Archive for the ‘Antropologia’ Category

O Brasil é grande, mas o mundo é pequeno – Eduardo Viveiros de Castro.

segunda-feira, julho 7th, 2008

Ótimo artigo de Eduardo Viveiros de Castro sobre a Amazônia e sua complexidade, me foi passado a pouco pela Cíntia Barenho. Lí, gostei e indico – “Ao contrário do que disse o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, a Amazônia não é uma “coleção de árvores”. Estas existem nos hortos botânicos ou nos jardins de palácios. A Amazônia é um ecossistema, uma floresta composta de árvores e uma infinidade de outras espécies vivas — inclusive seres humanos, que lá estão há pelo menos quinze mil anos.” – Viveiros de Castro. Vale muito a pena ler AQUI. Mais do tema AQUI, AQUI, AQUI,

Representantes Indígenas da Raposa Serra do Sol visitam a Europa.

sexta-feira, julho 4th, 2008

De muito acerto político a ação de divulgar a luta indígena da Raposa Serra do Sol na Europa, os(as) representantes indígenas estão reunindo-se com autoridade de governos, parlamentos e inclusive o Papa, para pressionar na solicitação: “.. que ratifique a Convenção 169 da OIT sob povos indígenas e tribais em países independentes (que trata sobre a relação entre os povos indígenas e a sua terra, recursos naturais e oportunidades de desenvolvimento) para que outros povos nativos possam solicitar apoio”. Os(as) representantes indígenas, estão também denunciado a grilagem de terras em Roraima; o relação promiscua do governo do estado de Roraima (PSDB) e 6 latifundiários “sojeiros” e os crimes praticados contra os(as) indígenas da região.

Em rápido giro na web, percebe-se comentários “preconceituosos” com relação a ação indígena. São exemplos que ridiculizam a ida dos(as) mesmos(as) por exemplo à Portugal, na solicitação apoio a convenção 169 da OIT. Vale-se dizer, com relação ao nosso “descobrir”, que a população “moderna e branca” mantém inúmeras relações “inteligentes” e periódicas com o Portugal aqui mesmo no Brasil, por exemplo, através das portuguesas Unidas, Grupo Sonae e das empresas de capital português como a VIVO, emfim uma relação muito “autônoma” na qual “nós” é que pagamos a conta.

Os indígenas da Raposa Serra do Sol, estão fazendo uma peregrinação altiva e justa, denunciam a imposição do capital e da má política em sua reserva e estado, revindicando seus direitos e novos direitos para seu povo. Solicitam apoio a outros governos e personalidades do mundo, que pressionem o STF do Brasil e fortaleçam a ação do governo federal brasileiro de demarcação contínua das terras , e de retirada dos não-índios da reserva Raposa Serra do Sol. A ação dos(as) indígenas, da visibilidade a causa não para sí, mas “para que outros povos nativos possam solicitar apoio” como já dito.

Por mês, cai na Amazônia uma área maior que o tamanho de duas Porto Alegres.

terça-feira, junho 3rd, 2008

Dados do INPE (Instituto Nacional das Pesquisas Espaciais) AQUI apontam Mato Grosso como o campeão das derrubadas (704,1 Km2 de desmatamento), em segundo lugar Roraima (284,8 Km2 de desmatamento). Não querendo supor de forma leviana, acredito ser coincidência que Mato Grosso, campeão do desmatamento, tem como governador o Rei da Soja, principal opositor a normatização do Banco Central que diz: Quem desmata e não tem licença ambiental não pega dinheiro público para a produção. A poucos dias ele foi achincalhado pela Miriam Leitão na Globo News, pois ele primeiro desconsiderava os dados do INPE, logo após usava do próprio INPE para sustentar uma melhora em seu estado, ou seja, lá no pior, já foi pior ainda. Para ele, o satélite do INPE serve apenas quando convém. No caso do segundo colocado (Roraima), bem, não precisamos ir longe, acompanhamos dia-a-dia a crise na reserva Raposa Serra do Sol, da luta dos indígenas, que antes do INPE já diziam em várias linguas: em Rorraima os fazendeiros-grilheiros são os responsáveis por esse belo segundo lugar no desmatamento nacional.

