O problema das fazenda=fábrica
17/01/2010 - postado por curaloucura
Escrevi esse post para a lista da SVB e achei interessante postar aqui.
Não sei se algum de vocês está acompanhando o caso, mas a revista New Yorker escreveu um artigo ( http://nypress.com/article-20793-flesh-mob.html ) que agora as pessoas não precisam mais ser vegetarianas pois elas podem comprar carne “sem culpa”, carne orgânica, produzida localmente, com a mínima dor ao animal que teve uma vida “digna”. E esse absurdo foi discutido neste artigo ( http://challengeoppression.com/2010/01/14/stop-the-fight-against-factory-farming-save-the-animal-rights-movement/ ) que foi muito bem escrito por sinal.
A autora comenta que isso surgiu graças à importância que o movimento animal dá às fazenda-fábrica, e assim se esquece sobre o problema principal, o direito do animal à vida e portanto nós precisamos corrigir esse rumo. Não que o problema das fazendas não seja gravíssimo, mas o ponto é que a forma de conduzi-lo deve ser bem direcionado para não criar essas aberrações.
(para ler em português, você pode colar os links no google translate: http://translate.google.com/ )
Agora, quando li esse artigo, me lembrei da discussão ontem sobre ser “ok” para os índios caçarem e a conversa sobre a cena do filme Avatar, e que me deixou muito incomodado. Lembro que minha irmã comentou que o namorado dela, ao ver essa cena, disse: “viu como precisamos comer carne? até eles comem”.
Sempre quando há qualquer discussão que pareça ameaçar a cultura indígena, há um grande desconforto, e concordo que em algumas situações extremas, até pode ter alguma validade, mas até onde essa conversa não está com muito mais magia do que deveria? Até quando esse tipo de conversa não está perpetuando ainda mais o especismo que nossa cultura criou? O índio de hoje não é o de Gonçalves Dias e de José de Alencar. Muitos índios moram em casas de alvenaria em uma aldeia urbana ( http://www.parana-online.com.br/editoria/cidades/news/345982/ ), outros são trabalhadores escravos, mas aquilo que foi realmente cultura indígena não tem como se manter intacta. Eles usam roupas e chinelos, estudam em escolas e sua comunidade vai mudando. Um exemplo hipotético, imaginemos que a capivara fosse um animal em extinção, o que o Ibama faria? Ele proibiria os índios de caçá-las. Ou seja, nós teríamos leis que influenciariam diretamente um costume indígena milenar. E com relação a agricultura, os índios não vivem só de carne, eles plantam mandioca e outros vegetais muito bem. Eles não estão à mercê da sorte, eles são uma comunidade muito bem estruturada. Tem assistência médica tradicional. Tudo bem, o Brasil não é um mar de rosas e há inúmeros problemas sociais, sejam com as populações urbanas, sejam com as populações indígenas. Um exemplo fora de contexto: Li uma vez ( http://www.parana-online.com.br/editoria/pais/news/374508/ ) que muitos índios transexuais tinham que se mudar da comunidade pois não eram aceitos e acabavam indo para as cidades grandes se prostituir. Isso é cultural, mas isso não é algo que deve mudar e evoluir? Agora, imaginemos que comecem a ser vendido carne de tatu caçados por índios nos supermercados, essa carne é só para alimentação e antes de comer você deve rezar uma prece para o animal que foi morto. Por causa disso ela seria mais “humana”? Existe uma lei que proibe animais em rituais religiosos (apesar de ainda ser muito comum), isso é uma afronta à tradição afro-brasileira? Qual é o ponto que estamos defendendo? Até quando a idéia de abate humanitário mascarada vai fazer parte do nosso dia-a-dia?


