Fora do Eixo: da produção cultural à política

Para dialogar com “Novos Bárbaros – A Aventura Política do Fora do Eixo”, dissertação do amigo Rodrigo Savazoni, lançada ontem em São Paulo, publico a seguir uma reflexão feita no ano passado sobre o FdE em sua transição da produção cultural para a ação política. A partir de práticas inovadoras na produção cultural independente, ainda no início dos anos 2000, um grupo de jovens de Cuiabá-MT desenvolveu uma série impressionante de soluções para os problemas que encontravam pelo caminho, em seus shows e festivais – de maneira coletiva e em pequenos circuitos.
Essas experiências incubadas no calor escaldante da capital matogrossense foram fundamentais para atrair a atenção de outros coletivos em Estados vizinhos, no Sudeste e Norte e Sul, a partir de eventos locais de música independente que buscavam a sustentabilidade de suas ações num contexto semelhante em termos de carência de recursos. E de falta de atenção de políticas nacionais. Saber ultrapassar a pespectiva reivindicatória para a potência da articulação em rede foi crucial para um salto que não apenas beneficiou os públicos locais onde se desenvolviam tais ações, como também para gerar uma “ativação do desejo” em jovens artistas e produtores que, em distintas partes do País, também tentavam encontrar soluções para seus próprios problemas de sustentabilidade.
Passando a atuar em mais de 200 cidades em todo o Brasil, esta trajetória de sete anos se desenvolve durante um período bastante importante de nossa história recente e que vale a pena relembrar. O Brasil do início dos anos 2000 era um país que ultrapassava o coitadismo, o “complexo de vira-lata” por meio de políticas sociais e econômicas que, em todo seu curso de implementação, nos últimos dez anos, tiraram cerca de 40 milhões de brasileiros de seu lugar abaixo da linha da pobreza, atacaram problemas estruturais de sua economia, colocaram o País de maneira altiva no cenário internacional e instituiram inúmeros espaços de empoderamento de perspectivas populares sobre as políticas públicas, tais como conferências, conselhos e colegiados.
Também uma inovadora gestão na área da cultura – com Gilberto Gil e Juca Ferreira à frente do MinC – contribuiu muito para a visibilidade de iniciativas como a do Fora do Eixo, por seu caráter empoderador da juventude e pelo ambiente de criatividade e superação ativa dos problemas a partir de uma ideia de cultura ampla e valorizadora tanto da inovação quanto do popular, das identidades e do diverso. Trata-se, é preciso lembrar, de uma política que enfrentou o domínio do império da indústria cultural tradicional no Brasil e o fordismo e a homogeneização geradas pelo seu centro emissor: o eixo Rio-São Paulo.
Outro elemento importante do período, e crucial para o desenvolvimento de uma iniciativa como o FdE, foi a crescente disponibilização de acessso à internet no País e sua utilização crítica, base para uma cultura digital e colaborativa. Sem mais precisar depender do eixo para comunicar, gerar e distribuir seus bens culturais, o interior (e Cuiabá-MT, Uberlância-MG, Rio Branco-AC, Londrina-PR são símbolos inequívocos disso) passou a ter muito mais meios de se expressar. Assim, é preciso dizer que o fato de um coletivo como o FdE iniciar a se desenvolver com muita força neste período também tem como causas estas circunstâncias nas quais soube navegar e se desenvolver. Fato é que, encontrando um ambiente propício, do qual fez ótimo uso, e desenvolvendo por conta própria diversas soluções (tecnologias sociais), da precária e pontual produção cultural local do início, o FdE se constituiu em uma enorme rede de coletivos, com mais de duas mil pessoas, centenas de festivais e uma série de “aplicativos do comum” desenvolvidos.
