Olá, pessoal — uma contribuição mais teórica do que prática, para ajudar a responder as questões do André Deak, e de quebra problematizar um pouco a ideia do digital: acho que é comum confundirmos digital e eletrônico (pra mim são coisas diferentes); e acho que a distinção digital / analógico pode ser gradativa, e não só “preto / branco”.
Associamos essa palavra a coisas produzidas ou interpretáveis por computadores ou outros aparatos eletrônicos. Sua etimologia, porém, remete a um contexto que em comparação é arcaico: o sistema de numeração decimal. A referência aos dedos (“dígitos”) vem da prática de contar com os dedos, da qual derivou esse sistema.
Adequado à contagem manual, o sistema de numeração decimal relaciona-se muito menos com a tecnologia computacional do que o sistema de numeração binária, pelo qual toda informação em um computador é representada. Por que, então, “cultura digital”, e não “cultura binária”? A razão é que, na distinção entre analógico e digital, a importância recai menos sobre o algarismo, ou sobre a base decimal, e mais sobre o próprio ato de numerar, de contar. O digital, nessa contraposição, é discreto, descontínuo — e essa é sua característica mais importante.
Pois ao contrário do que acontece com as representações analógicas, só pode ser numerado ou contado aquilo que é descontínuo, que possui unidades distintas, e que pode ser expresso em números — ou, vendo a questão por outro lado, numerar ou contar seria justamente determinar essas descontinuidades, essas distinções entre as unidades.
(Copiei esse texto de um artigo que escrevi em 2004: Geometrização do mundo e imagem digital.) Seguindo por esse raciocínio, eu suspeito que a diferença entre a comunicação que usualmente chamamos de digital e os tipos de (tecnologias da) comunicação “anteriores” não é uma diferença qualitativa, mas sim uma diferença de grau. Quer dizer, não há um corte preto / branco, em que o preto é a comunicação por computadores (e celulares etc.) e o branco é tudo o que veio antes, mas sim uma gradação: a digitalização, nesse sentido que mencionei acima, já vinha avançando junto com as técnicas de comunicação, que permitiam registros cada vez mais descontínuos e uniformes, que podiam ser facilmente reproduzidos. Ela já está presente (ainda que em menor escala) mesmo no mundo impresso.
Dois exemplos disso são a comunicação verbal e a comunicação por imagens (eles estão mais aprofundados no artigo que mencionei acima). Na comunicação verbal, essa presença e avanço da digitalização pode ser identificada na seguinte progressão (bastante esquemática…), em ordem crescente de digitalização: linguagem oral, escrita silábica, escrita alfabética, imprensa de tipos móveis.
No caso das imagens, uma progressão similar seria: registro manual de original único (desenhos, pinturas etc.), gravuras reproduzíveis (como os clichês usados na impressão de figuras em livros antigos), impressão por meio de retícula (como nos jornais e revistas que conhecemos).
É relevante que a impressão de imagens por retícula siga princípios bem parecidos aos da imagem digital, como a decomposição da imagem em matrizes de pontos e em um número finito de cores (combinadas em intensidades variadas, mas também finitas).
Isso tudo posto, estou totalmente de acordo que a comunicação que chamamos de digital é, ao menos em potencial, um grande avanço em termos de participação, acesso etc. Mas as tecnologias “anteriores” também eram, à sua maneira, avanços potenciais nesse sentido, e no entanto a comunicação que temos hoje (baseada nessas tecnologias) está longe de ser participativa ou democrática; ao contrário, ela é amplamente dominada pelo mercado. Com essa problematização queria apontar que um risco parecido também existe na comunicação por computadores (coisa óbvia, mas que não se pode perder de vista).