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Sobre Arte e Cultura Digital no CNPC

Texto em contribuição a debate que ocorre no Facebook.

Como atual Coordenador-Geral de Cultura Digital na Secretaria de Políticas Culturais do MinC, tenho a tarefa de responder por todo assunto que tenha ‘digital’ mencionado em sua descrição, o que vamos combinar: é muita coisa hoje em dia. Considero interessante a provocação do Rodrigo Savazoni rumo a uma reflexão sobre o lugar institucional da cultura digital no MinC hoje. Posso dizer que a reflexão de certa forma acontece, e de fato temos cultura digital acontecendo de maneira potente nas diversas áreas do MinC. Mas vale considerar a idéia da comissão de trabalho multisetorial, até para que esta reflexão seja mais rica e visível.

Sobre o tema em questão (arte e cultura digital no CNPC), este mês nossa coordenação foi convocada a colaborar no amplo e complexo processo do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC), que nesta etapa envolve a formação dos colegiados setoriais das diversas linguagens e setores, artísticos e culturais (dança, música, circo, livro e leitura, etc). Tratam-se de instâncias de participação da sociedade, as quais nós na coordenação sempre vimos como espaço para exploração de uso dos modos e espaços digitais de comunicação e colaboração, e com as quais sempre estivemos disponíveis como parceiros ativos.

À coordenação de cultura digital foi solicitado pelos colegas da Secretaria de Articulação Institucional coordenar os trabalhos do colegiado setorial de arte digital, que nesta oportunidade iria entre outras coisas eleger seus delegados e o representante no pleno do CNPC. A proposta configurava de antemão uma situação complexa para nós já que este setorial em específico, por ser o único que menciona ‘digital’ em seu nome, acaba atraíndo representantes dos variadíssimos setores da abrangente ‘cultura digital’. Por outro lado, o setorial em si constitui louvável esforço de mobilização do campo da arte digital, que sustenta demandas e prioridades consideravelmente específicas.

O campo da arte digital nacional, que se organizou e consquistou espaço de representação no Conselho Nacional de Políticas Culturais, vê a si como uma linguagem artística específica, diferenciada do campo mais amplo das artes visuais. Os membros deste grupo entendem que suas especificidades os distinguem suficientemente para requerer um foco dos setores competentes de governo, e para afirmar tal posição, alcançaram espaço de voz e voto na instância superior de participação no CNPC. O setor requer ainda que a coordenação do setorial seja operada pela Funarte, e não pela Coordenação-Geral de Cultura Digital.

Por outro lado, os diversos grupos sociais contagiados pela narrativa da ‘cultura digital brasileira’ do MinC — com seus pontos de cultura e kits multimídia; ativada pelo modo de inclusão digital pela cultura, e temperado pelo uso do creative commons e o apoio à mídia livre e ao software livre — tornam-se um campo de ativismo social que naturalmente busca representação no CNPC. O abrigo dos ativistas da cultura digital no setorial de arte digital torna-se natural até pelo ainda baixo número de interessados pelo digital como linguagem artística no Brasil. Para os grupos da cultura digital, faz todo sentido que a coordenação do setorial esteja ligada ao setor competente de cultura digital no MinC.

Na minha avaliação pessoal, acho perfeitamente justo que o campo da arte digital lute por manter o espaço de representação conquistado, e que demande da Funarte um acompanhamento qualificado do processo do colegiado setorial. Nas composições anteriores do setorial, a Funarte coordenou o processo com o apoio direto da Cultura Digital/SPC, e entendo que o resultado foi satisfatório. Por outro lado, considero que a articulação política do setorial ganha em potência ao incorporar o ativismo abrangente dos grupos organizados da Cultura Digital.

Apesar de compreender a mobilização natural pela existência de dois setoriais específicos, entendo que o desafio concreto neste momento é trabalhar uma boa sintonia no âmbito da composição atual do colegiado para responder às demandas dos campos de fato representados pelos delegados eleitos. De minha parte, foi esta a diretriz que tentei encaminhar no processo de encontro ocorrido recentemente no Rio de Janeiro. Cheguei a sugerir que o setorial estudasse a possibilidade de desenvolver dois planos setoriais articulados, um para arte e outro para cultura digital. Eu entendi que esta proposta ficou de ser avaliada pelo setorial, mas de qualquer forma, penso que o MinC deve apresentar respostas específicas a esta situação em que dois grupos se vêem como distintos em um mesmo setorial. De minha parte, me coloco à disposição para auxiliar no processo.

Aproveito a oportunidade para discordar veementemente de estranha versão publicada onde sou acusado diretamente e pessoalmente de ‘aparelhar’ e ‘manobrar’ o processo do setorial com o objetivo de ‘deslegitimar’ a linguagem artística arte digital. Aqueles que de fato acompanham as iniciativas que tocamos no MinC há mais de 10 anos sabem que estes métodos não fazem parte de nosso repertório. Tenho consciência também de que, no MinC, foi a coordenação de cultura digital que maior apoio prestou aos trabalhos do setorial de arte digital nos últimos anos. Entendo que no afã de defender pontos de vista que parecem contrários, por vezes enxergamos os cenários de maneira bem particular, mas não creio que a estratégia de ataque pessoal seja ponto de partida para a busca do entendimento, e para a delicada construção de diálogos em rede.

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