As cidades, entre nós sensitivos

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A dormideira é uma planta sensitiva nativa da América tropical utilizada na medicina popular. Ela reage ao calor, vento e principalmente ao toque com agilidade, também com capacidade de memorizar e responder a estímulos de aprendizado. “Mimosa Pudica” by Hrushikesh – Own work. Licensed under CC0 via Wikimedia Commons.

Tendo como ponto de partida as cidades, caminhamos para a segunda etapa de ocupações do Laboratório de Cidades Sensitivas – LabCeus. Trata-se de uma iniciativa que promove a inovação tecnológica a partir de experiências que gerem trocas tecnoculturais em um ambiente produtivo, onde a cidade é encarada como um sistema operacional complexo e vivo, atravessado por uma variedade de técnicas e tecnologias que vão muito além do computador e internet.

Construída por uma plataforma de trabalho em rede, a pesquisa aborda conceitos que merecem ser aprofundados no contexto brasileiro. Entre estes, destacamos: a internet das coisas, um termo que designa a conectividade entre vários tipos de objetos do dia a dia; a cultura maker onde pessoas comuns podem construir, consertar, modificar e fabricar os mais diversos tipos de objetos e projetos com suas próprias mãos (como uma extensão da cultura faça-você-mesmo); e por fim, as cidades sensitivas que batizam e são a essência da iniciativa, apontam para uma reflexão subjetiva sobre o futuro do espaço urbano a partir de modelos colaborativos que potencializem as relações sociais, o pensamento e as formas com as quais a comunidade se apropria desse espaço.

Até o momento, Cidades Sensitivas foi um dos termos mais questionado entre interessados e participantes dos laboratórios. Não por uma recusa, mas explicitamente por uma necessidade de compreensão que fosse além da pergunta literal: será que uma cidade pode sentir? Facilmente o adjetivo “sensitivo” é associado às sensações sensoriais, como uma reação física (interna) do corpo ao mundo físico (externo). Quase nunca pensamos em como estas duas dimensões encontram-se entrelançadas à maneira de como sentimos este lugar ocupado por casas, prédios, tráfego, câmeras, povoado por milhares de pessoas que disputam recursos e espaços com outros seres vivos. O que a iniciativa privilegia é uma perspectiva sistêmica sobre a subjetivação individual e coletiva, ao enxergar a urbe como um organismo complexo que compreende comportamentos conectados entre os sistemas terrestre, infraestrutural e humano. É importante perceber pelos sentidos esse espaço que se ocupa nas cidades, onde a natureza reage em constante transformação à ação da tecnologia humana impulsionada por ambições, rotinas e desejos, e que altera habitats, ecossistemas e biomas inteiros, muitas vezes pondo em risco a própria sobrevivência nas cidades.

Além dessa relação emaranhada entre perceber e construir o espaço em que vivemos, devemos considerar os sistemas de controle organizados em estruturas fortemente centralizadas e hierarquizadas, a intervenção dos dispositivos de comunicação e rastreamento, e ainda uma série de tecnologias inteligentes que usam sensores e atuadores para interpretar e agir aos acontecimentos ao nosso redor,  o que determina também, nossos hábitos e rotinas. Estamos trabalhando numa realidade de 280 milhões de linhas ativas de celulares no Brasil, que nos posicionam no mundo interconectado onde não apenas as pessoas se comunicam, mas cada vez mais os objetos falam uns com os outros.  E pretende-se que tudo o que acontece na cidade pode ser registrado e controlado instantaneamente e à distância. Basta que, via satélite e com a velocidade do computador, as informações passem de um banco de dados a outro 1.

Cidades Sensitivas prioriza a realidade aumentada da raiz latina por sensus, a percepção pelos sentidos para evidenciar um Brasil agregador de culturas ancestrais, corporais e antropofágicas. Esta cultura associadas aos sistemas informacionais desenham territórios que sustentam-se numa escrita ainda pouco decodificada. “Se construir cidades significa também uma forma de escrita, os dois fenômenos – escrita e cidade – ocorrem quase que simultaneamente, impulsionados pela necessidade de memorização, medida e gestão de trabalho coletivo” 2. Toda essa escritura brasileira está atenta em traduzir outros modelos de ordem social, cultural e moral que avaliem e reinterpretem o propósito das tecnologias emergentes. Portanto, este sentido Sensitivo não conjectura diretamente com o propósito de cidades inteligentes (smart cities) e tão pouco refere-se a uma tradução para cidades sencientes (sentient cities) – estas definições respondem, reagem ou colaboram às estruturas baseadas no tecnopólio, onde há um investimento relevante de capital social, ideológico e financeiro em tecnologias digitais, particularmente produzidas no norte hemisférico.

Devido à amplitude das tecnologias que foram implementadas sob o rótulo cidade inteligente (smart city), é difícil compreender uma definição precisa sobre o termo, que conceitualmente tenta abranger três dimensões de inteligências: a humana, a coletiva e a artificial. Alguns fatores contribuem para caracterizar seu sentido, mas o principal é a aplicação de uma variada tecnologia eletrônica e digital para atender governos, mercado e cidadãos. “O conceito de ‘cidades inteligentes’ tem atraído atenção considerável no contexto de políticas de desenvolvimento urbano. A internet e as tecnologias de banda larga como habilitadoras de serviços eletrônicos tornam-se mais e mais importante para o desenvolvimento urbano, enquanto as cidades estão cada vez mais assumindo um papel crucial como motores de inovação em áreas como a saúde, inclusão, meio ambiente e negócios” 3. Entretanto, para uma cidade desenvolver essas tecnologias eventualmente atenderá normas do mercado, arriscando-se a obedecer regras do capital financeiro que potencializam territórios onde justificam-se investimentos, impondo normais globais que atropelam aspectos ambientais e culturais em função do lucro.

