Month: março 2016 (page 1 of 2)

Oficina online de autodeclaração de Ponto de Cultura

Está com dúvidas sobre como ser um Ponto de Cultura? Quer saber o que é autodeclaração? Participe da oficina online e tire suas dúvidas em tempo real a partir das 15h na Rede Cultura Viva.

Participe: culturaviva.gov.br

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Cultura Viva, Economia Solidária e Feminista no Quilombo do Sopapo

No dia 12 de março/2016 aconteceu, no Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, uma roda de conversa com o tema “Cultura Viva e a Economia Solidária e Feminista”. A atividade reuniu artistas dos Núcleos e Coletivos do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, parceiros, colaboradores e comunidade.

Sintonizado com as comemorações relativas ao Dia Internacional da Mulher, a roda de conversa teve como ponto de partida a própria experiência do Quilombo do Sopapo ao promover, através do Cultura Vida e da Economia Solidária e Feminista, a equidade de gênero, condição necessária para se construir uma sociedade com justiça social, igualdade e solidariedade.

Fotos: Leandro Anton (Coletivo Imagens Faladas/ CVP, fotógrafo e educador)

Fotos: Leandro Anton (Coletivo Imagens Faladas/ CVP, fotógrafo e educador)

Além dos coletivos e núcleos, marcaram presença o secretário do Ministério da Cultura Alexandre Santini (Secretaria da Cidadania e Diversidade Cultural/ SCDC Minc), a chefe da representação sul do Ministério da Cultura Margarete Morais, a coordenadora da Guayí, Helena Bonumá, o membro e colaborador da Guayí Jorjão e as integrantes do empreendimento solidário Rosa Nina.

Várias apresentações artísticas animaram a roda de conversa, com abertura feita através de uma performance de teatro de bonecos do Grupo Fuzuê Teatro de Animação, com a simpática boneca Gertrudes, a energia dos Sopapos, a feminilidade e a força musical do Coletivo Ialodê Idunn e mostra de produtos cartoneros e sabão da terra realizado pelas integrantes do Coletivo Sopapo de Mulheres, trazendo a economia solidária e feminista ao evento.

Fotos: Leandro Anton (Coletivo Imagens Faladas/ CVP, fotógrafo e educador)

Fotos: Leandro Anton (Coletivo Imagens Faladas/ CVP, fotógrafo e educador)

A atividade também faz parte da preparação rumo à 8ª Semana do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, a realizar-se no período de 09 a 16 de abril de 2016 e a todo um processo de articulação e sensibilização sobre a sede do Quilombo do Sopapo, que encontra-se em negociação com o Sintrajufe/ RS.

O evento teve a marca da luta e da resistência em prol da manutenção do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo – o principal equipamento cultural comunitário da região do Cristal e com reconhecimento nacional e internacional – sintetizado na hastag que identificará a campanha e a 8ª Semana: #QuilomboDoSopapoSempre

Leandro Silva
Grupo Fuzuê Teatro de Animação

Guia de orientações para Pontos de Cultura da Bahia dá dicas para prestação de contas

Confira aqui o Guia Completo! http://goo.gl/c08axF

A Secretaria de Cultura da Bahia (SecultBA) disponibilizou o Guia de Orientações para Pontos de Cultura. Destinado às 126 instituições contempladas pelo edital 01/2014 e convocadas para assinar Termo de Compromisso Cultural com a Secretaria, em dezembro do ano passado, o Guia é baseado na regulamentação da Leia Cultura Viva e nele já constam as modificações feitas pela legislação para execução dos projetos dos Pontos de Cultura. A intenção é possibilitar às instituições um desenvolvimento mais aprimorado das várias etapas do projeto. Confira aqui o Guia Completo!

O que são – Ponto de Cultura pode ser qualquer entidade sem fins lucrativos, grupos ou coletivos, com ou sem constituição jurídica, de natureza ou finalidade cultural, que desenvolvam e articulem atividades culturais em suas comunidades ou em redes. Suas ações atingem os mais diversos segmentos da cultura brasileira e estimulam novos arranjos econômicos.

