Cultivando labs no Bailux

bailux1Foto: Blog do Bailux

Em inícios de maio deste ano fiz uma imersão no Bailux, em Arraial d’ Ajuda, no sul da Bahia. O lab já teve espaço próprio e agora encontra-se distribuido em ações e dinâmicas que misturam tecnologias livres, metareciclagem, comunidades indígenas, conhecimento ancestral e permacultura. A intenção da viagem foi conhecer mais de perto os processos em andamento, e colaborar com a reflexão de caminhos para a sustentabilidade.

Conheci o Regis, idealizador  do Bailux no Fórum de Cultura Digital de 2010. Naquele momento tivemos uma longa conversa e fiquei muito instigada em ter uma vivência no projeto.  Cinco anos depois chegou o momento de ir junto com a Lucia Carreras, grande amiga argentina que desde o início do ano está viajando pelo Brasil colaborando com espaços de permacultura e capoeira.

Conforme passaram os dias ficou mais complexo para mim explicar o que é o Bailux, pois entendi que não é apenas um projeto, e há um tempo deixou de ser um espaço físico. Hoje diria que é mais como um estado, uma sintonia que estimula um impresionante fluxo de ideias sobre tecnologia, ações criativas, ancestralidade, redes de afetos e articulações com forte base local e comunitária.

Antes de chegar trocamos alguns e-mails. Regis enviou umas fotos da maquete do sítio do ITAPECO (Instituto de Tecnologias Alternativas, Permacultura e Ecologia), espaço parceiro do Bailux que no ano passado acolheu o Festival de Tecnoxamanismo. Nas palavras do Jürgen, o coordenador, o sítio estará em construção permanente, disponível para encontros e aprendizagens e aberto para acolher outras hibridações temáticas.

IMG_2210

Imaginei que a maquete poderia ser (ou vir a ser) um dispositivo relacional…o simples exercício de encontro de pessoas em torno de um objeto funcionando como uma cartografia de sonhos e futuros, uma ferramenta para mapear desejos/recursos/possibilidades de construção coletiva. Foi em torno dessa ideia que trabalhamos nos dias seguintes.

Durante a semana realizamos alguns encontros para conhecer o contexto de ação do Bailux. Um deles foi a visita ao ITAPECO e conversa com Jürgen, seu criador. Ele é alemão e mora há 10 anos no Brasil. Já trabalhou com informática no Vale do Silício e foi embora procurando um novo estilo de vida. Achou um novo lar na Bahia, onde viria materializar esse sonho.

IMG_2084

O sítio fica a 12km de Arraial e tem 42 hectares, das quais pelo menos 2 serão destinadas a plantio. A terra está sendo trabalhada para criar uma agrofloresta e assim recuperar o solo. Na pequena casa tem uma biblioteca cheia de livros sobre permacultura, agroecologia, e bioarquitetura, entre outras coisas. Na conversa ele contou que quer construir um espaço para cozinha maior, um lugar onde hospedar pessoas, galpão para experimentações e infra-estrutura básica de banheiros e chuveiro. Conversamos bastante sobre as modalidades que poderiam ter esses encontros no sítio e maneiras de articular processos relacionados com permacultura, mas também acolhendo outras práticas híbridas.

Jürgen também nos levou para conhecer a nascente de água, no meio de um mato incrível, o banheiro seco estilo Basson que aprendeu a fazer no TIBÁ, vimos um monte de abacaxis crescendo, um “consórcio” de plantas que com um ano de idade já está enorme, terra adubada com madeira, espirais de ervas que aguardam novos plantios para crescer. Comemos folhas de Moringa, e conversamos sobre os usos do Neem (nim em portugués) como repelente natural.

IMG_2094

No dia seguinte fizemos o nosso primeiro encontro de cozinha. Preparamos uns legumes, tomamos chimarrão, apreciamos a casa linda do Regis e Helena, e conversamos sobre metodologias colaborativas e dispositivos relacionais a partir da leitura de trechos do livro Estética de la Emergencia de Reinaldo Laddaga. Ficamos surpresxs com a estreita relação entre o que imaginamos ser o papel da maquete e os exemplos do livro. Regis se interessou pela cartografia de sonhos/desejos /interesses/recursos dos processos que hoje estão se desenvolvendo em torno do Bailux, para ele é importante acolher o imaginário pois “cada momento do processo de construção já é a obra…não há um lugar onde chegar.”

IMG_2149

Depois do almoço fomos para a Reserva Pataxó em Aldeia Velha. Pegamos um atalho no meio da floresta para chegar na Varanda Cultural, que fica dentro da aldeia. Lá encontramos com Arnã, educadora e lider indígena feminista. Enquanto comemos jambo do pé, conversamos entre outras coisas sobre o significado desse lugar na aldeia, e pelo relato inspirador de Arnã percebo que a Varanda Cultural tornou-se um espaço-chave de mediação comunitária, onde acontecem diversas trocas, conversas e encontros cotidianos…pela afluência de pessoas naquela tarde deu para ver que a iniciativa é muito potente e agregadora.  Assistimos vários videos produzidos por jovens da aldeia sobre jogos indigenas, práticas de pintura corporal, medicina tradicional, entre outros. Depois de passar a tarde na Varanda, nos despedimos de Arnã e voltamos para a cidade.

IMG_2152 IMG_2158

Por último fomos conhecer a Casa Tapuia em Porto Seguro, onde moram Lucia e Antonio Rizzo junto com  dois filhos. Ela é arquiteta e juntos trabalham em projetos de construção, já se dedicaram exclusivamente a viver da arte e hoje mantém uma casa em constante mutação, onde realizam diversos experimentos de bioconstrução e permacultura. Enquanto ela mostrava cada um dos espaços da casa e se desculpava falando das coisas que ainda não estavam terminadas, eu achava isso fantástico…Tapuia é uma espécie de lab experimental!

O lugar está cheio de inventos com técnicas diversas, aberto ao erro e a reformulação. Cada canto que me apresentava era um novo desdobramento de histórias.  Além da maquete do ITAPECO, outros protótipos em andamento em Tapuia são: espiral de ervas, horta mandala, teto verde, baldosas, sistema de irrigação, horta, compostagem, jardim vertical, fogão de lenha, tratamento de esgoto e evapotranspiração, banheiro seco, desidratador/secador de frutas, e a lista continua. Na conversa imaginamos muitas modalidades de experimentação, incluindo residências temporárias e intercâmbios de saberes. Felizmente essa ideia começou a se materializar uns dias depois, com a chegada da primeira residente na casa.

IMG_2182 IMG_2192

Fechamos a imersão com a leitura de uns trechos do livro Micropolíticas de los grupos. Para una Ecología de las Prácticas Colectivas, e do Decálogo de Prácticas Culturales de Código Abierto.  Depois elaboramos um rascunho de metodologia para nosso dispositivo relacional e um plano de trabalho para o Bailux que inclui uma série de propostas e modalidades de ocupação laboratorial e experimentações em parceria com outros projetos.

Gratidão imensa ao Régis, Helena, Jürgen, Arnã, Lúcia e Rizzo e Giselle, do Arraial d’ Ajuda Hostel pela generosa acolhida!

2 comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*