Já Cidades Sencientes é uma definição formulada por Mark Shepard 4 que esclarece que “senciente refere-se a habilidade de sentir ou perceber subjetivamente que não necessariamente inclue a capacidade de auto-consciência”, e que pode ser entendida como uma coleção plural de pesquisas desenvolvidas ou comissionadas por atores diversos, a partir de suas próprias motivações de como uma cidade é ou deve ser. Esta habilidade do sentir está mais próxima da forma ubíqua da computacão senciente que diz respeito à possibilidade de interconexão de computadores e objetos através de sensores que passam a se reconhecer de maneira autônoma e a trocar informações. É importante lembrar que vivemos em torno de uma multidão de objetos reais, que simulam o sistema sensorial com a finalidade de responder automaticamente nossos anseios por informação, orientação ou supervisão. “E esses objetos se apresentam diante de nós não apenas como um discurso, mas como um discurso ideológico, que nos convoca a uma forma de comportamento. E esse império dos objetos tem um papel relevante na produção desse novo homem apequenado que estamos todos ameaçados a ser” 5. Em 2011, Shepard organizou a publicação Sentient City: ubiquitous computing, architecture and the future of urban space a partir de um time de arquitetos, artistas e tecnólogos convidados a imaginar uma variedade de futuras interações tecnológicas no espaço público das cidades. O debate público em torno desta pesquisa aprofundou questões cruciais que ressaltam não apenas uma mudança filosófica sobre o tema, mas apontaram um ponto de vista prático para possíveis mudanças sociais como: “o que as novas tecnologias significam para a cultura urbana, e qual o impacto destas na maneira de como se configuram identidades e a vida conjunta na cidade?” E ainda, “se programamos ações, com diferentes formas de ocupar as cidades, como esses modos de ocupações podem recontextualizar as cidades?” – estas reflexões se aproximam à ideia do ser sensitivo que recebe e transmite impressões, prontamente afetado por agentes ou influencias exteriores, em diálogo com as questões subjetivas propostas à sociedade, voltados à uma visão sistêmica e crítica,  que se encontram, interpretam e complementam as noções de lugar, sem suprimir a percepção sensível ao olhar as cidades e extensões humanas e os biomas que as constituem.

Dessa forma, a chamada pública LabCEUs sugere a ocupação no entorno das Praças dos Esportes e da Cultura (como tecnicamente são denominados os CEUs), o que abre possibilidades para o entendimento das relações entre pessoas em seus territórios com uma vizinhança em rede conectada – onde o espaço de troca e aprendizagem se estabelece através de um manejo das tecnologias do corpo e sociais que formam a cultura local. E, nas práticas laboratoriais, promove o diálogo com as tecnologias emergentes, que vão do aprendizado móvel e mecânico, conteúdo aberto e o uso de mídias sociais, laboratórios remotos e a inteligência das coisas. Daí a imensa importância de uma colaboração onde saberes transdisciplinares se reúnam na diversidade das artes, da cultura popular, do ancestral, das ciências humanas, sociais e ecológicas.

“A questão sobre qual tipo de cidade queremos não pode ser separada dos tipos de laços sociais, relação com a natureza, padrões alimentícios e de lazer, tecnologias e valores estéticos e éticos que desejamos. O direito à cidade é muito mais do que a liberdade individual de acessar os recursos urbanos: trata-se do direito de mudar a nós mesmos ao mudar a cidade” 6, e ao invés de um direito individual, trata-se de um commons, uma vez que esta transformação depende do exercício de um poder coletivo para remodelar os processos de urbanização. E no campo de ação, estas ideias vem sendo absorvidas pelo urbanismo emergente 7 que se contrapõe ou complementa de modo auto-organizado à planificação urbanística convencional. Assim, ao propor uma participação ampla com ocupações em dez regiões do Brasil, este projeto-piloto aspira criar interfaces para além de mapeamentos, que unam pessoas centradas em torno do fazer, que agencie maneiras de se envolver, e que aponte também para a liberdade de fazer e refazer nossas cidades e a nós mesmos como um direito humano.

1. ROLNIK, Raquel. O que é cidade. São Paulo: Brasiliense, p. 23, 1995

2. Idem, p.16

3. Kroes, N.: European Commissioner for Digital agenda, The critical role of cities in making the Digital Agenda a reality. Closing speech to Global Cities Dialogue Spring Summit of Mayors Brussels, 28 May (2010)

4. Mark Shepard esteve no Brasil no simpósio arte.mov em 2010 apresentando suas ideias sobre Cidades Sencientes além de questões relacionadas à proliferação de sensores e redes informacionais e o tipo de futuro que podem trazer. Professor, artista e arquiteto, sua obra aborda envolvimentos contemporâneos de tecnologia e vida urbana.

5. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal. São Pauto: Record, 2000.

6. HARVEY, David (2008). The right to the City. Página consultada em maio de 2015: http://newleftreview.org/II/53/david-harvey-the-right-to-the-city

7.  De acordo com Tania Huertas: “O urbanismo emergente ou o planejamento de baixo para cima se diferencia do planejamento urbano por se basear na participação cidadã como ponto importante de “construção” da cidade. Poderíamos resumir dizendo que o urbanismo emergente realiza uma cartografia do papel dos cidadãos e habitantes como produtores da cidade de baixo para cima, frente à visão do planejamento urbanístico tradicional”. Disponível em: https://tamaghue.files.wordpress.com/2011/03/procesos-participativos-hacia-la-definicic3b3n-de-un-urbanismo-emergente.pdf

 

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