MINHA FILHA E O ZÉ DO OFICINA

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A imagem da Mariana, minha filha mais nova, tocando o seu Xêquerê, e a fala do Zé Celso, recém-sexagenário em 1997, assim bem como eu hoje em 2017, na entrevista à Nelson de Sá para o MAIS da Folha de São Paulo.

 

 

SÃO PAULO sempre foi uma feitoria internacional. A classe dominante de São Paulo, inclusive a sua esquerda, ainda não descobriu o Brasil. Tem uma cultura de feitoria.
Eu acho que não tem democracia nenhuma. Foi uma democracia que mandou Sócrates tomar cicuta. Eu estou convidado a tomar cicuta, só que não vou, porque eu acredito que o Brasil vai… Aquele lugar da rua Jaceguai, o Oficina, é um foco de esmagamento da secretaria de Cultura, do Ministério Público. Não é desinteresse, é rejeição explícita. Realmente o Glauber Rocha tem razão. Eles odeiam. Por exemplo, o negro não é só um ex-escravo que vai entrar no mercado de trabalho. É gerador de uma cultura nova, que está no candomblé, na música. E o Brasil é diferente.
Oswald de Andrade tinha esse modo de ser paulista. O que ele estabelece aqui, o modernismo e as consequências dele, é tão fértil quanto o candomblé na Bahia. Aliás, a Bahia, quando encontrou Oswald, deu na explosão do tropicalismo. O modernismo, a antropofagia, o teatro do Oswald são uma riqueza que São Paulo ignora e que São Paulo tem.
O Oswald foi um dos homens mais ricos de São Paulo e teve uma experiência imensa da burguesia. Em o “Rei da Vela”, ele flagra o Brasil. E eu sinto hoje que ele varou a guerra, o muro de Berlim, a queda do comunismo. Aliás, o comunismo dele já era o dos profetas, o dos índios.
No Oficina, hoje, existe uma leitura do Brasil: é teatro, mas também uma leitura original, ligada ao que chamam de homoerotismo; e o Brasil pode dar uma réplica à ordem americana, ele não está condenado a ser um sub-EUA, a chave está na cultura.

JOSÉ CELSO MARTINEZ

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