Edital disponibiliza mais de R$ 4 milhões para projetos que promovam a igualdade racial

O Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos lança nesta segunda-feira (21/03) o “Edital de Chamada Pública nº 01/2016”, com o objetivo de implementar e fortalecer o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir).

Ao todo, serão disponibilizados R$ 4.576.713,00 para três áreas de financiamento: fortalecimento dos órgãos de promoção da igualdade racial; apoio a políticas públicas de ação afirmativa e a políticas para comunidades tradicionais. Podem participar da seleção órgãos da administração pública direta (estados, municípios e DF) e consórcios públicos com atuação voltada ao enfrentamento do racismo e à promoção da igualdade racial.

“A realização de convênios através de editais de chamada pública reforça o caráter de inclusão e participação federativa, que são valores caros ao Sinapir, além de valorizar, através da pontuação adicional, aqueles que participam deste Sistema”, ressalta o assessor de assuntos federativos da Seppir, Ernandes Macário.

Para realizar a adesão voluntária ao Sistema, estados, Distrito Federal e Municípios podem encaminhar a solicitação a qualquer tempo à Assessoria de Assuntos Federativos da Seppir, que é responsável pela validação dos pré-requisitos.

Na ocasião, o município de Aparecida de Goiânia-GO formalizará sua adesão ao Sinapir. Estarão presentes a Secretária de Cultura do município, Luciana Lopes Xavier Guimarães e a Diretora de Igualdade Racial do município, senhora Sandra Regina Martins.

Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir)

Foi instituído pelo Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010) e regulamentado em 2013, como forma de organização e de articulação do conjunto de políticas e serviços destinadas a superar as desigualdades raciais no Brasil.

Esse Sistema estabelece como requisito para a adesão, por parte dos entes federados, a existência de órgãos e conselhos voltados para a promoção da igualdade racial em âmbito local. O Sistema estabelece, ainda, modalidades de gestão (básica, intermediária e plena) cuja diferenciação está na capacidade de gestão do órgão de PIR local. Mais informações sobre o sistema aqui: http://seppir.gov.br/articulacao/sinapir

21 de março -Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial

O lançamento do edital ocorre no dia em que se celebra o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial. Neste mesmo dia, no ano de 2003, era criada pelo Governo Federal a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, a Seppir, com a finalidade de formular, coordenar e articular políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial no Brasil.

A data é emblemática, pois em todo o mundo celebra-se o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em memória do Massacre de Shaperville. Em 21 de março de 1960, 20.000 negros protestavam contra a lei do passe, que os obrigava a portar cartões de identificação, especificando os locais por onde eles podiam circular. Isso aconteceu na cidade de Joanesburgo, na África do Sul. Mesmo sendo uma manifestação pacífica, o exército atirou sobre a multidão e o saldo da violência foram 69 mortos e 186 feridos.

Fonte:  culturaviva.gov.br

TEIA Nacional de 2016 terá Economia Viva como tema central

O Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural (SCDC), promoverá, em novembro deste ano, a sexta edição do Encontro Nacional dos Pontos de Cultura, a TEIA Nacional. O evento, que dessa vez ocorrerá em Salvador (BA), irá reunir representantes de Pontos e Pontões de Cultura de todo o Brasil para a discussão do tema Economia Viva, também conhecido por economia da cultura, solidária ou colaborativa.

Entre os dias 15 e 17 de março, cerca de 40 pessoas se reuniram com representantes da SCDC, em Brasília, para a definição das principais diretrizes do evento, como o período e o local do encontro ocorrerá, o tema e um esboço preliminar da programação.

Mais de 40 pessoas, entre governo e sociedade civil, participaram da reunião de concepção da Teia Nacional 2016.
Mais de 40 pessoas, entre governo e sociedade civil, participaram da reunião de concepção da Teia Nacional 2016.