Mas o que nos interessa neste artigo é abordar um outro elemento deste percurso: a passagem do FdE da produção cultural para a ação política e a aplicação das tecnologias sociais desenvolvidas pelo grupo no enfrentamento de questões que estão além do campo tradicionalmente visto como cultural. Com o tempo, soluções da produção cultural passaram a ser importantes também para movimentos de outras áreas, tais como a comunicação, as questões urbanas, ambientais e uma enorme pauta política de direitos humanos. O combate à homofobia e a discussão de uma política de drogas estão no centro dessas ações, mas também o movimento pelo passe livre e outros de interesse da juventude urbana e suburbanas têm o FdE na linha de frente em alguns e “na base” em outros. Mudanças estruturais da sociedade brasileira, em termos econômicos e sociais, mais que possibilitar, hoje necessitam de algumas das ferramentas desenvolvidas no âmbito desta trajetória para se consolidar.
Para citar alguns exemplos recentes, basta lembrar do papel da mídia NINJA e da Pós-TV na questão da democratização da comunicação. Também não é de se ignorar a importância de uma Universidade das Culturas (Unicult), o Partido da Cultura (Pcult) ou as moedas solidárias que o Banco FdE estimula em todo País. Em 2011, a mudança de rumos no Ministério da Cultura, com a troca do governo Lula para o de Dilma e a retração do desenvolvimento criativo da ideia de cultura do ministério tropicalista que vinha sendo implementada nos últimos oito anos (com seus erros e acertos) contribuiu muito para uma tomada de posição de diversos grupos e iniciativas independentes, entre os quais o FdE. Muito disso se deu pela reorientação do MinC em relação à política de direitos autorais, mas no fundo o problema eram os sinais de mudança de foco do cidadão para a perspectiva do artista instituído e o “trabalhador” da cultura, principalmente aquele ligado à indústria cultural do RJ e SP.: o Eixo. Além disso, diminuiu-se a intensidade das ações em áreas fundamentais para a diversidade cultural, como no Programa Cultura Viva e as políticas de Cultura Digital, por exemplo.
Mesmo com esforços para tentar um olhar sistêmico para a questão, a gestão de Ana de Hollanda acabou enfraquecida e finalmente substituída pela de Marta. No centro disso, um potente elemento atuava no jogo: o Fora do Eixo foi um dos coletivos que mais se incumbiram na tarefa de criticar a gestão. E politicamente saiu do episódio no centro da cena. A tal ponto que a primeira grande reunião da então nova ministra Marta Suplicy foi realizada sob a liderança do FdE, que inclusive formou (Pablo Capilé e Ivana Bentes) a mesa com a ministra. Reunião transmitida inteiramente pela web, com cerca de 700 pessoas constantemente conectadas. A liderança do FdE no processo refletia um resultado de um passo fundamental: entrar no eixo geográfico, simbólico e econômico do País, com a implantação da Casa Fora do Eixo São Paulo. Desde 2011, o FdE intensificara a articulação com as ações de diversas outras áreas, em dezenas de reuniões com movimentos ambientais, de trabalhadores rurais sem terra, de juventude, de partidos, de sindicatos, de estudantes, de comunicação independente e de mobilidade urbana, levando para essas articulações a perspectiva da produção cultural, num primeiro momento, e as do “Movimento Social das Culturas” num segundo.
Aos poucos, também, o coletivo virava rede e de rede inventava-se como movimento a se relacionar com os outros coletivos, redes e movimentos. Em uma intensa agenda paralela a circuitos propriamente culturais, participou ativamente de mobilizações em frentes ambientais (Rio + 20), altermundistas (Fórum Social Mundial da Tunísia e Fórum Social Temático em Porto Alegre) e políticas (Amor Sim, Russomano não, Existe Amor em SP), além das mobilizações de junho e julho no Brasil.