Mato Grosso: (704,1 Km2 de desmatamento) + Roraima: (284,8 Km2 de desmatamento)= 988,9 Km2 de dematamento. A cidade de Porto Alegre tem 496,827 Km2.

"Uma Estranha Realidade" Carlos Castaneda

segunda-feira, maio 5th, 2008

Post em homenagem aquele/a que como eu, liam Castaneda na adolescência.

- Sabe alguma coisa do mundo que o rodeia? — perguntou.
- Sei muitas coisas diferentes — respondi.
- Quero dizer, sente o mundo em volta de você?
- Sinto tanto do mundo em volta de mim quanto posso.
- Isso não basta. Tem de sentir tudo, senão o mundo perde o sentido.

Baixar o livro AQUI e na próxima janela, clique em Click here to start download..

Post antigo ERVA DO DIABO.

Antropólogo Eduardo Viveiros de Castro – uma Amazônia, duas entrevistas e muitos, muitos índios (as).

quinta-feira, maio 24th, 2007

Navegando na internet, encontrei duas entrevistas recentes do renomado e dedicado antropólogo brasileiro, Eduardo Viveiros de Castro . Eu de certa maneira venho me desafiando numa leitura e reflexão, ainda que de certa forma autoditada sobre os escritos de Viveiros de Castro. Incentivado por um grande professor (amigo que está longe, mas que eu incomodo por email), vim a conhecer alguns artigos e idéias desenvolvidas pelo Viveiros, assumo desde então o impacto que as mesmas tiveram para mim, essas vem sendo um alento e estímulo de vigor na antropologia em si, e na minha pessoa como humilde e cansado graduando desta.

As entrevistas citadas versam sobre a Amazônia. Para Viveiros “(…) de certa maneira, a Amazônia hoje é o centro do mundo. Sob vários aspectos, é o centro do mundo no imaginário mundial, ali é que está a maior floresta do mundo e também a maior quantidade de recursos genéticos que podem vir a constituir fonte de medicamentos e substâncias fundamentais. Verdade ou não, enfim, é o que se discute. Do ponto de vista geopolítico, é o centro do Brasil. Muitas pessoas não se dão conta de que somos caranguejos e moramos no litoral, mas que boa parte do fluxo de processos socioeconômicos está passando pela Amazônia.

A primeira entrevista é do final de junho de 2006, no boletim da Faperj, com o título “Índios vivem dilemas semelhantes aos que o Brasil enfrenta“. A segunda é da revista “E” nº 118 do SESCSP março de 2007, com o tema “A Amazônia e a urgência de legitimar as questões ambientais”.

