Como monetizar o seu fonograma?
Apesar de nunca ter sido a principal fonte de receita do músico, a venda de discos sempre foi um dos indicadores de seu sucesso. Com a internet, a venda de CDs despencou e, no Brasil, ainda não se encontrou a melhor alternativas de se comercializar os tais fonogramas.
Um dos painéis da Feira Música Brasil 2009 tocou exatamente nessa questão. O debate girou em torno da pergunta: “Como monetizar o seu fonograma?”.
A mesa reuniu o diretor do UOL Showbizz, Jan Fjeld, o sócio da Monstros Discos, Léo Bigode, o presidente da ABMI (Associação Brasileira de Música Independente), Roberto de Carvalho, a fundadora e presidente do bloco Ara Ketu, Vera Lacerda, e o superintendente do Auditório Ibirapuera em São Paulo, Pena Schmidt.
Hoje são vários os modelos que as gravadoras apresentam para conseguir viabilizar seus artistas. Um dos modelos apresentados por Roberto de Carvalho é o dos contratos 360º, pelo qual as gravadoras assumem não só o lançamento e distribuição dos CDs, mas também o trabalho de divulgação e até a produção de shows.
Segundo ele, esse modelo múltiplo é o que vem sendo defendido pelas majors. Já os pequenos selos ao invés de correr atrás da maior lucratividade dos shows, prefere dar atenção às pequenas receitas. “A lucratividade de um fonograma hoje deve ser considerada não só nas vendas, mas também no que ela pode gerar na sincronização com produtos audio-visuais como TV, games e na publicidade, e nas receitas vindas dos direitos autorais e controles editoriais.
Para Léo Bigode, o modelo das pequenas gravadoras é bem simples. “A gente aprendeu que os melhores vendedores de música e dos produtos da música são as bandas. Por isso, inspirados nos modelos das bandas dos anos 80, nos EUA, a Monstro coloca suas bandas pra rodar no circuito de música independente com seus CDs e com o merchandise. É uma forma de aproximar o fã da banda, de fideliza-lo.”
Outro dado positivo apresentado ao longo da mesa, é que as lojas de CDs deixaram de fechar. Mas como disse Léo Bigode: “nenhuma mídia deve ser desperdiçada, tem público pra tudo, mas que não investir no digital irá perder.” Na opinião dele, para dar certo, a banda e o selo têm de andar juntas.
Para Jan Fjeld, a possibilidade de apostar em vários formatos é uma das saídas para o mercado. Segundo ele, a concorrência com o formato grátis também tem de ser repensada. A estratégia é pensar novas maneiras de se comercializar a música.
Uma dessas estratégias foi apresentada por Vera Lacerda. Segundo a produtora do grupo, que já chegou a vender 2,8 milhões de cópias de um só disco (Mal acostumado), a estratégia encontrada encontrada pelo grupo foi o de incluir os CDs nos kits de micareta. Outra alternativa foi ir de igual para igual no mercado dos piratas. Por isso, hoje a distribuição dos CDs do grupo hoje chega às feiras e bancas de camelô em toda Bahia.
“A música é o nosso maior produto, mas existem estratégias que podem reduzir os nossos custos e aumentar a venda de CDs e de downloads, mas o músico hoje tem de estar próximo da platéia, criar um movimento em torno da banda”, defendeu.
De acordo com Pena Schimdt, “a melhor loja de discos no Brasil hoje é o espaço de shows”. Como exemplo, o administrador do Auditório Ibirapuera disse que 20% do público que vai ao espaço compra algum produto dos artistas depois dos shows lá.
Em sua fala Schmidt estimou que o Brasil conta hoje com cerca de dois mil pontos de venda de CD autorizados. Desses, pouco mais de 500 são lojas de CD, de fato. “Um artista pequeno, como os da Monstro por exemplo, não chegam a mais de cem lojas, por isso é importante se aproximar de todas as fontes de renda que podem ser geradas por um fonograma”, defendeu Schimdt.
Jan Fjeld explicou que os independentes começam a tomar de assalto a Internet. Em 2007, eles correspondiam a 7% do market share do UOL Showbizz e hoje ultrapassam 23% dos downloads no portal. “É o mercado ideal para os independentes, não é preciso prensar cópias. Os independentes concorrem em condições iguais aos dos artistas das majors”.
Para Roberto de Carvalho, “a música de graça ou em condições baratas e dentro de uma estratégia bem traçada pode ajudar muito o artista. O ideal é que o selo e o músico tomem conta desse processo desde o início. Sejam o primeiro canal de oferecimento da música e depois ofereçam outros produtos. Nesse momento não há possibilidade de controle da circulação de arquivos, por isso, o dono do conhecimento é quem distribui ele.”
Léo Bigode citou como exemplo o disco Artista igual a Pedreiro, do Macaco Bong. “Nós primeiro lançamos as músicas de graça na Internet, esse foi o ponto de partida para marcar shows e a partir daí nós vendíamos CDs e merchandise. O fã da banda quer o disco, temos de aproveitar e oferecer coisas além das músicas do disco pra eles”.
Um outro caso de sucesso nesse sentido foi o do grupo paulistano Jumbo Elektro. O grupo decidiu lançar Terrorist?! em diversos formatos, para diversas audiências, que podem escolher baixar MP3s gratuitamente em 128 kbps ou pagar de R$2 a R$5 pelos arquivos com melhor qualidade de som. Por R$11,90, leva-se o CD. “O modelo deu certo e ainda colocou para o o público que existem vários tipos de fonograma. Muita gente não sabe que existem audios com maior e menor qualidade”, disse Pena Schmidt.
Para Roberto de Carvalho, um dos segmentos que mais crescem é o de música para o celular. Para ele, existem três entraves que prejudicam o setor: a taxação de 30% - similar a de produtos de telecomunicação – e o controle DRM (Digital Rights Management, ou gerenciamento de direitos digitais).
“O DRM nasceu para evitar que um arquivo fosse copiado ad infinitum pela Internet, mas ele empurrou as pessoas que pagavam pelos downloads para os downloads gratuitos. Com o DRM, eles não conseguem intercambiar a música do computador delas para o mp3 player dela. O mundo já não trabalha com esse modelo e no Brasil ele continua. É um gargalo que atrapalha a venda do fonograma digital”, disse Jan Fjeld.
Para Roberto de Carvalho, as saídas são duas: a imunidade tributária da música e o registro digital da música em metadados. “Esse tipo de registro em metadados pode funcionar muito bem nos sistemas de streaming por assinatura. Pode facilitar a coleta de informações e o pagamento posterior de direitos autorais.”
Outro modelo apresentado de se monetizar a música gravada é o de taxar sobre produtos como acesso à internet, tocadores de MP3, CDs virgens. Essa taxa seria transferida para a sociedade arrecadadora de direitos autorais e para os músicos. “A chave a ser discutida aqui é como funcionaria a amostragem, mas acho que pode ser um primeiro passo”, afirmou Jan Fjeld.

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