Identidades e diferenças
Não sem diferenças, mas também com muitas semelhanças, o Fora do Eixo e o Movimento Social das Culturas colaboram com os outros movimentos a partir de sua lógica, a da produção cultural e da cultura, gerando avanços, mas também algumas dificuldades. Ao relacionar-se seja com os movimentos tradicionais, seja com novos movimentos em rede de outras áreas, com suas visões de mundo próprias, a relação entre o FdE e esses passou – e segue passando – também por questões às vezes tensas e alguns mal-entendidos. Seria importante analisar algumas delas. Em relação ao primeiro grupo, o dos movimentos tradicionais, é preciso refltir que o contexto do Brasil dos anos 2000 mudou muito, com o já referido desenvolvimento da cultura digital e da ação cidadã em rede. Dessa forma, criou-se um ambiente novo, exigindo novas categorias de análise comparativamente aos referenciais políticos e conceituais anteriores muito embora em diversas oportunidades movimentos tradicionais e o Movimento social das culturas ajam com bastante consonância.
Outra questão é que, apesar de não ter uma pauta claramente anticapitalista, o que o FdE faz é organizar, na prática, formas mais colaborativas de economia, empoderando grupos, distribuindo recursos e praticando princípios de economia solidária, incluindo o difícil caixa coletivo e o financiamento coletivo e distribuído para o atingimento de seus objetivos. Comparativamente aos movimentos mais tradicionais, o FdE já foi tachado de um movimento de “empreendedores da cultura”, com lideranças e centralizador de suas decisões. O estigma do empreendedorismo parece vir de sua origem no campo da produção cultural e no fato de gerirem diversos empreendimentos culturais simultaneamente de norte a sul do Brasil. E a defesa que fazem é a que essa forma de atuação é bastante propícia para quem vem de uma situação de periferia, geográfica e econômica, e que precisa de recursos para ocupar um melhor espaço na sociedade brasileira.
De lá, ajudar a promover mudanças. Em relação aos novos movimentos, seria importante observarmos as contribuições dos recentes estudos do sociólogo espanhol Manuel Castells. Castells tem afirmado em suas palestras que os novos movimentos (refere-se aos modelos europeus e que estes teriam semelhanças com os de outras regiões do mundo) têm como características comuns ser descentralizados, sem lideranças, democráticos, horizontais e sem um programa delimitado. O FdE é frequentemente “acusado” por movimentos novos de “desrespeitar” algumas dessas normas, principalmente por se referenciar em uma liderança nacional: Pablo Capilé, seu principal articulador e iniciador da rede.
O tema da presença de lideranças parece decorrer da mesma origem na produção cultural, em que a maior disponibilidade e o envolvimento de alguns integrantes do coletivo recebe um natural reconhecimento do grupo, que a eles submete pontos de vista e avaliações para a ação. Salve-se, no entanto, o fato da produção coletiva dessas decisões. Também não devemos esquecer que mesmo os mais horizontais movimentos da sociedade acabam tendo lideranças referenciais ou pelo menos porta-vozes. E se não claramente colocados, de maneira velada o papel da liderança (ou daqueles que mais doam seu tempo e investem energia para o projeto) se dá em quase todos os movimentos conhecidos. Quanto à horizontalidade e democracia interna, paira mais uma zona de desconfiança do que exatamente um objetivo questionamento. Um tema, no entanto, é frequentemente causa de atrito, tanto com o primeiros quanto com o segundo tipo de movimentos: o financiamento. Quanto a relação ou não com empresas ou governos (o comum relacionando-se com o mercado ou o Estado), o FdE tem adotado desde o início, como estratégia de sustentabilidade e de expansão, organizar projetos com financiamento tanto de um quanto de outro para por em práticas suas ideias. Argumentam que esses recursos se não disputados irão para algum lugar e financiarão ações menos progressistas e avançadas.
Um fato novo
É preciso considerar que, com sua origem e atuação no campo da produção cultural, o FdE chega ao político de maneira diferente tanto da trajetória dos movimentos sociais tradicionais quanto dos novos movimentos em rede, sejam eles brasileiros, da África, da Europa, Chile ou Estados Unidos. Não nega esses dois tipos, mas se organiza com elementos que também incluem as formas como se orientam tanto os tradicionais como os novos movimentos. O certo é que, no rastro da Primavera Árabe (Tunísia, Egito, Líbia e outros), Espanha, Grécia, Inglaterra, Itália, Portugal, Estados Unidos, Turquia e diversos outros países, como o Brasil, sentem, à sua maneira, os efeitos de uma força que tem desmanchado no ar lideranças outrora sólidas, seja assentados no mercado, seja no poder político. Também os movimentos sociais tradicionais são impactados pela emergência desses novos sujeitos políticos.
