O mercado de shows no Brasil
A polarização entre casas de grande e médio porte marcou o primeiro painel do Feira Música Brasil 2009. O debate contou com a presença do diretor-executivo da Feira Música Brasil, Carlos “KK” Mamoni, do proprietário do grupo Tom Brasil, Paulo Amorim, do sócio e curador do Studio SP, Alexandre Youssef, do gerente do Sesc São Paulo, Felipe Mancebo, e do produtor da Banda Móveis Coloniais de Acaju, Fabrício Ofuji.
Para Paulo Amorim – que administra grandes casa de show como o Vivo Rio, o HSBC Brasil e outras -, o mercado está de morno para fraco. Segundo ele, não houve renovação das grandes estrelas da MPB. São poucos os que firmam como nomes estabelecidos para todas as classes sociais e por isso o retorno de um espetáculo internacional é mais garantido.
“Os artistas mais consagrados do showbiz brasileiro têm custos muito altos e o retorno deles tem sido incerto. Eles não se renovaram e também estão perdendo público”, defendeu Amorim. O empresário ainda acha que o público mais jovem não quer modelos de casa de shows onde a pessoa paga ingresso, assiste o show e vai embora. “O público jovem acha que o dinheiro tem de render mais. Eles querem o show e a festa junto”.
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Alexandre Youssef concordou que os novos espaços têm mesmo que trabalhar o conceito da festa, mas discordou de Amorim quanto à temperatura do mercado de shows. Segundo ele, em espaços como o Studio SP, na capital paulista, e o Teatro Odisséia, no Rio, a cena musical tem “borbulhado”.
“Acho que o ponto de vista do Paulo Amorim é muito de cima pra baixo. Em sentido oposto, nos clubes médios e pequenos o público é enorme e todo dia aparece banda nova. Para mim, o cenário está pelando.” Youssef ainda reforçou que graças a essa nova cena independente, mais profissionalizada, pela primeira vez “artistas desse tamanho vivem exclusivamente de música, o que é ótimo pra música brasileira.”
O segundo passo, defendido por Youssef e Fabrício Ofuji, é criar uma rotina de shows pelo Brasil em que os músicos consigam organizar turnês de porte maior pelo país. Uma das iniciativas defendidas por eles é o Circuito Fora do Eixo, que reúne festivais, estúdios e casas noturnas por cidades for do Rio e de São Paulo.
“A organização desse circuito e dos festivais da Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) algumas bandas bem distantes dos pólos tradicionais da música como o Móveis (Brasília) e o Macaco Bong (Cuiabá) se tornaram as maiores revelações da música brasileira”, disse Ofuj.
O produtor brasiliense ainda defendeu que existe um interesse muito grande do público jovem por bandas novas, autorais e locais. “O desafio fazer todas as cenas conversarem e trocarem experiências e buscar maneiras dessa atividade escapar da precariedade. O trabalho já começou e não é à toa que festivais como o Goiânia Noise e o Calango atraem milhares de pessoas para suas edições. É um modelo a ser explorado”.
Felipe Mancebo também explicou que público não falta. “Nós não trabalhamos com programação convencional e nossos espetáculos sempre têm público. A chave está no preço do ingresso, que muitas vezes é completamente fora da realidade brasileira”.
Os proprietários de casas noturnas defenderam que o Sesc nesse sentido pratica concorrência desleal. Afinal, é subsidiado pela contribuição mensal dos comerciários. “É o mais importante investimento cultural da cidade de São Paulo, mas é uma competição muito dura”, disse Paulo Amorim.
Para ele, esse é um dos dilemas das casas noturnas: “qualidade custa muito caro e conciliar isso com o preço do ingresso, torna as coisas impraticáveis para os grandes empresários.” Ainda assim, ele defendeu o modelo de casas médias como a saída para incentivar novos artistas e para atrair mais público para a música ao vivo.
Alexandre Youssef chamou atenção que as novas casas de show e os festivais além de promover toda uma geração de novas bandas são espaços de qualificação profissional e de melhorias urbanas. “É hora do poder público se mobilizar em todas as esferas e reconhecer esses espaços com mais segurança, manutenção dos espaços. A gente sofre com a a falta de estrutura e de atenção do poder público.”
O empresário citou o antropólogo Hermano Viana e disse que o Brasil devia valorizar mais a sua cultura de festa. “É o que fazemos melhor. Precisamos calcular o PIB da noite no país e descobrir o quanto isso gera de empregos e oportunidades. Tenho certeza que os resultados seriam impressionantes e um ponto de partida importante”, disse Youssef.
O mediador da mesa, Carlos Mamoni, afirmou que o segmento musical é responsável por 6% do PIB brasileiro, mas que a precariedade ainda é muito grande por falta de uma legislação trabalhista específica pela área: “Roadies, músicos de apoio, técnicos de som… São várias as profissões que ainda não contam com algum tipo de registro oficial. A geração de empregos é uma das bases para uma economia forte, e o meio musical, que já possibilita um imenso número de vagas, poderia oferecer muito mais.”
A hora mais do que nunca parece ser a de coletar informações e de pensar políticas públicas para uma área da economia que tem trazido resultados culturais e econômicos para o Brasil.

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