Conferência Livre na região da Colônia

A última Conferência Livre foi realizada com os bairros da região da colônia e adjacências. Poucos representantes, mas uma discussão interessante que ainda não tinha ocorrido nas outras conferências: o turismo cultural. Os setores culturais e artísticos representados foram: Patrimônio, literatura, guias culturais e artesanato.
As demandas levantadas foram:

  • Explorar melhor o turismo rural nos bairros envolvidos;
  • Explorar o turismo cultural: roteiro de caldos, roteiro gastronômico, etc;
  • Difundir a cultura italiana, muito presente na região;
  • Diversificar e organizar a programação cultural na cidade;
  • Humanização dos acessos principais ao bairro, como a construção de calçadas, vias públicas que priorizem o pedestre;
  • Estímulo à vida cultural no bairro.

Ficou claro para os presentes que os moradores dos bairros não esperam muito do poder público municipal, como em outras regiões, mas querem e precisam fazer a Cultura acontecer no local.

Por : Paulo José de Souza


O que a Colônia, parcialmente rural e com aeroporto, tem culturalmente?

ColôniaO que é que a Colônia, região da cidade povoada por migrantes italianos agricultores e que foi cogitada para sediar a capital mineira, tem de expressões e manifestações artístico-culturais? Moradores dos cinco bairros locais – Colônia do Giarola, Colônia do Bengo, Colônia do Marçal, Solar da Serra e Residencial Girassol – mais três de outros bairros tentaram esboçar um perfil da herança e produção cultural da região, sexta-feira, 23, na última conferência livre preparatória para a Conferência Municipal de Cultura. A reunião foi na escola estadual Brighenti Cesare.

“A igreja católica é a força maior na região, com eventos e festas sempre cheios, como a de São Genaro e Semana Santa. As famílias de descendentes italianos conservam algumas tradições, realizando encontros festivo-culturais de vem em quando. Boa parte da hotelaria são-joanense, de pousadas, está concentrada aqui na Colônia, que ainda tem muito de bairro rural, vizinho a estradas e trilhas rurais que possibilitam cavalgadas e caminhadas, por exemplo, até o município vizinho Coronel Xavier Chaves e a Tiradentes, pela Serra de São José. Turista quer isso, cheiro de curral. Mas a vida cultural, a existência e a apresentação de grupos artísticos como de música sertaneja de raiz, ou de grupos teatrais com base na igreja ou na escola estadual, é reduzida ou não aparece. Precisamos estimulá-la. O bairro sedia quase todas as fábricas são-joanenses de estanho, mas as lojas de venda estão no centro histórico”, avalia o morador e guia turístico nos fins de semana Jadir Jânio da Silva, complementado pelos presentes.

Ele conta que o desejado turismo cultural, o turista interessado em conhecer a cultura e a vida cultural da cidade que visita, “está crescendo. Outro final de semana um perguntou: o que eu faço à noite na cidade, em programação cultural? Indiquei a peça ‘As Bruxas de Salém’, do grupo teatral local ManiCômicos. Ele se interessou e o levamos lá”. Para Jadir, “devido aos preços proibitivos, elitizados de hospedagem em Tiradentes, qualquer evento lá muitos participantes hospedam-se em pousadas na Colônia, que lotam. Outros turistas hospedam-se aqui e vão um dia a cada município histórico das Vertentes. Nós, são-joanenses, temos que explorar mais roteiros específicos atraentes aos turistas, como um de cultura italiana na cidade, outro de caldos, outro de caminhadas grupais por trilhas rurais. Tais roteiros também interessam a muitos moradores”, propõe.

Presentes à reunião lembraram outras frentes, com face também cultural, carentes de atenção: a agricultura ecológica da região pode ser melhor aproveitada, já que oferece produtos inorgânicos, que interessam a muitos; que a Colônia do Felizardo tem plantações de flores, podendo ser organizadas visitações; e que a entrada da cidade, que passa pelo aeroporto e pelo bairro “é a mais bonita”, pela vista agrícola, mas a avenida central, 31 de Março, “precisa ser mais humanizada, arborizada, com canteiro central e instalação de calçadas”. O bairro, grande, com distâncias maiores a ser percorridas que os demais bairros são-joanenses, não tem calçada contínua para pedestres em toda sua extensão nas avenidas principais, paralelas.

