante da Organização Patrimonial Turística e Ambiental – OPTA –, que atua conjuntamente com a Orquestra Popular Livre – OPL –, lembrou que “a maior parte das pessoas, grupos e ações artístico-culturais na cidade e no país não são institucionalizadas”, isto é, oficializadas, legalizadas administrativamente. “E talvez nem desejem isso. Querem alguma forma de apoio, a maioria das vezes simples, como espaço para mostrar seu trabalho. Temos que pensar a cidade, a política cultural e ambiental são-joanense em função dos moradores, e não só para os turistas”.

Paulo José de Souza, pós-graduando em Políticas Públicas e Gestão Social e colaborador na organização das conferências livres, considerou o comentário de que “a notícia é que vem muito dinheiro para a cidade, mas ninguém vê” como choradeira “fruto de mais propaganda que realidade”. A estatística mostra que os repasses obrigatórios do governo Federal para o município caíram apenas 2,62% até agosto desse ano. O que não existe é uma lei que obrigue o município a repassar verba para a cultura. Falta vontade política, tanto dos governantes como dos moradores. Esse processo de conferência municipal de cultura é para fazer valer a vontade política dos moradores são-joanenses que não separam a vida cotidiana da cultura”.

A reunião foi coordenada por Ana Luiza Capel, funcionária da Secretaria Municipal de Cultura, e por José Roberto Câmara, historiador, produtor cultural e membro do Instituto Histórico e Geográfico local.

Por: Edson Paz

Deixe um Comentário

*

Pular para a barra de ferramentas