
Curso “Sistematização de Experiências: Aprender desde a Prática”, Porto Alegre, Nov.2011
Entre os dias 03 a 05 de novembro de 2011, em Porto Alegre, participei do curso “Sistematização de Experiências: Aprender desde a Prática”, ministrado pelo educador Oscar Jara Holliday para um grupo de gestores, analistas, técnicos de vários setores do serviço público do Rio Grande do Sul e militantes da educação de jovens e adultos de todo o Brasil. A seguir, segue um relato sobre as principais experiências vivenciadas no decorrer do curso.
Em todas as nossas experiências de vida, produzimos saberes, “saberes de experiência feito”, como registrou Camões em sua obra “Os Lusíadas”, bem como relembrou Paulo Freire, em seus escritos. Ou seja, saberes que adquirimos a partir da nossa de nossas ações diretas sobre a realidade, de nossas intervenções no mundo, que se repetem no decorrer do tempo, virando costumes, comportamentos e gerando novos saberes. Eles surgem a partir da necessidade cotidiana de nossas relações individuais e coletivas imediatas, depois se consolidam em nossas práticas, e dessas práticas, produzimos saberes diante da vida.
Segundo Oscar Jara, devemos descobrir, intencionalmente, como esses saberes se constituem. Para isso é importante captar, de forma mais completa possível, como as nossas ações, que constrõem esses saberes no dia-a-dia, acontecem.
Oscar Jara é educador popular com vasta experiência em muitos países da América Latina. E foi a partir da reflexão sobre essas experiências que formulou uma metodologia sobre o registro de suas práticas e memórias, com o objetivo de possibilitar às pessoas maneiras de organizar a sistematização de suas ações cotidianas, dos acontecimentos dos quais participam, dos processos em que se envolvem, organizando esse conhecimento de forma reflexiva, e contribuindo na tomada de decisões sobre as ações que se seguem.
Ao longo do curso compreendi que sistematizar, simplesmente, não é o mesmo que sistematizar experiências. Na primeira situação podemos apenas organizar as informações de forma resumida, cronológica ou linear. Sistematizar experiências é algo mais inteiro, simbólico e subjetivo. Nesse tipo de sistematização podemos descrever, reconstruir, interrogar e interpretar a experiência que tivemos. E o principal: aprender com ela novamente.
Ao longo desse percurso podemos chegar a conclusões sobre a experiência vivida que serão a base de nossas ações adiante, para outras propostas de ex
periências. Podemos tomar distância crítica do que vivemos e dar outros significados aos acontecimentos, descobrir mais do que foi vivido e ampliar a nossa percepção sobre os fatos.
Mas a prática da sistematização de experiências, de acordo com Jara, deve ser feita de maneira contínua, recorrente, caso contrário, ela perde o seu sentido mais transformador, que é o de gerar aprendizagem sobre as nossas ações. Por isso, ela não pode se dar de forma pontual, isolada. Para fazer sentido, o primeiro passo é adquirir o hábito de refletir e assim registrar as nossas vivências, em diários de bordo por exemplo. Isso demanda de nós a abertura para rever nossos conceitos, transformar as atitudes, e compreender que a vida está em constante movimento.