Na primeira entrevista de 2006, Viveiros vais sustentar, fruto de suas pesquisas com os indígenas, que assim como o Brasil encontra-se frente a possibilidades de escolhas sobre modelos de desenvolvimento, de certa forma os índios também estão frente de suas escolhas acerca do desenvolvimento para suas comunidades e as farão (já fazem), e as mesmas, não serão um retorno ao primitivo, elemento esse que passa na cabeça de muitos ocidentais como o ideal para as comunidades (quem sabe um dia Povo) indígenas, os índios: “ (…) eles superaram o risco de extinção, resistiram e a maioria dos grupos sobreviventes apresentam crescimento vegetativo. E desmentiram a certeza de antropopólogos como Darcy Ribeiro, que há 20, 30 anos afirmavam que essas culturas seriam engolidas pela sociedade branca, condenadas a ser assimiladas como camponeses pobres (…)” e mais, “Hoje, constatamos algo um pouco diferente. Com a garantia de direitos à terra a partir da Constituição de 1988, várias comunidades rurais, particularmente nas regiões Nordeste e Sudeste, depois de séculos sendo obrigadas a negar, esconder ou esquecer sua ancestralidade nativa, passaram a reivindicar sua condição indígena, o território necessário ao pleno exercício dessa condição e a resgatar os valores culturais correspondentes”, explica o pesquisador e prossegue: “É um fenômeno jurídico, mas também sociocultural. Com o reconhecimento do direito sobre a terra, vários grupos índio-camponeses viram algo que podia ser usado a seu favor. Nessa redescoberta, muitos deles precisaram recriar linguagem e costumes perdidos, reinventar-se, criar um presente a partir de um passado em descontinuidade.” Nessa reivindicação da condição Indígena, mudaram os índios, mas também a antropologia (forma de percebê-los) “hoje, seja de que modo for, essas comunidades estão tendo que se haver com a cultura, a tecnologia e os valores da sociedade atual”. Conforme cita a entrevista: “Para lidar com tudo isso, Viveiros de Castro acredita na capacidade seletiva de absorção da cultura dominante pelo índio. O que leva o antropólogo a este otimismo é, mais do que seu conhecimento, a vivência com os chamados “povos da floresta”. “Eles nos vêem como idiotas hábeis: dominamos uma tecnologia avançada, mas somos ineptos e ignorantes nas relações humanas e sociais. Ou seja, eles estão mais interessados em nossa capacidade tecnológica do que em reproduzir nossas formas sociais, que em geral desprezam enormemente” e arremata: “Vejo que muitos grupos estão se armando com conhecimento para se tornarem interlocutores em pé de igualdade com os brancos (…) Eles estão tentando criar um currículo realista, uma espécie de método Paulo Freire de ensino superior, voltado para as condições da floresta. Algo como aprender biologia focando fauna e flora amazônicas, estudar economia observando a flutuação de preços dos produtos agrosustentáveis, como castanhas ou borracha, ter pajés dando aulas sobre seus rituais.” – Essa visão de tratar o conceito dos indígenas como um sistema filosófico capaz e igualmente poderoso de explicar o ponto de vista do indígena pelo próprio indígena, é bem desenvolvido por Viveiros em seu artigo/entrevista “Exceto quem não é”.

Na segunda entrevista, mais atual inclusive, Viveiros começa citando Marx – “A humanidade só coloca os problemas que pode resolver”, nela, os problema posto da crise ambiental e a própria vida do planeta serão abordados. O antropólogo transcorre sua visão sobre a percepção e uso ocidental capitalista dos recursos naturais, abordará concepções e ações acerca da tecnologia, produção e relações sociais indígenas e ocidentais, a tensão cultura x natureza participará dessa entrevista também. O tema ambiental será a questão que Viveiros vai dedicar mais intensidade, referênciando-se do seu projeto em conjunto com o Instituto Goethe da Alemanha, em desenvolvimento na Amazônia. vale a pena.

CEEE, BrasilTelecom e a cultura contemporânea

segunda-feira, maio 21st, 2007

Estou desde sexta-feira passada sem telefone e internet. Na quinta, planejava usar do fim de semana para atualizar o blog , e o meu jovem profile do Lastfm, pensava responder uma série de emails pessoais pendentes, planejava olhar, participar, deletar algumas centenas de emails de comunidades que participo, e que acumularam-se durante a semana em minha caixa. Pretendia eu nesse final de semana, trocar minha foto no Orkut (reclamaram que ela é triste), pretendia carregar novas fotos no meu Flickr.

Estava tudo planejado, durante o fim de semana eu faria as pesquisas na web que faltam para compor um artigo que estou escrevendo sobre o “realizar” político partidário em comunidades virtuais. Aproveitaria, para semear arquivos com meu Azureus P2P, no final de semana trocaria algumas idéias com amigos(as). Planejava também começar a contribuir na descrição dos(as) artistas que gosto e que ainda não tem descrição em português no Lastfm, navegaria em 30 sites que acompanho as atualizações semanalmente e guardaria um tempinho para uma deriva descompromissada entre blogs, sites, hds virtuais e comunidades.

Mesmo com todo esse planejamento organizado, nada disso foi possível realizar, conforme coloquei no início, estou sem telefone e internet. A fabulosa CEEE esteve por aqui na sexta-feira pela manhã, trocou o poste da luz e deixou os fios (do telefone) caídos e cortados, logo após, os intrépidos da BRASILTELECOM por aqui passaram, ariscaram a vida nas alturas (do poste) e nada resolveram, se bem que agora pelo menos os fios estão esticados, ainda que sem funcionalidade alguma.