Por: Edson Paz

A maior parte da cultura está nas comunidades carentes’, ‘de chapéu na mão’

Dom BoscoO provérbio português “A descer todos os santos ajudam” retratou bem o espírito dominante na penúltima conferência livre de cultura, quinta-feira, no salão paroquial Dom Bosco. Os vinte presentes da comunidade artística dos oito bairros da região, sete dos quais no alto e encosta do morro e cinco com nome de santidades – Dom Bosco, São Dimas, Senhor dos Montes, São Geraldo, Vila São Paulo – desceram a lenha nos poderes públicos no tocante a desatenção à área artístico-cultural.

Vinicius, militante de movimento hip-hop, disse que já reivindicou “espaço urbano para design”, isto é, onde possam expressar com desenhos e pinturas sua visão de mundo, mas não tiveram apoio da Prefeitura: “Antes tínhamos algum, mas neste governo, nenhum”. Ao lado de mais três colegas – dois rapazes e uma moça – aproveitou para divulgar um “congresso da cultura hip-hop da região” domingo, 1 de novembro, das 8h às 18h, no campus Dom Bosco da UFSJ.

Thiago Silva Santana, que já havia estado na conferência livre de Matosinhos, voltou a reivindicar apoio, sob a forma de “espaço e eventos”, para que bandas musicais locais e da região, como a sua, possam mostrar seu trabalho. Bisou que “os espaços locais são a Fecic e o Inverno Cultural”, número que, a seu ver, precisa ser ampliado e com mais oportunidades para grupos locais.

Vicentina Neves Teixeira, do grupo de afro-descendentes Raízes da Terra, após afirmar que “a maior parte da cultura está nas comunidades carentes”, disse que manifestações como o congado, capoeira, dança afro e demais “não podem depender da cessão de espaço pelas igrejas ou universidade, que pode ser retirado. Não temos mais espaço no salão de São Geraldo. Queremos uma casa nossa, da cultura. Quem casa quer casa. E não queremos verba para ficarmos na dependência, mas para nos ajudar a crescer”.

Nivaldo Neves, da “quarta geração” de congadeiros locais e presidente de associação de congado “com CNPJ e atividades para geração de renda”, diz: “temos que andar com o chapéu na mão o ano todo. Convidados para nos apresentarmos em outra cidade, onde arrumar condução? Na penúria, sem um local público onde possamos ir buscar atender nossas necessidades, é difícil. Não sabemos aonde correr. Verba para cultura em São João é só no carnaval. Queremos fazer uma homenagem a Zumbi dos Palmares dia 20 de novembro, dia de sua morte, e estamos com dificuldade para obtenção de espaço. O povo tem que ter apoio em suas manifestações culturais. Desejo que esse futuro Conselho Municipal de Cultura dê certo. Ele vem a calhar, pois saberemos onde recorrer”.

Os irmãos Marcelo e André Marchiori, respectivamente estudante de psicologia e sociólogo, com atuação em movimentos populares e moradores no bairro das Fábricas, chamaram a atenção para o fato de que “espaço público, ao mesmo tempo em que é de todos, é de ninguém. Temos que ocupá-los para ações culturais. Isso se aplica a espaços públicos como escolas e campus universitário”. André lembrou que é preciso investir em informações e condições que possibilitem “que a cultura renda dinheiro para os que a fazem, para os que querem fazer dela meio de vida”. E questionou por que a UFSJ, que tem o campus Dom Bosco vizinho de grupos de congado, “não pesquisa esta manifestação cultural”.

Carlos Henrique Bem Gonçalves, presidente do Movimento Gay da Região das Vertentes, reivindica da Secretaria Municipal de Cultura “apoio logístico, técnico e financeiro para os grupos culturais, que encontram-se entregues à própria sorte”. Ele crê que o Conselho Municipal de Cultura, a ser criado, “será bom para estabelecer que o dinheiro da Prefeitura para a cultura não é só para o carnaval, mas também para congadas, entre outras manifestações que devem ser apoiadas, divulgadas, financiadas”. Indagou: “Quanto a Prefeitura tem para gastar com cultura? Não sabemos, ninguém sabe”.

A cantora Marilane Sotani enumerou três questões que, a seu ver, a coletividade artístico-cultural são-joanense deve atentar: “não temos conhecimento, mapeamento atualizado da realidade cultural local; para a obtenção de financiamento e apoio, muitas vezes é preciso se profissionalizar, conquistar técnica artística, e não somente CNPJ; e priorizarmos a colaboração acima de eventuais disputas”.

Paulo Souza, apoiador da organização das conferências livres, apontou que “se deve saber o que fazer com tal mapeamento, saber utilizar o calendário de atividades dos grupamentos, para evitar a coincidência de encontros importantes na mesma data, como o de congadas e a Festa Agropecuária este ano”, apontada no início da reunião pelo congadeiro Nivaldo Neves.

