Exposição ‘Vitrocerâmicos’ resgata a relação entre a indústria e a arte em Pernambuco

Ao longo de três meses, o projeto Vitrocerâmicos: Pesquisa Artística levou seis artistas pernambucanos para conhecer os processos industriais de uma fábrica de vitrocerâmicas do estado. A proposta era realizar um estreitamento da indústria com a arte, na busca de um novo suporte artístico e de uma reflexão sobre essa relação cada vez mais distante. O resultado desta pesquisa será apresentado nesta quarta-feira (15), às 18h, quando acontece a abertura de uma exposição coletiva no Museu Murillo La Greca, envolvendo os trabalhos desenvolvidos ao longo desta imersão. A entrada é gratuita.

Vitrocerâmicos: Pesquisa Artística conta com incentivo do Governo do Estado de Pernambuco, através do Funcultura. Segundo Hassan Santos, idealizador do projeto, a ideia nasceu quando ele trabalhava na Fábrica Lilou, empresa especializada na impressão digital personalizada em materiais cerâmicos e vítreos.  “Eu era designer da fábrica e o responsável pelo desenho de produtos e experimentações. De repente me vi cercado de maquinários e profissionais de alta qualidade, especializados na mistura de vidro e cerâmica, com corantes, e os donos de lá sempre foram muito abertos à experimentação. Foi quando tive a ideia de iniciar estes estudos”, explica.

Hassan Santos/DivulgaçãoHassan Santos/Divulgação

Inicialmente, Hassan Santos desenvolveu pesquisas que foram expostas na Casa Cor e no Murillo La Greca, em 2013. “A partir dai outras pessoas se interessaram pelo trabalho e foi isso que determinou a escolha dos outros cinco artistas para participarem do projeto: a aproximação e curiosidade de saber o que eu estava fazendo”. Além do idealizador do projeto, a exposição conta com obras de Chico Ludermir, João Lin, Daaniel Araújo, Nando Zevê e Joelson Gomes.

“Nós, como artistas, devemos viver nosso tempo e fazer uso das novas tecnologias e dos novos suportes. E esse projeto apresenta um novo resultado neste sentido”, opina Hasson Santos. Em março, os seis artistas convidados participarão de uma roda de conversa, no Museu Murillo La Greca, sobre os processos criativos, os materiais, as técnicas possíveis e os desafios do processo criativo que durou três meses. No mesmo dia, o catálogo da exposição será lançado e distribuído ao público. Outras informações sobre o projeto estão disponíveis na internet.

Bangiophyceae – Peça de azulejo com impressão digital e vitrocerâmico 30x30cm por João Lin – divulgação – Hassan Santos (1)Bangiophyceae - Peça de azulejo com impressão digital e vitrocerâmico 30x30cm por João Lin - divulgação - Hassan Santos (1)
Durante os 90 dias de imersão, os artistas se encontraram semanalmente na Fábrica Lilou e aprenderam a misturar o vidro com a cerâmica, além de adicionar corantes ou imprimir imagens no azulejo.  As matérias primas utilizadas nas pesquisas e peças, como pó de vidro, azulejo cru, corantes, forminhas e caixas de queima, também estarão à vista do público.

Hassan Santos, por exemplo, apresentará o trabalho Esquemas, em que expõe gráficos feitos em superfícies de vitrocerâmico e outras peças abstratas. “Passamos por um momento político complicado no ano passado, e isso me inspirou a estudar sobre economia e dominação econômica. A partir daí desenvolvi um gráfico que representa nosso PIB, nossa dívida pública e nosso IDH, em peças diferentes. O trabalho conta também com um poema impresso numa placa sobre a relação piramidal que a gente vive, de exploração”.

Hassan Santos/Divulgação

Hassan Santos/Divulgação

Gráfico em Trânsito – Peça em vitrocerâmico com impressão digital 70x70cm por Hassan Santos

Também presente na exposição, o estudo Revestimentos, do fotógrafo e artista Chico Ludermir, dialoga com outras pesquisas realizadas pelo autor nos últimos anos. “Em 2013, por exemplo, também no Murillo La Greca e durante o Spa das Artes, eu já pesquisava essas interferências entre a cidade e o corpo com a pesquisa Entre Prédios e Entre Corpos. Em 2014, desenvolvi o trabalho De Mãos Dadas, na época do Ocupe Estelita, no qual eu também já pensava em como imprimir as texturas do corpo no concreto”.

De acordo com Chico Ludermir, Revestimentos foi a possiblidade de continuar a pesquisa e usar a fotografia como ponto de partida. “Essa relação mútua, entre o corpo e a cidade é algo que me interessa bastante. Para esse estudo, fotografei com uma lente macro as texturas humanas, o que me permitiu chegar muito perto dos detalhes da pele e das nuances que não são vistas a olho nu. Essas texturas foram passadas para o azulejo, que foi o suporte que eu escolhi, numa tentativa de tatuar esse tecido vivo num suporte que comumente é usado para resistir nas paradas e faixadas”, revela.

Chico Ludemir/DivulgaçãoChico Ludemir/Divulgação

A exposição ainda apresenta trabalhos do ilustrador João Lin, na série Arranhados, que levou ao forno materiais descartados na fábrica por erros de produção, sobrescrevendo, nos pedaços de azulejos quebrados, desenhos de corações feitos à mão livre. Já o artista Joelson Gomes, referência de produção artística em cerâmica, é autor de uma série feita a partir da aplicação da imagem de um pássaro em peças de azulejos revestidas com uma fina camada de vidro.

Daaniel Araújo produziu pinturas de temas cotidianos impressas em azulejos. Uma delas é 0075m grande painel com a imagem de um tubarão e as placas de aviso com a frase “Área sujeita a ataque dos Barão”, em que parodia a especulação imobiliária na cidade do Recife. Completando a exposição, o ilustrador, grafiteiro e tatuador Nando Zevê apresenta a sua série de tons vivos intitulada Peixe fora d’água, que já foi explorada em adesivos, lambe-lambes e grafites pelo Recife.

Serviço
Abertura da exposição Vitrocerâmicos: Pesquisa artística
Quarta-feira (15 de fevereiro), às 18h
Museu Murillo La Greca (Rua Leonardo Bezerra Cavalcante, 366, Parnamirim)
Gratuito

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