“A gente entende que quem produz cultura hoje produz valor. Os Pontos de Cultura fazem parte de uma rede enorme de microeconomia, com a produção de riqueza real, concreta e simbólica. Queremos valorizar todas as riquezas que advêm dessa produção cultural”, afirma a secretária da Cidadania e da Diversidade Cultural, Ivana Bentes, salientando a relevância do tema.

O conceito de economia da cultura abrange uma série de atividades, cuja principal matéria-prima está no repertório simbólico de territórios e povos. Integram esse grupo setores diversos, entre os quais audiovisual, artes cênicas, literatura, artesanato e música. A riqueza – real e simbólica – por eles produzida compreende não apenas bens materiais, tais como o próprio artesanato, livros e CDs, mas ainda qualquer espetáculo, seja ele de música, teatro ou dança. Há ainda um capital simbólico capaz de ser quantificado, reflexo do próprio fazer arte – algo que permite, inclusive, manutenção e perpetuação de determinada cultura.

Representantes de secretarias e vinculadas do Ministério da Cultura também participaram da reunião.
Representantes de secretarias e vinculadas do Ministério da Cultura também participaram da reunião.

Nesse contexto, Ivana destaca o caráter histórico-social da Economia Viva, que tem seus pés fincados justamente nas comunidades tradicionais. “O Brasil é um laboratório das novas economias. Por mais de 500 anos, os grupos de base comunitária sobreviveram à experiência da economia da cultura, com valores como o da colaboração, da troca e da solidariedade. Hoje, as novas economias, que agregam moedas complementares e financiamento coletivo (crowdfunding), são justamente o que há de mais sofisticado no mundo. [Ao trazer o tema para a TEIA] estamos mostrando que aquilo que há de mais básico e tradicional na nossa cultura é a saída de um modelo de sociedade que está em crise”, diz.

Além de representante de diversas secretarias e vinculadas do MinC, a reunião em Brasília contou com representantes da Secretaria Estadual de Cultura da Bahia, da Fundação Pedro Calmon e da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Previdência Social, todos parceiros da SCDC na concepção e realização do evento.

Pontos de Cultura e representantes da sociedade civil também participaram da reunião.
Pontos de Cultura e representantes da sociedade civil também participaram da reunião.

“A economia solidária pulsa no seio de todos os Pontos de Cultura. Ela está presente no cotidiano desses Pontos, seja por aqueles que formam, negociam ou adquirem algum produto. Mesmo quando não há nenhum serviço a se ofertar, eles normalmente trabalham com a prática solidária”, afirma Luciana Mota, da Fundação Pedro Calmon.

Para a diretora de Cidadania Cultural da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, Luisa Saad, o tema surge ainda como uma emergência para o atual contexto sociopolítico e econômico do Brasil. “Acho que esse tema é bem propício para o nosso contexto atual de crise, já que não se trata de uma crise econômica apenas, mas também ética e de valores. Acho que a cultura tem muito a contribuir para essa discussão, trazendo novas formas de economia na colaboração solidária para a manutenção da democracia, inclusive, por meio da participação popular pela cultura”, diz.

Mãe Isabel, responsável pela Grifê Criolê e representante do GT de Economia Solidária da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura.
Mãe Isabel, responsável pela Grifê Criolê e representante do GT de Economia Solidária da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura.

Mãe Isabel, como é conhecida Isabel Cristina Alves, também foi uma das participantes do encontro de planejamento da TEIA. Ela é criadora da Grife Criolê, empreendimento solidário de Hortolândia, no interior de São Paulo. A marca de roupas é uma das ações do Ponto de Cultura Caminhos.

“A economia solidária é uma economia transformadora. Ela provoca transformação porque é econômica, pois não deixa de pensar o dinheiro. Mas nela, a centralidade é o ser humano e não o capital. Ela é um contraponto à economia capitalista, que tem esse aspecto social. Ela trabalha justiça social, igualdade, democracia, gênero, entre outros”, afirma mãe Isabel.

