Foto: Alessandra Gama

Alto Alegre: o despertar de um quilombo e a força de uma simples ação

Despertar. Ao longo de quatro entrevistas para colher os relatos e apurar como se deu a ocupação LabInventário: labs e processos em patrimônio cultural, esta foi a palavra mais repetida. As vivências, as lendas, as tradições, estava tudo ali, bem demarcado na terra, acerca do corpo, no cotidiano de cada um. Foi como aplacar um estado dormente e retomar a consciência da riqueza guardada nas paisagens e nas memórias dos cidadãos de Alto Alegre, quilombo situado no município de Horizonte, no Ceará.

O projeto, selecionado pelo LabCEUs – Laboratórios de Cidades Sensitivas, foi realizado no intuito de mediar processos experimentais e sensitivos no campo do patrimônio cultural para a realização de um Inventário Participativo de Referências Culturais, junto à comunidade quilombola Alto Alegre e o Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) de Horizonte. As atividades buscaram possibilitar aos envolvidos se apropriarem e perceberem o valor de seus fazeres e saberes.

Foram dois meses de atividades no município cearense, entre junho e julho de 2015. Na primeira etapa, uma ativação no CEU reuniu jovens do município e da comunidade quilombola para sensibilizá-los para as questões da memória e do patrimônio. Os participantes foram estimulados a apresentar a história de seus objetos pessoais, relacionando-os com a vida na cidade, a história das famílias e os costumes mais marcantes.

Regitro de uma das primeiras dinâmicas do LabInventário no CEU.

Registro de uma das primeiras dinâmicas do LabInventário no CEU.

Ao longo das conversas, ficou evidente a identificação e o desejo do quilombo de desenvolver a temática, o que foi determinante pra levar a segunda etapa da ocupação para dentro da comunidade de Alto Alegre. “Era importante que a comunidade puxasse pra si e compreendesse como comunicar e como salvaguardar esse patrimônio, gerando impactos na afirmação da identidade, na percepção de valor cultural que a própria comunidade quilombola tem como constituição de cultura negra, ameaçados, sem visibilidade”, descreve Alessandra Gama, idealizadora do projeto.

Situada a aproximadamente 12 quilômetros do CEU, a comunidade quilombola foi fundada por volta de 1890 pelo Negro Cazuza, que teria chegado como escravo na Barra do Ceará, e de lá fugido para a região onde hoje existem os municípios de Horizonte e Pacajus. Conta-se que da sua resistência e união com uma índia paiacu, surgiram as famílias Agostinho, Bento e Silva, herdeiros e herdeiras da história, memória, cultura e das tradições do Negro Cazuza.

Foram cerca de 20 dias dentro do quilombo, relatados com muita clareza e precisão por Alessandra. “A vida deles está rolando e a gente chega pra compôr uma dinâmica que já existe. Foi super impactante porque a gente se deixou levar. Tem as horas da comida, da dormida, do bate papo, então o assunto do patrimônio foi sendo inserido muito dentro dessas rodas de conversa”, explica.

Tambores Afro Alegre, no Lago do Pôr do Sol.

Tambores Afro Alegre, no Lago do Pôr do Sol. Foto: Alessandra Gama

Começaram então os trabalhos com ferramentas que pudessem potencializar a comunicação patrimonial: noções de fotografia, audiovisual, blogs, cartazes, fichas catalográficas. “Começamos a utilizar todos os instrumentos disponíveis nos espaços de memória e, também, desenvolver essa percepção do que vai pra além do cotidiano e chega nas políticas públicas, que fomentam projetos e ações ligados ao patrimônio cultural. E também a noção do valor que isso tem quando as próprias comunidades tradicionais estão envolvidas no processo”, conta Gama.