Frente a antagônica situação descrita, decidi não-estressar e executei 4 movimentos: 1) Liguei uma vez a cada 24h para 10314 e protocolei educadamente minha reclamação; 2) Dei seqüência a minha leitura de Herman Hesse – O Lobo da Estepe – um ótimo livro sobre a profundidade da alma, e uma potente crítica a cultura burguesa; 3) Segui esperando com tranqüilidade a solução do problema – paciência e controle da ansiedade a séculos são virtudes necessárias; 4) Ficar sem internet despertou-me para refletir a acerca da cultura pós-revolução tecnológica da rede mundial de computadores.
O normal, é percebermos a internet como uma ferramenta de comunicação, porém, para além de “mais do mesmo” – potência da comunicação, a internet é uma produtora/consumidora da “atualização das relações sociais”, e realiza-se concretamente em potentes símbolos, narrativas e traduções, que acabam por contribuir na constituição, compreensão e realização da sociedade contemporânea conectada e mesmo não conectada. Assim como o capitalismo não exclui ninguém, a variação relacional das relações sociais, potencializada pela revolução tecnológica, também não irá excluir. A conexão simbólica não ocorre por pontos de rede, ela é relação social que varia no espaço e no tempo.
A internet, é “construtora e realizadora” de sociabilidades humana no ciberespaço e fora, penso que….. hum, chegou a Brasil Telecom, estão mexendo no poste, hummmm, hummmmm…acho que agora vai, apesar de muito complicado (plugar uma saliência em um oríficio) o técnico resolveu em 3,5 minutos. Feito, está reestabelicida minha conexão. Acho que vou executar um pouco do planejamento e amanhã termino o post…. tudo bem?
Bjos – Lucio Uberdan

Para distrair, escuta direto de Bamako – Amadou Et Mariam – Je pense a Toi

"Os brasileiros são os primeiros a ter sua própria porta de entrada para o metaverso, o maior fenômeno da internet dos últimos tempos."

quarta-feira, abril 25th, 2007


Em Second Life, basta um teclado e um mouse para realizar os desejos mais íntimos do seu coração – CNN

“São Paulo, 23 de Abril de 2007 – A KAIZEN Games e o iG acabam de anunciar o lançamento do Second Life Brasil (www.secondlifebrasil.com.br), resultado de um modelo inédito no mundo: o Brasil é o pioneiro na implantação do Second Life Global Provider, programa desenvolvido pela criadora do Second Life, Linden Lab, em parceria com a empresa nacional KAIZEN Games. Isto é, os brasileiros são os primeiros a ter sua própria porta de entrada para o metaverso, o maior fenômeno da internet dos últimos tempos.

O que antes era especulação, agora é sério, Second Life Brasil – Seja o que Deus quiser, ou melhor, seja o que o “Avatar de Deus” quiser. O second Life é um mundo virtual que já conta com 6 milhões de habitantes (residentes), o Brasil tem 200.000 residentes e espera ampliar para 2 milhões até o final do ano. O Second Life não é um jogo, as pessoas “vivem” realmente a “residência”, trabalham, estudam, ganham dinheiro (real), conhecem pessoas, namoram, transam. O Second Life será meu objeto de pesquisa de conclusão de curso, através da Antropologia pretendo viver, pensar e escrever sobre esse entendimento de “outro mundo possível”, dessa “outra vida possível” que é real e esta sendo vivida no ciberespaço – como exemplo, cito o básico Orkut e o MSN – quantos negócios, amores, ódios, ciúmes, mentiras, verdades, encontros virtuais, encontros reais, alegrias, tristezas, enfim, quanta realidade foi “potencializada” na última década através destes? pois bem, o Second Life é infinitamente mais potente do ponto de vista cultural.

Lucio Uberdan

Livro: O Homem Pós-Orgânico

segunda-feira, março 26th, 2007

Citação inicial (vermelho) do artista Stelarc no livro, “O Homem Pós-Orgânico – Corpo, Subjetividades e Tecnologias Digitais” da antropóloga Paula Sibilia. Crítica ao campo da tecnologia faústica (a citação é um exemplo faústico), Sibilia provoca nesse livro fenomenal um debate atual e preocupante. Estaríamos deixando de ser humanos, como até então nos entediamos? Estaríamos construindo uma outra natureza para dar conta desses novos seres? Qual é a batalha da tecnociência? Que poderá vir ao fim dessa batalha?

