Europeana: um olhar tropical – diário de bordo, parte 6

*Esse texto, integrado a uma série aqui publicada, foi escrito como resultado da minha participação na missão do Ministério da Cultura (MinC) à Holanda, financiada pelo projeto Diálogos Setoriais União Europeia-Brasil 2015-2016, com foco em acervos digitais e no Encontro Anual da Rede Europeana 2015. Esta é uma visão pessoal dos fatos e não representa o ponto de vista dos demais membros da missão nem dos parceiros institucionais envolvidos na mesma.

 

Sexta, 6 de novembro de 2015

Cecile van der Harten, chefe do Departamento de Imagem do Rijksmuseum, explicou o processo de ‘controle de qualidade’ das imagens digitalizadas, assim como suas preocupações quanto aos metadados e direitos autorais relacionados aos objetos: o controle do processo de captação das imagens é rígido e o acompanhamento é minimalista.

Conversa com van der Harten no Rijksmuseum

Conversa com van der Harten (dir.) no Rijksmuseum

Nas palavras de van der Harten, é um processo que dever ser tratado de forma “científica” com o intuito de manter a imagem o mais fiel possível ao objeto original.

Para isso, o museu faz uso de diretrizes para digitalização e preservação de imagens propostas pelo Programa Metamorfoze desenvolvido como foco em bibliotecas e arquivos, ou seja, objetos bidimensionais – e que foi adaptado para as demandas de um museu como o Rijks.

O museu possui 700 mil obras em papel, entre fotografias e desenhos, além de 300 mil outros objetos, como joalheria e mobiliário, e ainda 8 mil pinturas e esculturas: a meta é alcançar um milhão de objetos digitalizados e publicados, em Domínio Público, até 2020.

A decisão de disponibilizar suas coleções na melhor qualidade não foi tomada “do dia para a noite”, explica Joris Pekel, da equipe Europeana, em um post de 2014. “Vários pequenos passos foram tomados para chegarem onde estão agora e muitas discussões, internas e externas, foram feitas”.

A preocupação com o conteúdo que fica disponível – “peça sempre a imagem mais atual e evite usar arquivos antigos”, solicitam ao usuários finais – é permanente e há razões para tanto. Um exemplo do que significa isso surge a partir das imagens disponíveis na web do quadro “A leiteira” (Johannes Vermeer, 1660), uma das pérolas da coleção do Rijks.

Estudo promovido pela Europeana apontou a existência da chamada “síndrome da leiteira amarela”: durante uma pesquisa, foram descobertas mais de 10 mil imagens do quadro na internet, “a maioria delas pobres: reproduções amareladas como resultado de cópias em baixa qualidade”. O caso levou então o museu a apostar na melhor qualidade das imagens online como forma de combatera tal ‘síndrome’.

E os resultados? “Como as imagens vêm de fonte confiável, as versões digitais com melhor qualidade foram logo adotadas pelas plataformas de compartilhamento, como Wikipédia, fazendo com que as imagens com baixa qualidade caíssem em popularidade”, explica Joris Pekel no estudo “Democratizando o Rijksmuseum”.

Domínio Público: o quadro de Vermeer serviu como principal referência

O quadro de Vermeer foi a principal referência para a adoção do Domínio Público no acervo digital do Rijks

Era nossa última vez no museu e tínhamos mais um encontro: Chris Dijkshoom é doutorando em Ciência da Computação na Universidade Livre de Amsterdã e, em parceria com o Rijks e outras instituições, tem desenvolvido um trabalho de aproximação de experts ao acervo do museu.

Com o intuito de ampliar o conhecimento sobre assuntos presentes nas coleções, e que muitas vezes passam despercebidos pelos técnicos responsáveis pela descrições/anotações, o projeto já reuniu entusiastas de temas como flores, castelos, peixes e pássaros para contribuírem com detalhes extraídos das peças do acervo.

Esse é um processo chamado niche sourcing (algo como ‘nicho como fonte’), no qual quem é de fora do museu, e tem uma expertise reconhecida em alguma área do saber, colabora para preencher vazios e enriquecer dados de um objeto específico.

Há três anos uma equipe de pesquisadores anda envolvida com o desenvolvimento do Accurator – plataforma que permite aos usuários da web ajudarem os profissionais do museu com seus conhecimentos especializados, ampliando as informações sobre um objeto específico, assim como contribuindo para refinar o sistema de busca. “Trabalhamos com um sentimento de comunidade muito presente na sociedade”, aponta o pesquisador.

Era nossa última visita técnica ao Rijksmuseum e saíamos sem ter visitado o museu como um todo – conhecemos o labirinto do museu por dentro: escadarias, corredores e elevadores – e ao passar por uma galeria, indo de uma ala a outra, tive a certeza de voltar um dia para completar a visita…

Fotos: Cecilia van der Harten no Rijksmuseum (destaque)/Zonda Bez

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