Dessa maneira, a contribuição do FdE deveria ser vista como uma entre outras nesse contexto, levando-se bastante em conta as circunstâncias em que ela se desenvolve. Errado, parece, seria querer esperar no Brasil uma forma de atuação que não levasse em conta seus elementos internos, tais como a enorme força de suas periferias (geográficas, econômicas, sociais e de acesso a bens culturais), a informalidade própria das camadas populares e a necessidade de se pensar um movimento de juventude de periferia (geográfica e econômica) como este contando com as contradições próprias do País. Aplicar no Brasil fórmulas que explicam o 15-M ou outras manifestações do Norte da África e dos Estados Unidos e Europa sem a devida contextualização pode ser inadequado para entender fenômenos como as mobilizações de junho, passe-livre, e o FdE. “Sampleadas”, modificadas e colocadas em prática de acordo com realidades locais, as estratégias do Occupy e do 15-M espanhol geraram no Brasil o que o atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, considerou em seu discurso de posse, em janeiro deste ano, “um fato novo”.
No caso das eleições em SP, já sem conseguir fazer uma narrativa mobilizadora da juventude em rede, não eram sindicatos nem partidos os que estavam decidindo o futuro político da cidade de São Paulo (do Estado e talvez do Brasil), mas movimentos em rede, principalmente – e esta é outra novidade -, primeiro mobilizados pela cultura, capitaneados por coletivos como o Fora do Eixo. Se o que acontece na maioria das eleições é o prefeito agradecer ao seu partido e à sua coligação pela vitória nas urnas, o fato de Haddad abrir e fechar seu discurso com um elogio a essa mobilização de coletivos em rede traz o que pensar sober aquele e o atual momento.
No anos de 2011 e 2012, seja na Plaza del Sol, na Plaza España, em Wall Street, em frente do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na Praça Roosevelt ou sob o Viaduto do Chá, os acampamentos, autogestionários, mostraram em suas faixas e cartazes que os jovens acampam por “paz com justiça social”, por “democracia real”, “um mundo ambientalmente, economicamente e socialmente sustentável”, feito a partir da “ação cidadã em rede”, da “cultura colaborativa”, do “compartilhamento de bens culturais”, da “democratização da mídia”, da “diversidade ambiental”, da “diversidade cultural”, da “livre orientação sexual”, da “liberdade de ir e vir”, de um “controle global dos fluxos de capital volátil”, e de muitos dos outros conceitos de uma “nova cultura política”. A meu ver, o FdE aborda em seu trabalho praticamente todas essas pautas, não só na mesma direção que o restante dos movimentos como em algumas delas atualizando até mesmo as suas práticas. Vide Mídia Ninja e Pos-TV entre outros.
Sivirismos e simulacros
As experiências do Fora do Eixo deram origem aos protótipos dos quatro simulacros que hoje a rede utiliza para resolver problemas internos e externos no que se refere aos temas da Economia, da Comunicação, Política e Educação. Na 1. Economia (Banco Fora do Eixo, moedas sociais, bancas de vendas em festivais, com o Camelô 2.0, Distribuidora de produtos, caixa coletivo, Hospeda Cultura, conta Comum e um eficiente sistema de mapeamento de editais e projetos voltados para a área da cultura, 2. Comunicação (antes da já superconhecida Mídia Ninja e da Pós-tv, o FdE faz uma muito eficiente utilização das redes sociais, além de maillings específicos, cobertura colaborativa, cidadão multimídia e ondas 3. Política (Partido da Cultura, ações de hackeamento do Estado, reuniões e assembleias com inúmeros movimentos e partidos políticos dentro do espectro da esquerda, além do Movimento Social das Culturas, em que o FdE reúne, a partir da ação em cultura, um sem-número de ativistas e coletivos que cada vez mais tem interface com movimentos sociais brasilerios de todas as áreas, principalmente os relacionados aos problemas urbanos e de juventude, 4. Educação (Universidade das Culturas, desconferências, aulas abertas, oficinas, conferências, vivências, colunas, observatórios etc. Os produtos dessas quatro grandes áreas são desenvolvidos de acordo com muitos dos princípios da cultura colaborativa, decorrentes do mundo da cultura digital e do software livre aplicados por muitos grupos nos últimos anos aos campos da comunicação e da cultura.
