Estado do Rio aposta na formalização e qualificação do setor cultural, entrevista com Marcos André

  • A Secretaria de Cultura do Rio desenvolve um forte trabalho com a Economia Criativa. Além de reconhecer design, a arquitetura e a moda, como eixos de transversalidade das várias produções culturais, o governo do Rio também tem desenvolvido ações pioneiras como o Escritório de Apoio Cultural – que oferece consultorias gratuitas aos produtores culturais no Rio  ­- e as Incubadoras de criação criativa.

    Essas iniciativas tem o objetivo de profissionalizar a classe cultural no Rio de Janeiro e prepara-las para a a participação em grandes eventos que vêm para a capital carioca, como a Copa e as Olimpíadas. Muito mais que isso, procura valorizar uma vocação para a criatividade que já está no DNA da cultura carioca.

    O Blog da Coordenação de Economia da Cultura conversou com Marcos André, coordenador de Economia Criativa da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, sobre esses projetos e debateu a importância da produção cultural na economia do Estado do Rio.

    1) Como começou o trabalho sistemático com a economia criativa no governo estadual do Rio?

    Logo no início dessa gestão. A secretaria Adriana Ratteis veio do mercado cultural, da área de audiovisual e tem uma ampla experiência desse mercado. A nova gestão da secretaria definiu que além do aspecto simbólico e da cidadadnia, a cultura deveria ser também pensada pelo seu aspecto econômico. Isso passou a se tornar essencial no desenvolvimento e construção de políticas culturais no Estado.  Sempre levamos em conta o desenvolvimento que a culura pode trazer.

    2) No Estado do Rio, o governo trabalha com o conceito de economia criativa, como o governo entende esse conceito e o aplica no Estado?

    Essa discussão já está presente em outros lugares do mundo há quinze anos. É um conceito ampliado de economia da cultura e que engloba indústrias que estão sempre bebendo na criação cultural como a Moda, o Design e a Arquitetura. Resolvemos ampliar estrategicamente e incluir esses outros setores. A idéia ér entender o impacto dessa criação no PIB. Os designers, os arquitetos, os estilistas têm sempre de partir da criação artística, em diálogo permanente com as artes visuais, com a produção cultural, com o que eles vêm nas ruas. Esse ambiente tem muito a ver com o âmbito com que a Secretaria de Cultura trabalha.

    Para nos aprofundar nesse conceito, nós pesquisamos e fizemos missões internacionais na Inglaterra e Barcelona e em todos esses centros de criatividade o conceito é o da economia criativa. De acordo com dados fornecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), a indústria criativa é que mais cresce no mundo e movimenta mais de US$ 1,3 trilhão, o que representa 7% da economia.

    A maior parte das indústrias criativas está ligada a indústria cultural e as que não estão bebem diretamente da cultura, da criação e da criatividade. É um momento em que a cultura toma o protagonismo da economia mundial. Por isso, é importante pensar o setor cultural a partir de um ponto de vista multidisciplinar e o seu impacto também na economia, no turismo, na educação, na produção industrial, nas cidades e na construção da imagem no exterior.

    3) Por causa do rádio no começo do século 20 e da TV  e do cinema posteriormente, a indústria cultural carioca sempre foi uma vitrine da produção brasileira. Qual é o impacto de um cenário tão relevante em todos os setores do ponto de vista econômico?

    A cidade do Rio faz parte do inconsciente coletivo mundial. As belezas naturais, a música, a criação do samba e da Bossa Nova, o cinema e a televisão permeiam o imaginário do brasileiro. O Rio tem uma marca muito forte no mundo todo, um valor simbólico muito forte. A economia criativa se baseia nesses valores simbólicos, intangíveis.

    Além disso, por ter sido capital do Império e capital federal, a cidade tem um hstórico grande de ser sede de muitas das principais indústrias culturais do país, principalmente na área de música e audiovisual. O impacto disso na economia e na vida da cidade é muito significativo.

    Do ponto de vista nacional o Rio também tem um potencial muito forte para ser o irradiador da diversidade da cultura brasileira. A partir dos grandes eventos como as Olimpíadas e a Copa, as políticas culturais devem pensar o Rio como uma porta de entrada para a produção cultural de todos os estados. É um local de irradiação e de estímulo ao aprofundamento na cultura brasileira.

    A conquista das Olimpíadas vai gerar esse potencial. É onde o Brasil pode aproveitar toda essa visibilidade para a atrair a atenção do país como um todo.

    4) E o que a Secretaria de Cultura vem fazendo nesse sentido?

    A secretaria tem dois projetos centrais na área de indústrias criativas, o  Escritório de Apoio a Produção Cultural e as Incubadoras de Empreendimentos de Economia Criativa.