Encontro Nacional dos Pontos de Cultura

As Teias Nacionais são encontros dos Pontos e Pontões de Cultura e das comunidades envolvidas com a Política Nacional de Cultura Viva de todo o país, para promover uma mostra ampla e diversificada da produção cultural dos Pontos, debater a cultura brasileira e suas expressões regionais, propor estratégias de políticas públicas culturais e analisar e avaliar o programa.

No âmbito nacional, já foram promovidas pelo Ministério da Cultura cinco edições: Venha Se Ver e Ser Visto, em São Paulo (2006); Tudo de Todos, em Belo Horizonte (2007), Iguais na diferença, em Brasília (2008); Tambores Digitais, em Fortaleza (2010), e Teia Nacional da Diversidade, em Natal (2014).

A TEIA Nacional normalmente são antecedidas por TEIAs e fóruns estaduais, que além de atuarem para o fortalecimento da Política Nacional de Cultura Viva por meio da troca de experiências e do aprimoramento das ações dos Pontos de Cultura nos estados e municípios, elegem os delegados que representarão seus territórios no evento nacional

Fonte: culturaviva.gov.br

Doci e o Olho do Tempo: história de compromisso

 

Mestra Doci abriu, em 2004, a Escola Viva Olho do Tempo. Ponto de Cultura, a entidade tem capacidade para atender 150 crianças e adolescentes, de 6 a 17 anos (Foto: Penhinha Teixeira)
A capoeira é uma das atividades realizadas no Ponto de Cultura (Foto: Divulgação)
No dia em que Maria dos Anjos Mendes Gomes abriu o contracheque e viu que finalmente tinha dinheiro para ir embora, ela foi à rodoviária de Salvador e perguntou ao despachante: “Qual o lugar mais calmo do Nordeste”? “João Pessoa. Só tem ônibus pra lá duas vezes por semana e ele vai vazio”, respondeu o homem. Ela tinha pensado em ir para o Maranhão, sabia que lá havia um projeto interessante numa universidade, mas foi ali mesmo, diante do balcão da rodoviária, que decidiu seu destino: Paraíba.
“Comprei a passagem e fui pra casa com aquela bomba-relógio dentro de mim. Minha mãe quase morreu. Meu pai perguntou: ‘É o que você quer? Se é, então vá com Deus’. E fui embora pra João Pessoa, sem conhecer ninguém”, lembra a mestra contadora de histórias, que já foi Maria, Mara, Lia, Dos Anjos, Dusa e, ultimamente, atende mais por Doci. “Coloquei num papel todos os nomes por que me chamavam e sorteei. Deu Doci”, justifica.
Doci por conta de um papelzinho, baiana por conta da cegonha e paraibana desde o dia em que entrou naquele ônibus, em 1979, a fundadora do Ponto de Cultura Escola Viva Olho do Tempo faz, há mais de uma década, um belo trabalho no Vale do Gramame, na área rural de João Pessoa. É referência para muita gente, querida e respeitada na região. Poderia, no entanto, ter construído a vida em qualquer outro lugar. “Eu tinha um compromisso comigo mesma”, conta. “Sempre soube que não morreria no lugar onde nasci.”
 