A presidente da Associação de Moradores do bairro das Fábricas, Aparecida Shirley Silva Vale, associou ação cultural e política cultural à pressão política: “vereadores e prefeito vão à casa da gente pedir voto; temos que ir à Prefeitura e à Câmara exigir compromisso com as políticas públicas e seu cumprimento, como a de cultura”.

Por Edson Paz

Conferência Livre da região Dom Bosco

Em mais uma noite de debates em preparação para a Conferência Municipal de Cultura, nos reunimos com os agentes culturais da região Dom Bosco, conforme programação. Pelo que vimos até o momento foi o debate mais “caloroso”! Os setores culturais representados foram: artesanato, música, dança, teatro, folclore, literatura, cultura popular afro-brasileira e cultura GLBT.

As demandas levantadas pelos participantes foram:

  • Necessidade de uma comissão responsável pela criação do Conselho Municipal de Cultura, que seja deliberativo, como objetivo primeiro da realização da Conferência;
  • Capacitação de agentes culturais;
  • Atividades culturais na periferia são desconhecidas pelo restante da população e pelo poder público;
  • Resistência aos trabalhos desenvolvidos pelos grupos culturais na periferia;
  • Maior envolvimento das igrejas e comunidades;
  • Apoio financeiro aos grupos culturais; reclamação da verba canalizada para eventos consagrados na cidade;
  • Falta de espaço para apresentações culturais na periferia;
  • Falta de políticas públicas culturais para a geração de renda. “São João não produz renda com os trabalhos culturais? Por que o artesanato não funciona na cidade? Qual a identidade cultural da cidade? Tradição: o que vale a pena? Os artistas têm que receber pelo que fazem, serem respeitados como trabalhadores.”
  • Realizar os eventos produzidos pelos moradores dos bairros nos próprios bairros, pois atualmente só o Centro os recebe;
  • Calendário cultural;
  • Políticas públicas voltadas para a cultura LGBT. Acesso à cultura como direito do cidadão;
  • Controle social da gestão municipal;
  • Capacitação dos servidores municipais acerca da diversidade cultural;
  • Transparência na aplicação dos recursos;
  • Ausência do Legislativo nas Conferências Livres;
  • Falta de conhecimento cultural na cidade;
  • Profissionalização dos agentes culturais para captação de recursos;
  • Falta espírito colaborativo entre os fazedores de cultura;
  • Perda de documentação histórica dentro do poder público municipal e outras entidades;
  • UFSJ deveria trabalhar mais seus programas de extensão com a comunidade;
  • A população deve cobrar, exigir a utilização dos espaços públicos;

A percepção geral é de que a cultura é feita para a elite são-joanense e para os turistas, como Carnaval, Inverno Cultural e Semana Santa. O artista em São João não é visto como trabalhador, por isso não são promovidos. As pessoas estão descrentes com o poder público. Não há retorno financeiro no que fazem pela Cultura na cidade. A Conferência Municipal de Cultura é o espaço público para que os conflitos sejam explicitados!

Por: Paulo José de Souza

Administrador pela UFSJ

Pós-Graduando em Políticas Públicas e Gestão Social pela UFJF

Conferência Livre do Centro: cultura são-joanense é “amparada”? “Chorosa”? “Sem cafezinho”?

“Dar murro em ponta de faca”, “bater cabeça”, “eventos que os ventos não levem”, “choradeira é mais propaganda que realidade”. Tais expressões permearam intervenções dos quinze presentes na terceira Conferência Livre de Cultura, quarta-feira, 21, no Teatro Municipal, destinada à comunidade artística dos bairros Centro, Segredo, Vila Marchetti, Caieiras, Bonfim, Guarda-Mór, Alto das Mercês e Rio Acima.

Cleonice Mara Gomes Mufatto, que trabalha em órgão local do poder judiciário, diz se ver, com o marido, “sozinhos, se debatendo, procurando oportunidades” de apresentação para a banda musical do filho adolescente. “Depois de algum tempo, você deixa de crer no poder público, não conta com a Prefeitura. Para um show na rua, o alvará, pedido com dias de antecedência, é liberado pela Prefeitura em cima da hora. Aí, a Polícia Militar, pega de surpresa, não tem escala de serviço com policial disponível para garantir segurança. É como darmos murro em ponta de faca. Aí vamos a outros municípios, onde as dificuldades são menores. Queremos apoio para que as coisas, como a produção musical de nossos filhos, apareçam. Sem apoio, não aparecem”.