Ao apresentar o desenvolvimento da proposta de sistematização, Oscar Jara nos apontaoquais podem ser os principais objetivos desse exercício de registro reflexivo permanente:
- Melhorar nossas práticas num sentido geral, seja de forma individual ou coletiva, pois adquirimos ao longo deste percurso o hábito reflexivo sobre nossas ações e a prática de realizar ações mais conscientes, a partir da leitura crítica da realidade;
- Gerar intercâmbio de aprendizagens, pois com nossos registros, que podem ser em diversas linguagens tais como anotações, imagens, vídeos, etc, temos as condições de organizar as informações, as percepções e as avaliações das experiências vividas de forma a trocá-las com outras pessoas ou grupos;
- Contribuir com o enriquecimento/análise de alguma teoria, pois nossos registros também são fontes empíricas sobre os fatos observados, que podem colaborar na validação de afirmações teóricas apresentadas ou criar argumentos que as questionem;
- Gerar incidência política, pois a sistematização das vivências que fundamentam as pautas de lutas dos movimentos sociais, por exemplo, também podem ser fontes de informação legítimas da realidade que se deseja transformar e por conseguinte, de suas reivindicações.
- Fortalecer a identidade de grupos, pois a sistematização possibilita a capacidade de gerar uma percepção apurada dos diversos aspectos que formam a composição de grupos, delineando seu perfil;
Em linhas gerais existem etapas no processo de sistematização que, segundo o educador, são a forma didático-pedagógica de organizar desde a reconstrução histórica da experiência, até a compreensão do processo vivido. São elas: a) Ter participado da experiência; b) Fazer o registro ao longo da experiência vivida; c) Elaborar o plano de sistematização; d)Realizar a interpretação crítica do processo sistematizado; e) Apresentar as conclusões.
O ponto de partida são as experiências vividas, pois ninguém pode registrar o que não viveu. É necessário ter a disposição de fazer o registro dos fatos, dedicar e permitir-se o tempo necessário das anotações, de tirar as fotografias, realizar filmagens ou de organizar as informações de acordo com a linguagem que mais se adequar ao sujeito ou ao grupo que queira sistematizar.
Após isso, ou durante esse processo, é preciso elaborar um plano de sistematização, que responda às perguntas O que sistematizar? Para que? Como? Quem faz o que? E com isso dar início à recuperação histórica do processo vivido, organizando as narrativas no tempo, espaço e contextos históricos, políticos, culturais e subjetivos. Nessa fase é importante ter em mente o tamanho do momento que vai ser sistematizado, o que pode ser definido de acordo com os objetivos de quem pratica a sistematização. Por exemplo: um grupo político quer sistematizar a história de fundação de seu partido. Eles decidem começar o processo de sistematização com o material que tem registrado desde 2003 até o ano de 2010. O grupo tem então um período determinado, que vai do momento em que seus integrantes se conheceram até o registro de sua carta de princípios, enquanto partido político. É durante esse espaço de tempo (2003 a 2010) que o grupo vai se dedicar a recolher os registros de todo o material que têm guardado, fazer o reconto da memória de seus integrantes, rever álbuns fotográficos, fazer entrevistas com ex-integrantes, etc. Esse processo certamente vai trazer contribuições não apenas para a reinterpretação dos fatos vividos pelo grupo, mas aprendizados sobre o decorrer do processo sistemazado que lhes dará as bases para as ações futuras.
Só após a definição desses aspectos então passamos à interpretação crítica de nossa sistematização, tomando distância dos fatos registrados e nos perguntando de fato Por que aconteceu o que aconteceu? Buscamos nas nossas fontes os diversos tipos de registros que dispomos, os eixos de nossas análises, que são os objetivos que temos ao sistematizar.
As conclusões são, em essência, a culminância das aprendizagens ao longo de todo o caminho percorrido, mas que não têm um fim em si mesmas, e sim são possibilidades de reorientar nossas novas ações. Muitas vezes, ao final de um período determinado para a sistematização, apresentamos as conclusões a que chegamos em produtos específicos (livros, portfólios, jornais, etc). Oscar Jara ressalta no entanto que, embora seja muito importante elaborarmos também os registros desses produtos finais, é importante ter em mente que a sistematização não é um produto em si, e sim o processo que gera um ou vários produtos.
Oscar Jara também apresentou ao grupo algumas técnicas possíveis para desenvolver a sistematização de experiências. Possíveis porque cada objetivo demanda um contexto social, cultural, político e pedagógico específico, e as técnicas sozinhas não podem responder pela realização bem sucedida ou não de todo processo. É preciso que elas sejam consideradas dentro do contexto onde são utilizadas. Algumas delas são:
- Uso de matriz de reconstrução histórica cronológica – linha do tempo;
- Uso de elementos simbólicos como desenhos com os elementos marcantes de interpretação do processo, para a compreensão de forma mais subjetiva;
- Uso de anotações, fotografias, filmagens, poemas, músicas, entrevistas;

a) Técnica de matriz de reconstrução histórica cronológica; b) Gráficos com símbolos
Com tudo isso pude perceber que a sistematização nos dá a possibilidade de reescrever a nossa própria história, e também possibilita a coletivos recontarem a sua a muitas mãos. Nessa perspectiva, podemos compreender as tensões e contradições críticas que permeiam todo o processo vivido em alguma experiência, além de gerar conhecimento sobre nossas ações, o que nos permite reorientar as práticas futuras.
Para Jara, o educador nunca deve esquecer o prazer de descobrir o novo. Não podemos perder a oportunidade do “assombro” de conhecer ou construir o novo, inclusive a partir do olhar sobre nós mesmos. Com a sistematização de experiências podemos refletir sobre nossos “assombros”, que não nos damos conta cotidianamente, pela falta de reflexão sobre a nossa prática. Ela possibilita o desvelamento e a criação de uma cultura do “consciente”.
Um pouco mais sobre o educador
Oscar Jara é peruano. Mas há mais de 30 anos mora na Costa Rica. Já ganhou nacionalidade costa-riquenha e está há muito tempo envolvido com as lutas políticas de seu lugar escolhido. Começou a “jornada” na educação popular com pouco mais de 20 anos, no movimento da igreja católica sob o vínculo da teologia da libertação, alfabetizando 05 senhoras próximas à sua casa. No Chile teve a oportunidade de fazer um curso com um educador brasileiro chamado Paulo Freire. A partir de então ele conta que muitas percepções se abriram em sua visão de sujeito político e novas referências em educação passaram a moldar a sua prática político-pedagógica até os dias de hoje. Jara também fez escola quando trabalhou num grande projeto de alfabetização de camponeses que, como não poderia deixar de ser, estava mergulhado na temática das lutas pelo direito a terra. Foi aí que descobriu a importância de sistematizar, pois, a partir de seus registros e dos outros colegas alfabetizadores, pôde produzir o material didático que serviria para a alfabetização dos sujeitos do campo com os quais conviveu. “Devolvia para eles a história deles, seus dizeres, em registro”.
Durante o curso em Porto Alegre Oscar exercitou bem o seu “portunhol”, mas diz que vem se dedicando a aprender a língua portuguesa com bastante interesse. Ele ouve música brasileira para treinar. Gosta de Paulinho da Viola e Chico Buarque, mas ainda se embaralha na lógica do “S” com som de “Z”.
Dizer mais sobre ele, do ponto de vista curricular é ser redundante. Em muitas páginas na internet podemos achar referências e mais referências sobre este grande educador. Mas estou certa de que, neste curto período de convivência, o que mais me marcou foi a simplicidade com que um doutor de formação acadêmica se mostrou diante de um público tão diverso e desafiador. Pessoa simples e bem-humorada. Cantor e incentivador. Acessível e alegre. Para mim, o deslumbramento com a proximidade de uma referência científica e políticamente engajada foi se transformando ao longo dos dias em simples alegria e gratidão pela oportunidade de convivência e aprendizagem, que registro e compartilho aqui.

#momentosquevalemmuito!
Por Juliana Arraes