A carta
Nascida e criada na região de Alagados, em Salvador, mais velha de oito filhos, ela ainda era menina quando ouviu da mãe que “pobre não sonhava tanto”, que tinha era que trabalhar em vez de ficar lendo Castro Alves. Como não podia reclamar com a mãe, escreveu numa carta seu plano de vida. Disse para a mãe que lhe daria 15 anos, que ela fizesse o que quisesse dela nesse tempo, mas que depois iria embora, inclusive para ensinar a meninas como ela que sonhar era preciso. Escreveu, mas não entregou. Guardada dentro de um livro, a carta acabou esquecida.
Doci tinha uns 13 anos quando escreveu seu plano de vida. Logo em seguida, pediu ao pai, barbeiro, que lhe ensinasse a sua arte para que ela pudesse ganhar dinheiro e continuar com os livros. Demorou um pouco a convencê-lo (“Era um ofício masculino e eu estava ficando mocinha, ele achava que eu teria problemas”), mas conseguiu. Em casa mesmo, ela cortava cabelos dos meninos aos sábados e domingos. Durante a semana, seguia estudando. “E assim fiz universidade, passei em concurso público. Um dia, recebi meu contracheque e vi que estava rica. Aí me sentei lá no Campo Grande e veio aquela intuição: ‘Olha, agora você pode ir embora’.”
E ela comprou a passagem e foi para João Pessoa sem conhecer ninguém. Para a mãe, disse que ia estudar. Formada em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), matriculou-se num curso de educação de adultos logo que chegou à capital paraibana. Fez mestrado, mandou o título para a mãe. Com o dinheiro que havia juntado, comprou parte de uma escola, chamada Catavento.
Trabalhar com crianças era tudo o que queria, embora tivesse feito mestrado na área de educação de adultos. “Não sou boa com velhos”, ri a mestra. “Não sei lidar com velho, não, prefiro rabujada de criança. Criança é tudo de bom. E velho junto de menino é a melhor coisa que existe. Eles te puxam pra vida, te mostram o mundo. É a coisa mais linda. Minha missão é cuidar das crianças para que elas sejam pessoas melhores. Melhores para elas mesmas, porque assim o mundo ganha.”
A missão
Quando chegou a João Pessoa, Doci foi morar no bairro Castelo Branco. Depois se mudou para Bancários. E ali foi fazendo a vida, comprou casa, carro, terreno. Um dia, lá pelos 50 anos, encontrou em casa um daqueles livros baratinhos que lia quando adolescente na Bahia. “Abri o livro e lá estava a carta. Olhei pra ela, ela olhou pra mim, olhei pro céu e pensei: ‘Vixe Maria, que responsabilidade de vida’. Porque palavras ditas ao tempo são palavras que precisam ser respeitadas, né?”
Doci sabia que tinha ainda uma missão a cumprir. “Decidi vender tudo e procurar um lugar onde houvesse crianças parecidas com as da minha infância”, conta. Acabou encontrando o que buscava no Vale do Gramame, entre os municípios de Conde e João Pessoa. A área não era das melhores, cheia de buracos, mas tinha algo que era muito caro à mestra: nascentes. “Olhos d’água”, como ela diz. Como o que havia em Alagados, antes de um político convencer a população da região de que eles deviam aterrar o mar e construir suas casas em terra firme, não em palafitas.
“Foi um dos piores momentos da minha existência”, recorda Doci. “Eu me criei correndo em cima de ponte, pra cima e pra baixo, caindo muitas vezes dentro d’água. Quando aquele político resolveu que devíamos ‘entulhar’, todo o lixo da cidade de Salvador foi pra lá. (…) Foi muito violento ver matarem o olho d’água. Era ali que eu pensava na vida, me alegrava e me desesperava. Eu contava minhas histórias para aquele olho d’água, que secava e enchia junto com a maré. E ajudei a aterrar aquele lugar, que era tão vital pra mim.”
Quando encontrou os olhos d’água no Vale do Gramame, ela viu uma oportunidade de quitar seu “débito com o cosmos”. E decidiu cuidar daquelas nascentes (existem oito no terreno que comprou) para que elas pudessem alimentar muito mais gente. “Ali eu vi que tinha dois compromissos na vida: um com a natureza, outro com a natureza humana”, afirma. Ali ela viu que tinha que ensinar às pessoas que sonhar é preciso, que é algo inerente ao ser humano. E que transformação não vem de fora. “É pessoal e intransferível”, ressalta. “Como dizia minha avó, não escolhemos o lugar onde nascemos, mas podemos escolher onde morrer. E entre nascer e morrer, passa muita água. Por isso, aprenda a nadar e vá embora. É assim que você faz sua transformação.”
Os sonhos
