Malaquias é patrimônio gigante do Carnaval de Pernambuco

Dona Zenaide Brandão, 75 anos de frevo, sempre gostou de Carnaval. No de 1964, enquanto dançava, distraída, embalada pela banda do Clube Mixto Seu Malaquias, ouviu do músico José Ramos de Oliveira (Zezinho de Malaquias) que aquela seria a última vez em que dançaria sozinha. Dali em diante, teria sempre um parceiro de folia. Dito e feito! Foi na rua, em pleno carnaval, que começou uma história de amor e uma paixão pela brincadeira que têm ajudado a manter de pé uma das agremiações mais premiadas do estado e um dos mais novos Patrimônios Vivos de Pernambuco.

Boneco Seu Malaquias é um dos novos patrimônios vivos de Pernambuco (Jaqueline Maia)

Fundado oficialmente no ano de 1954, em Carpina, por Antônio Ramos de Oliveira – pai do músico galanteador -, o Clube de Boneco Seu Malaquias resiste atualmente no Alto dos Coqueiros, no bairro de Beberibe, zona norte do Recife. O atual presidente é o filho de Zenaide e Zezinho (falecido em 2001), o produtor e militante cultural Cláudio Brandão de Oliveira, ou simplesmente, Xôxo Malaquias.

“Meu avô, o Seu Maracujá, resolveu criar o boneco ainda nos anos 1940 para brincar com um senhor chamado Malaquias, que era bem gordo e alto, amigo da família”, conta Xôxo, sobre o surgimento do folguedo. Já vestindo o branco e o vermelho de Xangô, o boneco mudou-se para o bairro de Águas Compridas, Olinda, em 1959, ocupando uma parte do hoje referenciado território da Nação Xambá. “Na década de 1970, Mãe Biu presenteou o boneco com o medalhão que ele usa até hoje, um amuleto que tem trazido muita sorte e proteção espiritual contra brigas e injustiças no nosso caminho”, revela o presidente do Clube. Antes de chegar ao Recife, Seu Malaquias residiu ainda, de 1966 a 1972, em Vitória de Santo Antão, atuando como garoto propaganda das aguardentes Pitú e Recordações de 1940.

Jan Ribeiro

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Xôxo Brandão, Jefferson Diniz e Gabriel Nogueira

Pesando cerca de 40 quilos e produzido em fibra sintética, o boneco Seu Malaquias acumula mais de trinta títulos de campeão do Carnaval do Recife. Em 2017, vai desfilar contando a história da chita e também lembrando os 100 anos do comunicador Chacrinha. Na segunda-feira de Carnaval, os cerca de 250 componentes da agremiação terão que observar quesitos como evolução, adereços e fantasias. Gabriel Nogueira, 21 anos, é o carnavalesco do Clube: “A gente queria falar sobre costumes do homem do campo, então, na pesquisa, nos deparamos com a história deste tecido, que não surgiu no Brasil, mas que ganhou aqui as estampas coloridas, uma referência à nossa fauna e à nossa flora”, comenta.

Quem também não pode errar é Jefferson da Silva Diniz, o ‘Testa’, bonequeiro há quinze anos. “Eu saía desde criança no Clube, mas na verdade eu tinha medo do boneco. Com o tempo eu fui gostando, pensando até em carregar ele, então, um dia o antigo bonequeiro faltou e Xôxo perguntou se eu aguentava, já nesse primeiro ano a gente foi campeão”, sorri ao lembrar.

Jan Ribeiro

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Dona Zenaide, 75 anos de frevo

Nos bastidores, mas sempre fazendo as amarrações necessárias para preservar a história e a unidade em torno do brinquedo, Dona Zenaide comemora o novo momento do Clube. “Herdamos o Malaquias do meu sogro e, antes do meu marido morrer, ele também pediu que a gente não deixasse a tradição acabar. Deixo nada, eu amo isso aqui, minha diversão é essa, passa São João, Natal, fico alegre mesmo é quando chega o Carnaval”.

O reconhecimento

Para além da consagração como brinquedo tradicional carnavalesco, Xôxo acredita que a conquista do título de Patrimônio Vivo de Pernambuco é ainda um reconhecimento ao trabalho de salvaguarda do frevo que o Clube vem desenvolvendo por todo o país. “Mais de duas mil pessoas, de diversas cidades, já participaram de algum momento de formação do nosso projeto ‘Frevo da Humanidade’, que circula com incentivo da Funarte”, conta o dirigente.

Desde 2011, a agremiação também integra o Comitê de Salvaguarda do Frevo, interagindo com outros grupos pernambucanos em prol da valorização deste patrimônio. Segundo Xôxo, “o próximo passo é construir o Centro Cultural Malaquias, um espaço de preservação do nosso acervo, da nossa história e também de difusão do frevo como patrimônio imaterial”, planeja.

Reprodução

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Malaquias e brincantes na antiga sede em Olinda. Em destaque, o fundador do brinquedo, Antônio Ramos de Oliveira.

Atualmente, a sede do Clube funciona na casa de Dona Zenaide, onde não há espaço para ensaios, por exemplo. As alegorias ficam guardadas em um galpão no bairro Jardim Brasil. “Nossos ensaios com a orquestra acontecem ainda em Aguazinha, perto da Xambá, em Olinda, é onde a gente consegue reunir passistas e a orquestra, tocando o repertório que será apresentado na avenida”.

Ao longo do desfile anual, a orquestra do Maestro Luiz executa em torno de onze frevos. No programa, composições dos maestros Bartolomeu, Edson, Nunes, Duda e um frevo canção de Claudionor Germano.

Além da luta pela aquisição de uma sede própria, Xôxo também está engajado em conquistar cada vez mais espaço e visibilidade para os grupos da cultura popular pernambucana. “Precisamos intervir para que haja ainda mais investimento dos governos, valorização da sociedade e até interesse da imprensa a esses grupos. Somos a história do Carnaval. Meu pai, por exemplo, e o dono do ‘Cachorro do Homem do Miúdo’ emprestaram vinte estandartes pro primeiro arrastão do Galo da Madrugada, no início do bloco. São muitas histórias que precisam ser contadas e valorizadas”, aponta.


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O Clube Carnavalesco Mixto Seu Malaquias funciona na Avenida Anibal Benévolo, 1124 – Alto dos Coqueiros/Beberibe – Recife. A visitação pode ser agendada pelos telefones: (81) 3451.2448 / (81) 98634.6842

Tiago Montenegro / Ascom Secult Pernambuco

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