Ontologia Imagética: A gênese do imaginário. Parte 1

A fotografia, desde a sua invenção no século XIX, atravessou diversas transições. Nesse período, foi recebida com receio por uns e entusiasmo por outros. Acreditou-se que a imagem técnica seria um inimigo da arte, especialmente das artes visuais embora estas ainda não fossem chamadas assim, pois a pintura, por exemplo, se constituía de um pressuposto objetivo que tinha a função de assegurar a representação das emoções ou arquétipos do espírito em superfícies bidimensionais, em imagem, segundo critérios sensíveis.  Em outros termos, buscava-se transcender a experiência material tendo como ponto de apoio a própria materialidade, o mundo tal como o percebemos através dos cinco sentidos. Ademais, recaía sobre ela a responsabilidade de, por assim dizer, documentar o mundo, as paisagens, as pessoas. Com a captura mecânica de imagens, essa função deixou de pesar à pintura e abriu espaço para movimentos artísticos como dadaísmo e surrealismo, que se colocaram em oposição à tradição, na interioridade  que viria se consolidar como Arte Moderna.

_MG_1506          Caldo Primordial

Com o surgimento do novo advento tecnológico em meio a revolução Industrial o receio não era ilegítimo. A máquina havia tomado o papel do homem que, até então, utilizava-se de ferramentas para o trabalho, nessa revolução passaria a trabalhar em função daquela.

Os instrumentos servem como prolongações de órgãos do corpo humano, como “o martelo simula o punho, a enxada simula o dente; na revolução industrial, o instrumento aperfeiçoou-se tecnicamente e tornou-se máquina” (Flusser, 1985). A fotografia, no entanto,não se constitui da mesma lógica. Ela não contempla a noção de trabalho no sentido tradicional, não extrai matéria-prima da natureza. Tampouco fabrica bens de consumo ou máquinas e ferramentas responsáveis pela fabricação de bens de consumo. Diferente do instrumento ou da máquina, a fotografia é aparelho, um aparato técnico que possui um objetivo de jogo, compreende uma dimensão do homo ludens: objetiva transformar processos em cena; representar o mundo tridimensional em um plano bidimensional: a imagem.

O tempo da foto não é contínuo, é um tempo estático, mumificado. A cena representada pela fotografia, levantada da linearidade primordial do Tempo, sublimada, virtualizada, se mostra tal qual fora e apenas aparentemente, numa nova temporalidade, a do observador. O observador, por sua vez, não recepciona de uma só vez toda a imagem. Circula sobre os elementos afim de encontrar uma imagem geral, uma ideia acerca daquele conjunto de impressões visuais. Mas já esse tempo é circular. Infinito, por natureza, na imobilidade cataléptica da foto.

No próximo post continuarei desenvolvendo este raciocínio e procurarei esboçar comentários sobre a relação de antagonismo entre imagem e texto.

 

Por Vinícius Lisboa
Conteúdo baseado na pesquisa de graduação em Comunicação Social, ano 2015.

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