Em torno dos olhos d’água nasceu a Escola Viva Olho do Tempo (na razão social, Congregação Holística da Paraíba), associação sem fins lucrativos que, desde 2004, desenvolve ações com os moradores de oito comunidades da região. Com capacidade para atender 150 crianças e adolescentes, de 6 a 17 anos, a escola, que é Ponto de Cultura desde 2013, procura despertar nos moradores do entorno o direito de sonhar, o sentimento de pertencimento ao seu espaço, a religação com a natureza, a valorização dos bens naturais e culturais, a busca pelo autoconhecimento.
O trabalho começou com rodas de conversas nas comunidades, onde as pessoas tinham muitas necessidades e poucos sonhos. Um grupo de mulheres, homens e crianças se reunia duas ou três vezes por mês para falar da vida, para ler, para pensar junto, “numa construção coletiva do fazer, do ter cuidado com a gente para poder cuidar do outro”, como diz a mestra.
Ali, no “início e no fim do mundo”, ao lado das áreas remanescentes de quilombos, perto da estrada por onde todos passam para ir embora, aos poucos eles foram construindo os dois prédios da escola. E aos poucos foi se construindo um projeto. “Eu me sentei ali e disse: ‘Vamos fazer o que vocês querem’. Vieram os jovens, as crianças, e eu perguntava: ‘Quer fazer o quê?’ ‘Ah, informática’ ‘E você?’ ‘Quero jogar xadrez’. E assim começamos a escola. Com esses fazeres, com esses desejos”, conta.
Muitos dos meninos que lá começaram participando das atividades logo se tornaram jovens educadores sociais. E hoje são responsáveis por formar os meninos que ali chegam. “Eles não sabiam nada das teorias e eu trabalhava com eles os pensadores, sem que eles soubessem os nomes. Cinco, seis anos depois, uma delas foi fazer uma pesquisa e chegou em Paulo Freire. E veio me perguntar: ‘Mas então o que você está fazendo aqui é Paulo Freire?’ ‘É’. E aí eles começaram a estudar Paulo Freire, depois de uns tantos anos de prática”.
Os mestres
Ação griô foi outra pedagogia que tinha tudo a ver com o que eles faziam. “Aí eu tive que lidar um pouco com os velhos”, brinca Doci, que é representante da Comissão Nacional de Griôs e Mestres. Ajudar a construir a Lei Griô nacional, segundo ela, foi uma das coisas mais importantes que fez na vida. “É nisso que acredito, no ir lá e conversar com o mestre, trazer o mestre pra cena, sem intermediários”, afirma. “Fizemos coisas lindas aqui. E sempre no quintal dos mestres, para que as crianças saibam que hoje são crianças e amanhã serão velhos. E que podem ser uns velhos melhores”. Os griôs são os guardiões da memória da história oral de um povo ou comunidade.
Hoje a escola tem um museu, uma estação digital, um projeto de ecoturismo, outro de reflorestamento, um grupo de percussão com 63 crianças e adolescentes, aulas de dança, de capoeira, e algumas atividades que variam conforme o calendário. No primeiro semestre de 2015, eles fizeram uma “gincana de pé”, para “pensar com os pés”, para trabalhar o ganhar e o perder jogando futebol, bola de gude, peteca, corda, amarelinha. Agora, é a vez do campeonato mental, de trabalhar o ler, o pensar e o escrever.
“A gente trabalha muito com a potência do sonho de cada um”, reforça a mestra. “Porque é o sonho que mantém as pernas no chão. É preciso olhar os pés e olhar o céu. Entre o céu e a terra está você, com o coração batendo. O coração está no meio, jogando o sangue para a cabeça e para os pés”.
Ednaldo Santos, por exemplo, era um menino que, nas rodas de conversa, sempre falava do sonho de ser bailarino. Quando entrou na Olho do Tempo, ele tinha 6 anos. Hoje, aos 12, é aluno da Escola do Teatro Bolshoi, em Joinville (SC). Assim como ele, há vários ali que vêm realizando seus desejos, seja aprendendo, seja ensinando. Tem menino que virou músico, professor de matemática, de física… Alguns, inclusive, têm seus empregos e atuam hoje como voluntários na instituição.
“É uma gestão realmente compartilhada”, destaca Doci. “Se a menina que varre o chão disser que o que estou dizendo não serve, não serve. Eu vou defender minha opinião, porque acho que é minha missão fazer com que ela pense e desafie alguém maior do que ela. Vou até as tripas dela darem um nó. Depois a gente vai pro beijo e pro abraço. Entrego a batuta pra ela e vou embora”.
Doci vendeu tudo o que tinha para cumprir seu compromisso com o tempo. Sorteou um nome para usar nessa vida que recomeçou aos 50 anos e diz que não reclama de nada não. “A vida é uma coisa boa. É uma dádiva maravilhosa reencontrar as pessoas, poder resolver coisas, poder dar um abraço. É assim que penso. Construí esse patrimônio maravilhoso, mas ele não me pertence. Minha família sabe que isso pertence ao tempo. E é o tempo que vai gerenciar isso quando eu subir minha ladeira”.
Leia mais:
Teresa Albuquerque
Ibercultura Viva
Fonte: www.cultura.gov.br