São resultado do emprego de múltiplas fontes, com horizontalidade, de forma distribuída e com seu código-fonte disponível para sua replicabilidade. Fazem uso de licenças livres e promovem uma ética hacker, cujos resultados são repartidos entre os envolvidos de maneira a beneficiar não apenas a rede como um todo, mas seu imenso público-alvo, no qual se destaca o jovem de periferia e de cidades do interior do Brasil. São ferramentas de comunicação independente, de economia colaborativa, de educação livre e política do comum. Cada vez mais, a rede de coletivos tem, ainda, avançado no sentido de uma radicalidade própria da filosofia hacker, proveniente das redes de desenvolvedores de software livre. E possibilitará com que seus apicativos do comum gerem ainda mais interesse que hoje. É o caso do Pós-tv, da Mídia Ninja, da Universidade das Culturas, de inúmeras moedas sociais (de Patativa no Nordeste, Cubo Card, no Centro-Oeste, até o Sopapo no Sul) e do partido das culturas, todos buscando formas novas de organização, sustentabilidade e condições para a ação em suas frentes. O “sivirismo” está no núcleo desta visão de busca ativa de soluções para seus problemas e de outros coletivos. Em vez da perspectiva crítica (e muitas vezes passiva) tradicional na esquerda, o elemento do “empreendedor coletivo”, fazedor e buscador de alternativas criativas para os obstáculos colocados no dia a dia (o que é próprio da vida do produtor cultural, principalmente os que estão fora do eixo econômico) dão o tom de uma relação com essas questões que abandona, como diz Capilé a “lágrima” para a trabalhar na “potência”.
Onde o tradicional ativista com suas categorias clássicas analisa e esquadrinha dificuldades, muitas vezes intransponíveis, a perspectiva hacker vê um problema que exige uma solução inteligente, um hack. É isso que move o “se-virar” do jeito que dá e que junto à cultura da dádiva (também própria do mundo das ações coletivas) geram produtos novos replicáveis de maneira livre e gratuita. Um outro elemento da cultura hacker: do ponto de vista coletivo a geração de uma economia da abundância, comum, colaborativa e do ponto de vista individual o reconhecimento do grupo pelo esforço empreendido e pelo produto criado. Manuel Castells já observou em A Galáxia da Internet – Reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade, que foi na academia, principalmente do mundo das pesquisas em torno dos softwares nos Estados Unidos que se originaram os preceitos da ética hacker. Na verdade, no mundo da ciência pura e das ciências humanas a economia da dádiva é uma prática, assim como o trabalho colaborativo, a distribuição dos resultados e seus usos por qualquer um pesquisador, desde que citada a fonte, de maneira gratuita gerando, com suas combinações, produtos novos que por sua vez podem ser utilizados por toda a comunidade de maneira gratuita. A análise pelos pares, ou seja, pelo coletivo e pelo seguimento dessas mesmas regras, é que o institui enquanto cientista portador deste ou daquele título. De maneira informal, coletivos atuais fazem o mesmo e com o progressivo uso da tecnologia.