“É hora de se perguntar se um corpo bípede, que respira, com visão binocular e um cérebro de 1.400cm3 é uma forma biológica adequada. Ele não pode dar conta da quantidade, complexidade e qualidade de informação que acumulou; é ilimitado pela precisão, velocidade e poder da tecnologia e está biologicamente mal-equipado para se defrontar com seu novo ambiente. O corpo é uma estrutura nem muito eficiente, nem muito durável. Com freqüência ele funciona mal (…) Agora é momento de reprojetar os humanos, torná-los mais compatíveis com suas máquinas”Stelarc

Ps – Terminei o livro e estou fazendo um fichamento de dezenas de trechos. Em breve coloco aqui.

Bjos – Lucio Uberdan

A inconstância da Alma Selvagem

segunda-feira, março 19th, 2007

Estou convivendo com uma certa felicidade por ter sido apresentado pelo professor Edgar ao livro Inconstância da Alma Selvagem. Livro do Antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro.

Junto agora diariamente a necessária coragem para sua leitura.

Me é complexo ler a trajetória intelectual (coletânea de sua produção) que se encontra nessas 551 páginas, trajetória que envolvem “duas ou três intuições etnográficas que guiam” o pensamento re-arrumado pelo autor na busca de “dizer um pouco melhor o que já disse” anteriormente, e isso não é pouca coisa, mas, também é simples, pois Viveiros é daqueles que sabem lidar com a palavras, uma antropologia filosófica com um tanto de literatura e muita, mas muita criatividade, e ainda assim, uma etnografia incontestável.

A intensidade de ” A inconstância da Alma Selvagem – e outros ensaios de antropologia” encontra-se na idéia o qual eu aprendi com esse mesmo autor em um escrito anterior “O nativo Relativo”: “os problemas são radicalmente diversos” e o “antropólogo não sabe de antemão quais são eles”. Na antropologia de Viveiros, estamos a frente da “arte de determinar os problemas postos por cada cultura, não a de achar soluções para os problemas postos pela nossa”. Deste lado, o nativo antes de ser sujeito e objeto, “é expressão de um mundo possível”, uma “figura de Outrem”. Outrem, é “uma estrutura ou relação, a relação absoluta que determina a ocupação das posições relativas de sujeito e de objeto por personagens concretos”, outrem é o possível, afinal: “(…) ninguém nasce antropólogo, e menos ainda, por curioso que pareça, nativo”.

E mais ainda, agora já na “A inconstância da Alma Selvagem”:

” Esses conceitos são o resultado provisório de um trabalho desde sempre orientado por um desiderato maior: contribuir para uma linguagem analítica à medida (à altura) dos mundos indígenas, o que significa dizer uma linguagem analítica radicada nas linguagens que constituem sinteticamente esses mundos. Sua elaboração envolve forçosamente uma luta com os automatismos intelectuais de nossa tradição, e não menos, e pelas mesmas razões, com os paradigmas descritivos e tipológicos produzidos pela antropologia a partir de outros contextos socioculturais. O objetivo, em poucas palavras, é uma reconstituição da imaginação conceitual indígena nos termos de nossa própria imaginação. Em nossos termos, eu disse – pois não temos outros; mas, e aqui está o ponto, isso deve ser feito de um modo capaz (se tudo “der certo”) de forçar nossa imaginação, e seus termos, a emitir significações completamente outras e inauditas. A antropologia, como se diz às vezes, é uma atividade de tradução; e tradução, como se diz sempre, é traição. Sem dúvida; tudo está, porém, em saber quem se vai trair. Espero que minha escolha tenha ficado clara. Quanto a saber se a traição foi eficaz, eis aí uma questão que não me cabe responder.”

É a partir daqui, bem acompanhado, mas de certa maneira me sentindo só, com apoio em papel da caminhada de Viveiros aos mundos indígenas, caminho eu, ainda muito desajeitado, para pensar os mundos virtuais existentes no ciberespaço, esses outro(s) mundo(s) possível(eis), com suas figuras, expressões e linguagens de outrem.

Lucio Uberdan