Reunião sobre o Fórum Estadual dos Pontos de Cultura do RS

No último final de semana, entre os dias 11 e 12 de março, o diretor da Cidadania e da Diversidade Cultural Alexandre Santini esteve em Porto Alegre pra participar de uma agenda com a Secretaria Estadual de Cultura e com a Comissão Estadual dos Pontos de Cultura. O objetivo da viagem era definir a data e parte da programação do Fórum Estadual dos Pontos de Cultura do Rio Grande do Sul preparatório ao Fórum Nacional dos Pontos de Cultura que acontece na Teia.

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Fonte: Secretaria de Cidadania e Diversidade

Declare seu Ponto de Cultura!

Até 16 de abril será divulgada nova leva de Pontos de Cultura

A Comissão de Certificação Simplificada dos Pontos e Pontões de Cultura se reuniu em Brasília entre os dias 1 e 3 de março com o objetivo de avaliar as primeiras solicitações de entidades ou coletivos culturais para a certificação. Após um processo de debate, análise e pactuação entre a comissão presente, a resolução foi a finalização da avaliação a partir de aprimoramentos na ferramenta e do contato com os grupos inscritos para resolução de diligências.

Durante as análises das propostas foi verificado pela comissão a necessidade de inclusão de critérios mais específicos para os coletivos culturais. Ficou instituído que as organizações culturais sem formalização jurídica necessitarão incluir no momento do cadastro uma Carta de Autorização de Coletivo sem Constituição Jurídica indicando o responsável pelo cadastro é também o responsável pelo coletivo, bem como a constituição dele. O documento deverá conter ao menos 5 assinaturas. Cartas de recomendação com poucas referências também serão diligenciadas para que os grupos enviem novas cartas.

Todas as modificações propostas foram pactuadas entre a comissão, registradas e sistematizadas com o objetivo de aprimorar o processo de Certificação Simplificada proposto na Lei Cultura Viva (Lei 13.018/2014).

Os grupos que enviaram pedidos de certificação entre o período de 4 de outubro de 2015 à 20 de fevereiro de 2016 receberão o retorno sobre a certificação até o dia 16 de abril. O processo de certificação será permanente, outra comissão será convocada nos próximos meses para a avaliação das propostas enviada após 20 de fevereiro.

Reunião com diretor dos grupos de dança da FURG e ICV

Na tarde desta segunda-feira (14/03) foi realizada uma reunião com o Alex Almeida, diretor/coordenador dos grupos de dança Kiriann e Gênesis para tratar de futuras ações junto à Incubadora Cultura Viva para este ano.

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