Alessandra conta que viu olhos brilharem quando apresentados às modalidades das ferramentas digitais. O desejo de comunicar, armazenar suas histórias e as possibilidades de conexão a partir disso levaram ao desenvolvimento do blog da Associação dos Remanescentes de Quilombos de Alto Alegre e Adjacências (Arqua), no http://culturadigital.br/arquaquilombola. Também foi instalado um QR Code na entrada do Centro Cultural Cazuza, com redirecionamento pro blog. Segundo a bolsista do LabCEUs, a ideia agora é desenvolver QR codes que possam ser espalhados pela comunidade, com referência aos lugares históricos.

Tatiana Ramalho, estudante de Serviço Social, nascida e crescida na comunidade, foi uma das principais entusiastas de agregar o universo digital às tecnologias sociais quilombolas. Tatiana tomou conhecimento da ocupação através do CEU e ainda está irradiando as experiências. “Foi muito importante a ocupação pro amadurecimento da comunidade, foi um despertar. O LabInventário nos deu a possibilidade de conhecer coisas que nós não imaginávamos”, descreve, entusiasmada.

Tatiana é neta do Tio Sirino, 85, e da Tia Antônia, 76. Ele agricultor, ela artesã da palha, personagens que conservam-se como patrimônios vivos. De tanto ativarem a história da comunidade, estão na rota dos visitantes de Alto Alegre, que querem ouvir seus relatos sobre um tempo que não existe mais. Nesses dias de imersão no seu próprio universo, a jovem percebeu o valor da história oral, repassada de geração em geração: “Eu poderia dizer que saí da minha visão de vivenciar o todo-dia e enxergar a riqueza. O melhor presente do LabInventário foi nos despertar pros nossos elementos, pra riqueza da nossa comunidade quilombola”.

Tia Antônia e Tio Cirino, guardiões de memória de Alto Alegre.

Tia Antônia e Tio Cirino, guardiões de memória de Alto Alegre. Foto: Alessandra Gama

Transbordar – A essa altura, os cerca de 12 participantes da ocupação sentiram a necessidade de organizar momentos específicos pra envolver mais moradores de Alto Alegre naquela troca. “Com as vivências, as pessoas se sentiram sensibilizadas, convocadas a pensar para além do cotidiano, tentar essa valorização dos seus elementos, como a cestaria de palha de carnaúba, da tapioca, do mocororó, que é uma bebida fermentada do suco de caju”, analisa a pesquisadora Alessandra.

Artesanato da palha de carnaúba, feito pela Tia Antônia. Foto: Alessandra Gama

Artesanato da palha de carnaúba, feito pela Tia Antônia. Foto: Alessandra Gama

Primeiro foi organizado o Ocupe LabInventário, uma excursão por pontos que guardam mitos do lugar, como a Carnaúba Solitária, a Pedra Encantada, o Morro do Terço da Luz, com parada num antigo juazeiro, que acolhe com sombra e frescor quem está de passagem. De carroça, cavalo, bicicleta ou mesmo a pé, crianças, jovens, adultos e idosos vivenciaram o seu território e conversaram sobre as histórias locais. O cortejo, que saiu do Centro Cultural Negro Cazuza, terminou com banho, pescaria e refeição na praia do Encontro das Águas, trecho que leva o curso do Rio São Francisco a passar por dentro da comunidade.

Como atividade derradeira do projeto também foi realizado o Chá de Memórias, que reuniu uma roda de mulheres em torno de objetos, ervas e plantas. As conversas que surgiram a partir daí, compararam as formas de viver de hoje e de outrora, trazendo à tona costumes em desuso, como o fogão à lenha, o ferro de passar à carvão, as cuias de cabaça que serviam como pratos, os quengos de coco transformados em conchas e a torra da manjerioba – planta que era utilizada em substituição ou complemento ao pó do café, item caro para as gerações anteriores.

