Chaplin-Tempos-Modernos-trabalhoEste sítio, seja lá como você, leitor, veio parar nele, nasceu por diversos motivos que dariam uma tese para cada um deles. No entanto, por agora, na esperança que esses motivos possam ser esclarecidos ao longo da existência do próprio sítio, inauguro-o tentando identificar a sua necessidade e, quem sabe, pela necessidade os motivos se revelem ou não aos olhos mais atentos. De saída já é possível distinguirmos necessidade e motivo como uma forma de leitura da própria realidade e, talvez, essa distinção esteja no cerne de tudo o que será publicado.

Motivos, sejam quais forem, sem uma necessidade, basicamente, é um capricho. O movimento de nossos espíritos (que quase sinonimizo como motivação) se dá, segundo Aristóteles, sob três aspectos: o motor imóvel (que é o objeto de nosso desejo), o motor móvel (aquele que se torna motor, que é o próprio desejo) e, por fim, o móvel propriamente (nosso corpo que exterioriza o movimento e perfaz nosso comportamento, atitude e ações)1 .

A Necessidade, por outro lado, refere-se àquilo que não pode ser de outra maneira, senão deixa de sê-lo. Obviamente podemos estender esse conceito por diversas outras acepções2, porém todas elas tendem a embaraçar motivação e necessidade, ou seja, tornar necessário aquilo que leva ao objeto de desejo, já que  submetem a questão ao encadeamento causal entre uma coisa e outra. Definitivamente não é esse o propósito desse sitio.  O propósito é o oposto: tornar desejável o que é necessário. E para isso é preciso buscar, investigar e se deparar com aquilo que é, sem que possa, dada as suas condições de possibilidade, ser de outra maneira. E não há outro caminho para isso que não seja a Crítica. Entendamos mais o que vem a ser Crítica; por que, afinal, esse sítio se propõe a ser uma crítica da crise (que soa quase como uma redundância) e, sobretudo por que esse sítio também irá se dedicar à própria crise na crítica? Tentarei esclarecer e responder essas questões.

Krino (κρινω) é o verbo grego que designa “separar, discernir, selecionar, escolher, julgar, aprovar, resolver” e do qual se originou os substantivos Crítica e Crise. Há um imbricamento entre o que designa um e outro que se torna digno de nota. Algo que está em estado crítico, está em crise, obviamente.  Portanto não há como fazer crítica sem estar diante de uma crise. Ou seja, criticar é ser crítico diante de algo crítico. Crise é um estado. Crítica é que nasce de um estado crítico, de uma crise.

Krisis (κρισις) é o substantivo grego que designa também  tanto Crise quanto Crítica, mostrando tanto o imbricamento quanto a extensão de seus sentidos que sofreram ao longo do tempo. Significa em grego também “separação, divisão, repartição”, ou seja, denota uma quebra, uma ruptura, uma disjunção.  Crítica enquanto ato significa discernir, separar os cernes de algo complexo para poder emitir um juízo sobre seu sentido e condições.

Há de se notar que a acepção pejorativa da palavra Crise se agregou a nossa língua a partir do vocabulário médico, sobretudo pela percepção das pessoas sobre os períodos críticos pelos quais passavam os pacientes, segundo a tradição antiga, no 7º, 14º, 21º e 28º dias da evolução de uma doença. Curiosamente nesses dias esperava-se tanto a cura quanto a morte, como momento decisivo, portanto crítico. O porquê,  ao longo do tempo, Crise perdeu o sentido também da cura e  só adquiriu o da morte talvez se devesse ao primitivismo da medicina praticada. Em outras culturas, inclusive com a mesma raiz etimológica para a palavra, como no sânscrito (Kri), Crise tem a acepção de purificação, distinção, desembaraçamento, depuração e purificação. Ou seja:

Depois de qualquer crise, seja corporal, psíquica, moral, […] o ser humano sai purificado, libertando forças para uma vida mais vigorosa e cheia de renovado sentido – Leonardo Boff 3

Enquanto disjunção podemos muito bem recorrer a ideia de que a Crise faça parte da própria realidade com a qual teríamos que lidar, justamente, de forma crítica e com o intuito de escolhermos os melhores caminhos ou os menos danosos. Se a crise é da própria constituição do tecido da realidade, se é uma ruptura de um suposto sentido que a realidade deveria ter, ou se é o tombamento da percepção de uma consciência diante do incompreensível, só saberemos mediante a Crítica.

