A maior parte da cultura está nas comunidades carentes’, ‘de chapéu na mão’

Dom BoscoO provérbio português “A descer todos os santos ajudam” retratou bem o espírito dominante na penúltima conferência livre de cultura, quinta-feira, no salão paroquial Dom Bosco. Os vinte presentes da comunidade artística dos oito bairros da região, sete dos quais no alto e encosta do morro e cinco com nome de santidades – Dom Bosco, São Dimas, Senhor dos Montes, São Geraldo, Vila São Paulo – desceram a lenha nos poderes públicos no tocante a desatenção à área artístico-cultural.

Vinicius, militante de movimento hip-hop, disse que já reivindicou “espaço urbano para design”, isto é, onde possam expressar com desenhos e pinturas sua visão de mundo, mas não tiveram apoio da Prefeitura: “Antes tínhamos algum, mas neste governo, nenhum”. Ao lado de mais três colegas – dois rapazes e uma moça – aproveitou para divulgar um “congresso da cultura hip-hop da região” domingo, 1 de novembro, das 8h às 18h, no campus Dom Bosco da UFSJ.

Thiago Silva Santana, que já havia estado na conferência livre de Matosinhos, voltou a reivindicar apoio, sob a forma de “espaço e eventos”, para que bandas musicais locais e da região, como a sua, possam mostrar seu trabalho. Bisou que “os espaços locais são a Fecic e o Inverno Cultural”, número que, a seu ver, precisa ser ampliado e com mais oportunidades para grupos locais.

Vicentina Neves Teixeira, do grupo de afro-descendentes Raízes da Terra, após afirmar que “a maior parte da cultura está nas comunidades carentes”, disse que manifestações como o congado, capoeira, dança afro e demais “não podem depender da cessão de espaço pelas igrejas ou universidade, que pode ser retirado. Não temos mais espaço no salão de São Geraldo. Queremos uma casa nossa, da cultura. Quem casa quer casa. E não queremos verba para ficarmos na dependência, mas para nos ajudar a crescer”.

Nivaldo Neves, da “quarta geração” de congadeiros locais e presidente de associação de congado “com CNPJ e atividades para geração de renda”, diz: “temos que andar com o chapéu na mão o ano todo. Convidados para nos apresentarmos em outra cidade, onde arrumar condução? Na penúria, sem um local público onde possamos ir buscar atender nossas necessidades, é difícil. Não sabemos aonde correr. Verba para cultura em São João é só no carnaval. Queremos fazer uma homenagem a Zumbi dos Palmares dia 20 de novembro, dia de sua morte, e estamos com dificuldade para obtenção de espaço. O povo tem que ter apoio em suas manifestações culturais. Desejo que esse futuro Conselho Municipal de Cultura dê certo. Ele vem a calhar, pois saberemos onde recorrer”.

Os irmãos Marcelo e André Marchiori, respectivamente estudante de psicologia e sociólogo, com atuação em movimentos populares e moradores no bairro das Fábricas, chamaram a atenção para o fato de que “espaço público, ao mesmo tempo em que é de todos, é de ninguém. Temos que ocupá-los para ações culturais. Isso se aplica a espaços públicos como escolas e campus universitário”. André lembrou que é preciso investir em informações e condições que possibilitem “que a cultura renda dinheiro para os que a fazem, para os que querem fazer dela meio de vida”. E questionou por que a UFSJ, que tem o campus Dom Bosco vizinho de grupos de congado, “não pesquisa esta manifestação cultural”.

Carlos Henrique Bem Gonçalves, presidente do Movimento Gay da Região das Vertentes, reivindica da Secretaria Municipal de Cultura “apoio logístico, técnico e financeiro para os grupos culturais, que encontram-se entregues à própria sorte”. Ele crê que o Conselho Municipal de Cultura, a ser criado, “será bom para estabelecer que o dinheiro da Prefeitura para a cultura não é só para o carnaval, mas também para congadas, entre outras manifestações que devem ser apoiadas, divulgadas, financiadas”. Indagou: “Quanto a Prefeitura tem para gastar com cultura? Não sabemos, ninguém sabe”.

A cantora Marilane Sotani enumerou três questões que, a seu ver, a coletividade artístico-cultural são-joanense deve atentar: “não temos conhecimento, mapeamento atualizado da realidade cultural local; para a obtenção de financiamento e apoio, muitas vezes é preciso se profissionalizar, conquistar técnica artística, e não somente CNPJ; e priorizarmos a colaboração acima de eventuais disputas”.

Paulo Souza, apoiador da organização das conferências livres, apontou que “se deve saber o que fazer com tal mapeamento, saber utilizar o calendário de atividades dos grupamentos, para evitar a coincidência de encontros importantes na mesma data, como o de congadas e a Festa Agropecuária este ano”, apontada no início da reunião pelo congadeiro Nivaldo Neves.

A presidente da Associação de Moradores do bairro das Fábricas, Aparecida Shirley Silva Vale, associou ação cultural e política cultural à pressão política: “vereadores e prefeito vão à casa da gente pedir voto; temos que ir à Prefeitura e à Câmara exigir compromisso com as políticas públicas e seu cumprimento, como a de cultura”.

Por Edson Paz

Um Comentário em “A maior parte da cultura está nas comunidades carentes’, ‘de chapéu na mão’”

  1. […] de discussão em torno da Conferência Municipal de Cultura. fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

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