“A cultura aumenta o grau de coesão e a harmonia entre os agentes econômicos locais”, entrevista com Carlos Paiva

  • Só por ter nomes como Dorival Caymmi, João Gilberto, Jorge Amado, Glauber Rocha, Caetano Veloso, Gilberto Gil e mais uma seleção dos mais importantes artistas brasileiros, a Bahia já teria um lugar permanente no cenário cultural em todo mundo.

    Além desses panteões e de uma das mais ricas tradições populares no país, a Bahia foi um dos primeiros estados brasileiros a organizar sua produção cultural em uma lógica da economia da cultura.

    A importância de manifestações como o carnaval, a cultura afro e a arquitetura de todo o Estado tem um impacto significativo na Economia local.

    O blog de Economia da Cultura conversou com o Superintendente de Promoção Cultural da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, Carlos Paiva que deu os detalhes sobre a participação no Cultura em Pauta e sobre como o Estado vem pensando a economia no setor cultural.

    1) Qual a importância da cultura na economia baiana?

    Devido a diversidade cultural da Bahia e seu valioso patrimônio histórico, a cultura impacta a economia de pelo menos cinco maneiras: 1- assegura a atração de turistas e visitantes interessados no patrimônio cultural de Estado ou em suas atividades artísticas; é o caso do Carnaval de Salvador; 2 – injeta renda e cria empregos na economia local; 3 – agrega valor ao produto local através da incorporação de valor simbólico – estético, religioso, histórico etc.; assim, se paga mais por produtos com “assinatura”, “design”, “marca” ou “origem”; isso impõe, inclusive, a defesa de sua produção através de certificações de origem: “chocolate de Ilhéus”, “carne de sol de Itororó”, “cachaça da Chapada Diamantina”; 4 – favorece a atração de trabalhadores qualificados, empresários e empresas, na medida em que assegura uma melhor qualidade de vida – cidades atraentes têm intensa vida cultural; 5 – a cultura aumenta o grau de coesão e a harmonia entre os agentes econômicos locais, na medida em que contribui para a redução da exclusão social, estimula o trabalho cooperativo, a inovação e o empreendedorismo.

    2) Como o Estado da Bahia tem pensado a Economia da Cultura? Quais são as linhas gerais?

    O primeiro desafio do estado é iniciar o trabalho de mensurar o tamanho desta economia, seus modelos de negócios, gargalos e oportunidades, permitindo a otimização dos recursos públicos direcionados para o setor. Para isso, temos desenvolvido estudos e pesquisas sobre o carnaval, o audiovisual, o livro e a música baiana, além de debates com especialistas de todo o país para que nossos estudos dialoguem com iniciativas similares no resto do Brasil.

    Implantamos também linhas de crédito específicas para a cultura, em parceria com o Desenbahia, agência de desenvolvimento estadual. Hoje temos disponível a linha de microcrédito para pessoas físicas que necessitem de até R$ 10 mil e uma linha de crédito para empresas de R$ 10 mil a R$ 1 milhão, cobrindo a faixa intermediária entre nosso microcrédito e as linhas do BNDES.

    Estamos também implantando linhas específicas de capacitação dos empreendedores com cursos focados nas peculiridades da economia da cultura e iniciando uma política de promoção da produção cultural baiana independente, extremamente diversificada e de alta qualidade, no país e no exterior.

    Do ponto de vista dos investimentos públicos, aumentamos consideravelmente o investimento direto, através do Fundo de Cultura e estamos procurando parcerias com outras secretarias, já que o estado é um grande comprador de produtos culturais, através por exemplo de secretarias como a de Educação.

    3) A indústria do carnaval é uma realidade na economia baiana há algum tempo, mas pesquisas e reportagens mostram que ainda há uma série de gargalos a serem superado (como a informalidade e as precariedades das condições trabalhistas), o que vem sendo feito e quais os próximos passos?

    O Carnaval foi objeto das nossas primeiras pesquisas. Hoje sabemos que ele movimenta mais de R$ 500 milhões de reais, sendo a maior parte destes recursos oriundos de patrocinio ou renda com gastos dos foliões. Sabemos também que o Carnaval constitui-se em uma oportunidade privilegiada de geração de emprego e renda, movimentando
    a economia formal, os pequenos negócios e, sobretudo, a economia informal. Foram cerca de 100 mil soteropolitanos trabalhando na festa em 2009 (4% da População em Idade Ativa). São profissionais de várias áreas – servidores públicos, artistas, músicos, policiais, técnicos, ambulantes, cordeiros, seguranças particulares, encarregados de limpeza etc. Este ano, o poder municipal, responsável pela organização da festa, anunciou a criação do Estatuto do Carnaval que tem o objetivo de regular áreas de serviço e trabalhistas durante o Carnaval, dentre elas, estavam regras para garantir um melhor tratamento dos “cordeiros” que são os que mais sofrem com as condições de trabalho durante a festa. Em 2010, a Secretaria de Cultura deu um apoio institucional para a cooperativa de catadores de resíduos sólidos, numa parceria com a Secretaria do Meio Ambiente, para melhorar os locais de coleta desses resíduos no circuito do Carnaval.

    4) Qual a estratégia do governo de fomentar a criatividade e a cultura como um negócio? Existem setores estratégicos?

    A estratégia está fundamentada em 5 eixos: “Informação e Reflexão”, com o levantamento de dados consistentes e reflexão qualificada sobre a dimensão econômica da cultura no Estado; “Qualificação”, estimulando a formalização e promovendo uma cultura empreendedora e a apropriação de conhecimentos técnicos específicos para os negócios em cultura; “Promoção” com o desenvolvimento de material representativo dos artistas dos diversos segmentos assim como o apoio com o deslocamento para feira de negócios nacionais e internacionais; “Fomento especializado”, com linhas de créditos formatadas especificamente para o setor cultural.

    Estamos trabalhando com todas as áreas, sem restrições, mas temos tido maior procura dos empresários do audiovisual, música e do segmento do livro.

    5) Qual a importância da criação do Cultura em Pauta no desenvolvimento da Economia da Cultura no Brasil?

    Ainda é recente as experiências de políticas públicas para a economia da cultura ou economia criativa, como alguns países preferem trabalhar. Por isso a criação de um espaço para trocas de experiências e reflexões sobre este campo é essencial para acelerar o amadurecimento de políticas eficientes para a área. Na área da Cultura, dados são fundamentais para a implantação de políticas e o Cultura em Pauta pode ser uma ferramenta a mais nesse universo.

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