Obviamente nem sempre um estado crítico ou uma crise requer ou tem como corolário uma crítica. E isso é um fato curioso, pois nos faz também inquirir se a crise pode não ser apenas objetiva, mas depender da percepção de um sujeito ou depender de um juízo de um sujeito para ser percebida. Podemos também entender que é possível que o próprio sujeito não queira ser crítico, ao invés disso, prefira enxergar somente aquilo que lhe dê conforto, o que nos coloca diante da má-fé. Portanto, há uma dupla dependência para a Crise: sua existência e a sua percepção. Enquanto existência, há de se considerar que ela pode ser um acontecimento, um estado transitório de mudança ou uma condição perene da realidade. Quiçá um misto dinâmico e/ou intermitente dos três. Enquanto percepção, por sua vez, há de se considerar que ela pode ser percebida onde não há, ser ignorada enquanto há ou ser empurrada para debaixo do tapete pela má-fé. Quiçá um misto dinâmico e/ou intermitente dos três. A Crítica, finalmente, será a postura pela qual o sujeito usará de discernimento para distinguir e formar juízos sobre essas seis possibilidades e suas intersecções possíveis.

Notem, no entanto, que para se formar uma postura crítica para formar juízos sobre essas seis possibilidades e suas inersecções possíveis, não basta apenas uma crítica da crise, mas sobretudo promover uma crise na crítica, ou melhor: uma crítica da crítica. Criticar nosso discernimento, diagnosticar nossa própria má-fé, denunciar os tapetes para os quais empurramos nossa sujeira para debaixo, levanta-los, sacudi-los, mostrando não só o que escondemos, mas o que afirmamos sem base para tal, bem como nossa preguiça em silenciarmos quando não temos o que dizer ou dizermos quando temos o que falar. A Crítica da Crise se dá no âmbito da existência e a Crise da Crítica se dá no âmbito da percepção.

É nesse momento, penso, que estaremos caminhando para tornar desejável o que é necessário ao invés de tornar necessário o que é desejado. Inclui-se no necessário não só aquilo que É sem que não possa ser de outra forma, mas também aquilo que pode vir a ser, dada as condições atuais, na direção de nossos desejos. Assim talvez o mundo possa ser transformado no local da construção de nossa felicidade. Teria outra função a Filosofia?

Notas:

(1): In ARISTÓTELES. Sobre a Alma. Tradução de Ana Maira Lóio. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2010, p. 128.

(2): O Necessário em geral está sempre relacionado com uma causalidade estrita em oposição ao contingente; aponta para um determinismo que vai de encontro à minha visão da realidade. Portanto, ao definir o Necessário como aquilo que não pode ser de outra maneira, não estou me referindo a uma relação causal que torne irresistível um resultado específico dado um princípio dado, mas a todo resultado dado às suas condições de possibilidade que o torna singular, “irrepetível”, fonte de crítica e transformação no tempo, justamente por ser emergente de relações complexas e de características tanto determinísticas como estocásticas. Eis o que talvez Marx (e antes dele Hegel) tenham desprezado em suas dialéticas.

(3): Leonardo Boff in AVILA, C. S. & BERLINK, M. T. Reflexões sobre crise e estabilização em Psicopatologia Fundamental. Tempo Psicanalítico, (online), v. 46, n. 2, p. 270-286. ISSN 2316-6576. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382014000200006&lng=pt&nrm=iso

Crítica da Crise – Crise na Crítica

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