Do Buraco ao Mundo: patrimônio cultural afro-indígena na web

O blogue Memórias Digitais inicia hoje uma série de posts sobre os projetos selecionados no edital Preservação e Acesso aos Bens do Patrimônio Afro-Brasileiro, lançado em 2013 pela secretaria de Políticas Culturais (SPC) do Ministério da Cultura (MinC) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Finalizados em dezembro de 2015, os acervos digitais resultantes das pesquisas estão disponíveis no Tainacan – solução, em versão beta, para a disponibilização online de acervos na parceria entre MinC e Universidade Federal de Goiás (UFG).

 

Até 10 de fevereiro, pesquisadores podem enviar projetos para concorrer ao edital Povos Originários do Brasil, que pretende selecionar e disponibilizar, na internet, projetos sobre acervos digitais relativos às culturas indígenas.

Este é o segundo concurso que tem como objetivo apoiar o desenvolvimento de uma política nacional para acervos digitais da cultura brasileira – resultado da parceria entre Secretaria de Políticas Culturais (SPC) do Ministério da Cultura e as universidades federais de Pernambuco (UFPE) e Goiás (UFG).

Além de incentivar a preservação e difusão da diversidade cultural brasileira na internet, as iniciativas com foco em acervos digitais contribuem ainda para fortalecer a autoestima e promover a cidadania.

Este é o caso do projeto Do Buraco ao Mundo: segredos, rituais e patrimônio de um quilombo-indígena, da comunidade de Tiririca dos Crioulos, no município de Carnaubeira da Penha, a cerca de 500 quilômetros de Recife (PE).

Do Buraco para o Mundo foi um dos 24 projetos selecionados pelo primeiro edital MinC/UFPE com foco em acervos digitais, que teve como tema Preservação e Acesso aos Bens do Patrimônio Afro-Brasileiro.

Equipe na comunidade Tiririca das Crioulas

Equipe faz registro audiovisual da comunidade Tiririca das Crioulas (PE)

Antropologia e empoderamento
Doutor em Ciências Biológicas e formado em Antropologia, Nivaldo Aureliano Neto é um dos coordenadores da ação, junto com Larissa Isidoro Serrabela, formada em Artes Visuais e com Mestrado em Antropologia, ambos pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB); e Alexandra Sá, pedagoga e professora da única escola de Tiririca das Crioulas, onde vivem 196 pessoas.

Nivaldo conta que uma das peculiaridades do projeto é que os protagonistas são as próprias pessoas do quilombo, que reúne tanto afrodescendentes quanto indígenas.

“Acreditamos que somente os próprios detentores de um patrimônio podem dizer o que realmente importa para eles, a respeito de sua vida e de sua história”, afirma o pesquisador. “A gente chega à comunidade, discute com eles em processos consultivos e deliberativos, e os incentiva a partirem para a pesquisa, conversando entre si, ouvindo os anciões”, revela.

Como resultado do trabalho, já existe um documento sonoro, com cerca de três horas de duração, com registros de manifestações locais que evidenciam um ambiente de pluralidade cultural – como cânticos de novenas, rezas de benzedeiras, rituais dedicados a divindades afro e indígenas, cantos de trabalho, pífanos, além de depoimentos.

O documento pode ser baixado gratuitamente. Além disso, foram feitos vídeos sobre o cotidiano da comunidade. No dia 27 de fevereiro será lançado a edição online Tiririca das Crioulas, com fotos, desenhos e textos.

Repercussão e continuidade
Nivaldo lembra que a partir do projeto, a população do quilombo, que sofreu décadas de marginalização, passou a se valorizar e a enxergar o potencial de suas tradições. O próprio nome do projeto sugere uma mudança de ‘estado de espírito’ em que os membros do quilombo viviam antes do início da ação e como se sentem agora, presentes na internet.

O projeto tem tido repercussão: “temos retorno de pessoas de várias partes do Brasil, que elogiam a iniciativa e buscam informações”, conta o coordenador. “Esse apoio que recebemos por meio do edital proporcionou uma revolução na vida dessas pessoas”, diz. “A gente vê os jovens com um fôlego tremendo. Daqui a alguns anos, vamos perceber os grandes impactos que esta mudança terá na localidade”, prevê Nivaldo Aureliano.

Outro resultado significativo foi a conquista, um ano após a seleção para o edital, do Prêmio Rodrigo Melo de Franco Andrade 2015, reconhecimento do Instituto Nacional do Patrimônio, Histórico e Artístico (Iphan/MinC) a projetos que divulgam ações de valorização e promoção do Patrimônio Cultural Brasileiro.

Mas o trabalho ainda não acabou: a comunidade segue investindo na preservação da sua trajetória cultural. Nivaldo acredita que é importante difundir os acervos digitais, porém acha que o país precisa ampliar a inclusão à rede mundial de computadores.

“Estamos lutando para trazer a internet a Tiririca dos Crioulos. Esse é um problema enfrentado por muitas comunidades. Não adianta divulgarmos para fora e as pessoas daqui não conseguirem acessar o próprio material”, constata.

Saiba mais sobre o projeto no blogue e ouça depoimentos e assista mais vídeos no Tainacan.

Texto: Marcelo Araujo (SPC/MinC)
Foto (destaque): Lara Erendira Andrade
Foto (matéria): Larissa Isidoro Serradela

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