Gambiarra e hack, tecnologia e informalidade
O Mídia Ninja e a Pós-tv são dois dos exemplos mais bem acabados de aplicativos do comum desenvolvidos na Rede Fora do Eixo. Estes, no caso, para o exercício do jornalismo cidadão, independente, da mídia livre autogerida e referenciada também nos mesmos valores da filosofia hacker. Chama a atenção a estética provocativa dessas ferramentas desde seus próprios nomes: o Narrativas Independentes Jornalismo e Ação (N.I.N.J.A) e a Pós-tv narram-se em um ambiente pós-industrial, esteticamente orientados por uma ideia de independência tanto do ponto de vista das fontes de financiamento de mercado quanto da independência de linguagem, de programação, de coberturas de forte teor popular, principalmente se prestarmos atenção em como elas se inseriram nas coberturas das manifestações iniciadas no mês de junho e sua enorme repercussão nacional e internacional ressignificando a própria ideia de jornalismo independente, mídia alternativa ou midia-livrismo.
Mais que essas outras, o Ninja e a Pós-tv acabaram gerando um enorme interesse da sociedade brasileira e também da mídia comercial que ajudou a levá-la a uma popularidade inesperada. Isso se deu devido à sua eficiência nas coberturas, à profundidade dos debates na Pós-tv e à informalidade e criatividade dos formatos. Mas o definitivo foi o fato de ter em seu âmago princípios de cobertura colaborativa, compartilhada, em rede – seja pilotando um carrinho de supermercado com uma câmera improvisada e um cartaz de papelão com o nome da “emissora” do comum, seja em dezenas de celulares transmitindo ao vivo e online quase que com a mesma linguagem dos videogames, em que a cobertura dos embates entre polícia e manifestantes se dava de uma maneira nunca antes vista em tal intensidade e por dentro. Foi ainda a convergência “raciovital” (razão e vida) da complexa tecnologia de smartfones, sua portabilidade e eficiências crescentes com o núcleo vital da cultura brasileira a responsável não apenas pelas iniciativas aqui relatadas, mas por sua aceitação social.
Trata-se da informalidade de nossa cultura, seu bom-humor e disponibilidade para valorizar os improvisos, as gambiarras, os hacks. A valorização social do “sivirismo”, a ceitação do improviso, da ginga, do drible presentes desde sempre nas culturas que hoje formam o Brasil são fatores fundamentais para explicar o sucesso dessas e de tantas outras iniciativas que a rede produz e disponibiliza. Mas onde estava toda essa criatividade e ousadia, hoje capaz de gerar em escala social uma energia que recombina com liberdade elementos díspares e forma sínteses abertas, disjuntivas, possibilitadoras de hackeamentos no mercado e no Estado? Estava invisibilizada da mesma forma que as culturas populares, rurais, urbanas e suburbanas. O fato é que a decadência simbólica dos mediadores na cultura, no mercado, no Estado, na comunicação, na educação etc derrubou também muito do conjunto ortopédico de valores que vertebrava a sociedade brasileira em uma formalidade racional abstrata.
O poder econômico de uma racionalidade instrumental físico-matemática, calculadora e gananciosa devorava sem trégua os produtos da nossa diversidade para transformá-los pela galvanização da tela de selênio da TV e as ondas do rádio em lucro da indústria cultural do Eixo. A mídia tradicional com a força ortopédica dos estereótipos achatava (e segue achatando, só que agora com alguma possibildade de contraponto) a contribuição inestimável de todos os nossos erros, como dizia Oswald. A formalidade do Estado, do Mercado e da Mídia comercial, com seus apresentadores de terno e gravata, sua narrativa em fórmulas prontas e lugares comuns e até mesmo a ideia corporativa que subsume a liberdade de expressão do cidadão ao exercício da profissão de jornalista vem sendo descascada pelas iniciativas do comum. Assim, o uso das novas tecnologias possibilita não apenas de bagunçar “isso tudo que está aí”, como de também gerar usos informais e aplicativos do comum à margem da oficialidade e formalidade. Mais uma vez, frise-se: a educação do comum, a economia da colaboração, a política do novo sujeito em rede, a comunicação do comum, ou seja os quatro simulacros, “espaços informais” ou com formalidades próprias os quais a Rede FdE desenvolveu e segue encontrando formas de, neles, gerar aplicativos novos.
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