Martin Scorsese, de novo, inqualificavelmente bom. Desta vez, com um suspense de fazer inveja a muita gente. Chega um momento em que se tem a nítida impressão de que a solução da trama está à vista. Ainda bem que este momento chega bem pra lá do meio da película. Assim sendo, não se perde nem um segundo das atuações estarrecedoras de Leonardo di Caprio, impecável; Marc Ruffalo, com o indefectível cantinho da boca enrugado, ou mordido, a gosto do freguês…; Ben Kingsley, irritantemente perfeito no papel do psiquiatra on the edge entre o magnânimo e o sádico; Max Von Sydow, numa performance que o transforma num sósia de Freud – imagem e texto; Michelle Williams, fazendo praticamente o mesmo papel que desempenhou em Brokeback Mountain – a chatinha, coitadinha, “inha”, aqui, ao contrário, com uma dose maior de sarcasmo que oscila entre o lúbrico e o fantasmagórico – que pena que as asas dela não permitam voos mais “sobrenaturais…; e, finalmente, Patricia Clarkson, soberba, no papel de uma personagem “chave” para a trama, o que só o pobre do espectador ávido por mais suspense não consegue perceber.

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Um filme que, ainda uma vez, com a assinatura indelével do diretor, permeia os descaminhos da identidade que se parte e reparte em cacos de um vitral inextricavelmente destruído por um trauma – a sequência em que a personagem de Von Sydow brinca com a de di Caprio, num jogo semântico/etimológico da palavra “sonho” só não é engraçada por impossibilidade de “achar graça” na situação em que se encontram… O filme não chega a ser soberbo, mas não passa desapercebido. Não sou um “entendido” em cinematografia, em “cinema”, mas gosto de ver bons filmes e tenho a ousadia de dizer que tal filme é bom e tal outro é ruim! Claro está que na medida exata de minha opinião: jamais afirmei outra coisa, até agora… Como eu dizia, no momento em que se percebe que a catarse vai se consumar, dá-se uma reviravolta e a dúvida se instala de novo. O filme levanta vôo de novo, ainda que não estivesse “aterrando”, mas o espectador escapa da chance rasteira de “solucionar o problema”. Na cena final, a pergunta chave, que di Caprio solta no ar e deixa evolar, sem resposta. Pra que responder?

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O filme narra a história de Teddy Daniels que investiga o desaparecimento de uma paciente de determinado hospital psiquiátrico, estabelecido numa ilha não muito longe da costa de Boston. O hospital abriga criminosos e a investigação emperra na impossibilidade de acesso aos registros completos dos casos tratados. Como uma serpente que se enrosca ou um platelminto que se auto-reconstroi a partir de seus próprios fragmentos, o filme vai fluindo em imagens sinistras sempre coloridas por chuvas torrenciais e o interminável bater das ondas nas falésias rochosas da ilha. Sinistro é pouco. A lição de Hitchcock foi muito bem aprendida por Scorcese que, como bom aluno, voa por conta própria, rasurando definitivamente a cena fílmica do Ocidente.

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Para terminar, é condição sine qua non ver o filme desde o primeiro segundo de exibição. É impossível (re)ver o começo por ter chegado atrasado ao cinema. Se isso acontecer…. Pior pra quem se atrasou!