O encontro, que reuniu cerca de 30 mulheres, entre 12 e 70 anos, possibilitou a conexão entre diferentes gerações, num alvoroço típico das comadres que se reencontram. A ideia partiu de Das Dores, que se orgulha de suas raízes quilombolas e conta lembrar como sua mãe manipulava a manjeiroba pra dar à família esse chá, que fazia as vezes de café, nas refeições da família. Representante da sexta geração descendente do Negro Cazuza, Das Dores fala com gosto dos dias de LabInventário e é fácil perceber o seu encantamento pelos momentos de interação. “Foi muito bom, nos deixou muito conhecimento, muita força de vontade de continuar. Foi muito gostoso esses dias, ver as crianças, a comunidade toda envolvida nesse trabalho, no nosso resgate, da nossa cultura. A gente não queria que terminasse”, conta.

O agrado pelas vivências deu ao Chá de Memórias uma segunda edição, que acontece neste 20 de agosto. A ideia é que o encontro seja continuado, reunindo as pessoas pelo menos uma vez por mês. “Tem tantas outras coisas pra gente resgatar, as histórias, a infância dos nossos avós, as brincadeiras”, complementa Das Dores. Ela, que também coordena a Arqua, observa com animação o reflexo das ações nos jovens. “A gente pensava que as crianças não se interessavam em cuidar da nossa história. Agora dizem que quando ficarem velhas são eles quem vão assumir o resgate, cuidar da associação”, diz.

Nego do Neco, presidente da Arqua e representante da quinta geração do fundador do quilombo de Alto Alegre, também aprova. “Só não foi melhor porque foi muito rápido”, diz às gargalhadas, “Foi ótimo, desenvolveu os garotos, as meninas… Foi um despertamento (sic), foi como botar mais gasolina na fogueira”.

Planos – Alertas pro patrimônio pelo qual são responsáveis, os quilombolas agora planejam o futuro. Tatiana, que acabou sendo convidada a fazer parte do LabCEUs, dando apoio às próximas ocupações, diz que está buscando novas parcerias e deseja implantar um museu que remonte a história do quilombo. “Estamos ansiosas pra próxima etapa, temos muito pra desenvolver. Tudo que vem pra nossa comunidade é muito bem vindo, a gente precisa de pessoas que nos incentivem. E aí vem alguém que mostra uma coisa tão legal e tão simples, que já existe dentro da nossa comunidade. Essa releitura que estamos tentando fazer na comunidade nos possibilita crescer. Falo muito que florescemos através do LabInventario”, avalia a estudante.

Das Dores e Tatiana. Foto: Alessandra Gama

Das Dores e Tatiana. Foto: Alessandra Gama

Nego do Neco também fala em aproximar os homens para fazer parte de iniciativas como o Chá de Memórias, mas diz que ainda precisa buscar estratégias pra convidá-los, pois “as mulheres têm mais carisma, é mais fácil”. Mas é confiante sobre as ações e projetos que podem desenvolver no local: “É um sonho meu valorizar cada dia mais essa história do quilombo, até pra que o povo venha a se achegar mais, ter mais credibilidade na gente, pra saber que a gente não está à toa, e valorizar os nossos antepassados também”.

Nego do Nego comanda a emissora comunitária Rádio Raízes do Quilombo:

Reconhecimento – Enquanto a ocupação LabInventário cuidava da temática do patrimônio, as comunidades de Alto Alegre e Base receberam o título da Fundação Palmares, reconhecendo, oficialmente, o território como quilombola. A cerimônia ocorreu no dia 9 de julho, após anos de luta. “Foi um novo acontecimento e uma situação que a ocupação incorporou e registrou. Porque dentro desse reconhecimento das terras existe toda uma dinâmica de a comunidade se preparar para assumir, junto com o estado, a permanência do patrimônio. Porque é na terra que se cultivam as árvores, como a carnaúba, que da palha se faz o artesanato, e isso vai afetar vários níveis da presença das pessoas dentro do quilombo”, raciocina Alessandra.

Registro da cerimônia de titulação das terras de Alto Alegre e Base:

Para ler mais sobre o que rolou no LabInventário, acesse: http://culturadigital.br/labinventario.

2 comentários sobre “Alto Alegre: o despertar de um quilombo e a força de uma simples ação

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