Francisco Raimundo dos Santos, ex-militar, funcionário municipal, “63 anos de música” com passagem em todas as orquestras, bandas e no Conservatório Padre José Maria Xavier, diz que, neste campo musical, “a cidade está amparada, com grandes músicos, maestros, professores, bandas recebendo kits de instrumentos do governo estadual. Falta agora colocar esses músicos nos seus lugares. Por que o coreto da avenida Presidente Tancredo Neves está parado? Qual a dificuldade para apresentações musicais lá? A praça da estação ferroviária passou a abrigar, recentemente, a programação mensal ‘Banda na Estação’. Mas cadê os bancos para os músicos se sentarem, o cafezinho para eles? Tocar em pé, e no verão, dificulta”.

Celina Corrêa Batalha, professora universitária aposentada e que inicia na cidade um trabalho de “linguagens artísticas com raízes afro e índia”, reivindica que se defina algum órgão público local relacionado à cultura para “fornecer informações e assessoria técnica sobre como constituir uma organização não-governamental (ong) e a documentação necessária. Vejo uma diversidade de eventos e feiras na cidade, mas sinto falta da troca de informações, de experiências. Precisamos de uma rede de informações, senão é um bate cabeça para organizar documentos”.

Edson Paz Vieira, com atuação em jornalismo e edição de livros, propôs duas diretrizes para a nascente futura política pública municipal de cultura: “Que tal política, Conselho e Fundo priorizem projetos e recursos com vistas à formação cultural real, de médio e longo prazo, capaz de estimular o desenvolvimento de diferentes expressões e manifestações artístico-culturais locais, resultando na formação e amadurecimento de grupos teatrais, videastas, roteiristas, grupos de dança e por aí afora, de acordo com a inclinação de cada um. Oficinas de três a cinco dias oferecidas em 21 anos de Inverno Cultural, sem continuidade ao longo do ano, bem como os eventos que se encerram em si da Capital Brasileira da Cultura 2007, deixaram o que, que raízes germinando?”. Prosseguiu: “Com o surgimento de grupos e produtos culturais resultantes dessa formação continuada e densa, a cidade e microrregião poderão ter uma contínua e efervescente vida cultural própria. Aí as políticas de cultura dos diferentes municípios devem se congraçar para que tais produções não fiquem limitadas a apresentações apenas no município natal, mas que percorram um circuito microrregional, e, de acordo com o valor cultural de cada produção, daí para fora. Isso estimulará muito os artistas locais, a formação de público para as diferentes artes e alimentará a vida cultural ao longo do ano na microrregião, ao lado de atrações vindas de fora”.

Anizabel Rodrigues de Lucas, coordenadora da escola de música e coral Cantabile, na rua Santo Antônio, considera “fundamental a continuidade, o compromisso de acompanhamento permanente,  periódico, por parte dos instrutores nas oficinas e ações de formação cultural”. Disse que a entidade que preside “existe de fato, não de direito, por falta de apoio. Grupos de boa vontade querem trabalhar, mas sem apoio, é difícil”.

Antônio Pedrosa Júnior, integrante da Organização Patrimonial Turística e Ambiental – OPTA –, que atua conjuntamente com a Orquestra Popular Livre – OPL –, lembrou que “a maior parte das pessoas, grupos e ações artístico-culturais na cidade e no país não são institucionalizadas”, isto é, oficializadas, legalizadas administrativamente. “E talvez nem desejem isso. Querem alguma forma de apoio, a maioria das vezes simples, como espaço para mostrar seu trabalho. Temos que pensar a cidade, a política cultural e ambiental são-joanense em função dos moradores, e não só para os turistas”.

Paulo José de Souza, pós-graduando em Políticas Públicas e Gestão Social e colaborador na organização das conferências livres, considerou o comentário de que “a notícia é que vem muito dinheiro para a cidade, mas ninguém vê” como choradeira “fruto de mais propaganda que realidade”. A estatística mostra que os repasses obrigatórios do governo Federal para o município caíram apenas 2,62% até agosto desse ano. O que não existe é uma lei que obrigue o município a repassar verba para a cultura. Falta vontade política, tanto dos governantes como dos moradores. Esse processo de conferência municipal de cultura é para fazer valer a vontade política dos moradores são-joanenses que não separam a vida cotidiana da cultura”.

A reunião foi coordenada por Ana Luiza Capel, funcionária da Secretaria Municipal de Cultura, e por José Roberto Câmara, historiador, produtor cultural e membro do Instituto Histórico e Geográfico local.

Por: Edson Paz

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