Projeto resgata autobiografia de ex-escravo no Brasil

O blogue Memórias Digitais dá sequência a uma série de posts sobre os projetos selecionados no edital Preservação e Acesso aos Bens do Patrimônio Afro-Brasileiro, lançado em 2013 pela secretaria de Políticas Culturais (SPC) do Ministério da Cultura (MinC) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Finalizados em dezembro de 2015, os acervos digitais resultantes das pesquisas estão disponíveis no Tainacan – solução, em versão beta, para a disponibilização online de acervos da parceria entre MinC e Universidade Federal de Goiás (UFG).

 

Desde 2013, o Ministério da Cultura (MinC) apoia o desenvolvimento de projetos de acervos digitais com foco na cultura brasileira.

O primeiro edital lançado nesta linha teve como tema Preservação e Acesso aos Bens do Patrimônio Afro-Brasileiro e entre os 24 selecionados estava o  projeto “Memória e história de uma trajetória diaspórica: M. G. Baquaqua – escravidão e abolicionismo no Brasil e América do Norte”.

Desenho retrata Baquaqua com o reverendo William Jude (1850)

Desenho retrata Baquaqua com o reverendo W. Judd (1850) – Arte: Tatiane Lima

Coordenado pelo historiador brasileiro Bruno Véras, pesquisador no The Harriet Tubman Institute e doutorando em História da África na York University (Canadá), sob a supervisão do Dr. Paul Lovejoy, o trabalho resultou na tradução da única autobiografia, até agora conhecida, escrita por um africano escravizado trazido ao Brasil, e a sua divulgação por meio de um projeto de História Digital.

Mahommah Gardo Baquaqua nasceu na década de 1820, em uma família letrada de prósperos comerciantes de Djougou, onde hoje é o norte do Benim. Foi desembarcado ilegalmente e escravizado no Brasil em 1845, passando por Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Informações acessíveis
“Em 1847, ele fugiu para os Estados Unidos junto com um carregamento de café. A partir de então tornou-se um abolicionista”, explica Véras. “Em 1854 ele publica, na cidade de Detroit, seu relato autobiográfico”.

Os últimos registros até então encontrados sobre Baquaqua datam de 1857. Nestas últimas cartas enviadas de Liverpool (Inglaterra), ele ainda demonstra vontade de voltar à África Ocidental.

De acordo com o historiador, um dos propósitos é manter a página web do projeto como um repositório de documentos, dados, textos informativos e vídeos de entrevistas com especialistas, fazendo do personagem um fio condutor para contar um pouco da história da diáspora africana nas Américas e, especialmente, no Brasil.

“Queremos também que a página na internet seja uma ferramenta para o trabalho de professores e professoras em salas de aula do ensino básico”, aposta Véras. Um livro ilustrado de atividades e imagens para colorir estão sendo produzidos no intuito de criar materiais didáticos e informativos sobre Baquaqua.

Para este ano, o projeto prevê a criação de uma série de mapas interativos digitais sobre a trajetória do personagem, além de viagens para Lagos, Kano e Katsina (Nigéria), em busca de novos documentos e evidências históricas.

Memória e digitalização
Para Verás, a digitalização e a disponibilização na internet de acervos são maneiras eficientes de preservação e democratização do conhecimento – necessárias para a valorização do patrimônio cultural brasileiro de matriz africana.

“A história de Baquaqua possibilita a desconstrução de uma série de estereótipos sobre os africanos no Brasil e sua descendência. Tal qual todos os outros africanos e africanas trazidos ao país, Baquaqua antes de ser um escravo era um complexo de ideias, crenças, vontades, esperanças, personalidade e contradições”, afirma o pesquisador.

“O trabalho a partir de sua biografia permite enxergar a pessoa. Essa percepção possibilita a construção de empatias e identificações por parte do público e a efetiva desconstrução de ideias racistas incrustadas em nossa história”, concluiu Bruno Véras.

Texto: Vinicius Mansur (Ascom/MinC)
Imagens: Projeto Baquaqua/divulgação

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