    O Escritório de Apoio a Produção Cultural já existe há um ano e meio e é uma parceria com o Sebrae/RJ e o Ministério da Cultura. Com ele,  nós procuramos dar apoio aos agentes culturais na elaboração de seus projetos. A Secretaria disponibiliza consultores que atuam nas áreas de formalização; prestação de contas e contabilidade; marketing e produção cultural; e cultura digital.

    A metodologia de aulas particulares é muito interessante. São consultores gratuitos que oferecem aulas individuais a cada um dos produtores culturais. O mercado como um todo é muito inexperiente em gestão. No geral, as pessoas ligam pra cá e agendam suas reuniões. Aqui eles apresentam as dúvidas aos consultores que dão respostas de acordo com a necessidade do projeto.

    O escritório atende desde agentes de cultura popular até produtores de cinema ou música. Outro papel do escritório é divulgar as diversas linhas de financiamento para a cultura como, por exemplo, as Leis de Incentivo Estadual (ICMS) e federal (Rouanet), além do mecanismo dos editais lançados pelos governos e por empresas públicas e privadas.

    5) E qual foi a diferença desse Escritório na vida cultural do Rio?

    Antes de tomar contato com o Escritório de Apoio, muitos desses produtores não conheciam as técnicas de elaboração de projetos. Mesmo com anos de prática da produção, eles não conseguiam colocar os projetos no papel. Por isso, era difícil viabilizar as suas iniciativas.  A secretaria também percebeu que muitos produtores culturais não tinham acesso aos mecanismo de financiamento, porque estavam na informalidade. Era preciso dar condições deles se formalizarem. Por isso, atuamos forte nas ações de formalização e depois ajudamos eles a colocar os projetos deles no papel.

    Um resultado importante é que hoje o Rio é recordista de inscrições no Programa Mais Cultura. Dos 715 projetos de Pontos de Cultura, inscritos no programa, 51% vieram do interior do Estado do Rio, da Baixada e do Leste Fluminense, enquanto 49% partiram da capital. Foram selecionados 150 projetos de 69 municípios (o que cobre 75% do estado) para a criação de Pontos de Cultura,.

    Por causa disso, o Escritório de Apoio também tem um núcleo voltados somente para os 230 novos pontos, que atuam com foco principalmente na gestão e na prestação de contas.

    6) E como funcionam as incubadoras?

    Enquanto o escritório esta voltado para a sustentabilidade de projetos que pode ser um ponto de cultura, uma peça de teatro ou um filme. A incubadora está voltada para a sustentabilidade do empreendimento criativo, para o artista ou produtor que decidiu criar uma instituição. A idéia é dar subsídios para ela sobreviver no mercado.

    O Sebrae tem um dado de que 80% dos empreendimentos culturais acabam em até cinco anos. No entanto, quando esses empreendimentos passam pelo processo de incubação a estatística  se inverte, 80% das instituições sobrevivem depois de cinco anos no mercado.

    Os emprreendimentos aprovados nas incubadoras contam com um escritório por um ano e meio, sala de reuniões e de palestras e condições para a residência. Mais importante que a infra-estrutura, a instituição recebe qualificação gratuita sobre plano de negócios, empreendendorismo, assessoria jurídica, assessoria de imprensa, contabilidade etc.

    Durante dezoito meses, essa instituição que está nascendo vai ganhar corpo, se fortalecer, se qualificar e vai poder investir o seu recurso na compra de equipamentos, na qualificação dos integrantes e vai ter condições de desenvolver seu projeto com mais segurança. Depois desse período, a instituição vai estar preparada para atuar no mercado com mais segurança.

    A princípio estamos lançando duas incubadoras, uma na capital e a segunda, provavelmente, na baixada fluminense. O edital deve ser lançado em maio para 16 projetos na capital e oito na baixada. As incubadoras contam com a parceria da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciencia e Tecnologia do Rio de Janeiro, da prefeitura do Rio e do Instituto Gênesis da PUC-Rio.

    7) Qual a importância da criação do Cultura Em_Pauta no desenvolvimento da Economia da Cultura no Brasil?

    Eu acho que a Economia Criativa é uma pauta estratégico para o Ministério da Cultura e as secretarias de Cultura dos estados. Para o Brasil, o desenvolvimento da Economia Criativa é um assunto novo, mas já é um tema bastante comentado no resto do mundo.

    Esse encontro é muito importante pra troca de informações, para a construção de cooperações técnicas e principalmente para a criação de um discursoi comum de prioridades e na elaboração desse manifesto que alerta a importância do setor cultural para a economia do país. O Brasil ainda está tomando conhecimento da grandeza da Economia Criativa como um agente de crescimento sustentável e de possibilidades incríveis pro país.

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