“O pife me fez conhecer não o mundo todo, mas uma boa parte”

Mestre João do Pife mostra, passo a passo, o processo de produção do pífano (pife), da escolha da taboca à finalização (Fotos: Janine Moraes/Ascom MinC)

“Eu faço pife. Toco pife. Vendo pife. Como o dinheiro do pife. Depois de véio, vou ficar pifado”. João Alfredo Marques dos Santos, mais conhecido como Mestre João do Pife, canta sua vida, gargalha batendo palmas e emenda: “Ficou véio, pifou. Então eu tô pifado!”. Ele amplia o significado da palavra pifado: dos seus 74 anos, quase 60 são tocando o instrumento, “e pra mais de 50 de fabrico”.

“Tudo começa pelo fogo”, sussurra pausadamente, como quem compartilha um segredo valioso. Seu João está a postos, mais uma manhã, para seguir com sua labuta: fazer, ensinar a fazer, vender e tocar o instrumento que ele carrega no nome e por meio do qual tem escrito sua história.

Começou aos quinze anos de idade, em Riacho das Almas, na época, uma vila a 18 quilômetros de Caruaru (PE). Ouvia e observava o pai, que só deixava olhar mesmo, porque achava perigoso os meninos mexerem com ferro quente. Na fabricação do pífano, usa-se o ferro quente para fazer os furos que tornarão a taboca (tipo de bambu nativo do Brasil) instrumento.

O João menino respeitava e olhava repetidamente, até completar a maioridade e ser autorizado pelo pai a manusear ferro, serra, lixa, taboca, faca. Depois, com o objetivo de fazer a banda de Pífanos Dois Irmãos ganhar o mundo, pegou estrada rumo a Caruaru. Por lá, tocando pífano em uma novena, apaixonou-se, casou-se, formou família, criou oito filhos e vende seus pífanos na famosa feira da cidade até hoje.

“Do meu pife, eu gosto com fome ou com bucho cheio”

Seu João relata dias difíceis, de não vender nenhum pife na feira. “Teve uma época que a coisa apertou, não teve visita de turista. Não apurei nada”. A esposa, com medo de que passassem fome, pediu a ele que arrumasse um emprego. Mas na cabeça de seu João não havia outra profissão possível.

“Eu fiquei tão triste, tão tristinho. Como que eu vou arrumar um emprego e abandonar minha profissão? O pife mora no meu coração. Essa tradição me corre na veia. É história que vem de pai pra filho. Fiquei triste dela dizer aquilo, mas segui a minha luta. Lá vai, lá vai, lá vai…”. E seu João percorreu nada menos que 26 países espalhando seu conhecimento de Mestre do Saber Popular.

“Quando ela falou que não dava pra viver do pife, eu não baixei a cabeça. Papai do céu, me ajude! Tá meio fraco agora, mas vai melhorar. Ela hoje é uma moradora de Caruaru. Tem a casa com o dinheiro das tabocas, do pife”, conta, orgulhoso. “Depois eu comprei outra casa, dei a um filho. Depois arranjei mais outra. Tudo do pife. Tudo de viagem. Do véim viajando por aí afora”.

“Pode um matuto sair lá de Riacho das Alma, fabricar pife, vender e ter o privilégio, sem ser um homem estudado, de viajar de avião, dormir em hotel 5 estrelas, ganhar cachê, trazer o dinheiro pra família, se manter em Caruaru e conhecer o mundo, não o mundo todo, mas uma parte boa do mundo?”

Alemanha, Inglaterra, Suíça, França, Itália, Portugal, Canadá, Estados Unidos… São muitos os lugares, no Brasil e no mundo, onde Mestre João do Pife já tocou e ministrou oficinas para professores, universitários e flautistas. Nos Estados Unidos, ele conta que chegou e tinha uma turma grande. “Tudo estudado na partitura! E eles só começavam a tocar quando eu mandava!”. Mestre João já foi maestro nos Estados Unidos e conta essa história morrendo de rir. Foram dez semanas por lá, que renderam o dinheiro da primeira casa.

Tá muito caro!

Na feira vendendo pife: “esse aqui é tanto. A escala menor, a escala maior. Aí chega o cabra e fala: ‘tá muito caro! Pife não tem o que fazer, não é?’. Não sabe a mão de obra pra fazer um pífano. Começar. Fazer o fogo. Botar o carvão. Acender o fogo. Esquentar os ferros. Serrar a taboca. Fazer a canaleta raspando. Depois vem afinação. Comprar o material. Trazer pra cá. Aí o freguês vai e diz que não tem trabalho nenhum”.

Mestre João se aborrece toda vez que alguém desmerece o trabalho dele, mas adora quando vê uma pessoa valorizando um pife, “dizendo que é bom, que é gostoso, que o trabalho é bom”. “isso me engrandece. Eu fico com o meu coração desse tamanho assim. Meu coração cresce. Fica bem. Eu me sinto feliz”.

O amor e a responsabilidade com sua profissão são tamanhos que cada pífano tem de passar pelo bico dele, como gosta de dizer. Acabado o pífano, ele o aproxima do nariz e diz: Muito cheiroso. É o cheiro do fogo!

Prêmio Culturas Populares

A qualidade do trabalho de Mestre João do Pife fez com que ele fosse um dos vencedores, em 2007, do Prêmio Culturas Populares, promovido pelo Ministério da Cultura (MinC). Nova edição do prêmio foi lançada neste ano, com inscrições abertas até 28 de julho. Serão premiadas, com R$ 10 mil, 500 iniciativas de mestres, grupos/comunidades e instituições privadas que mantém vivo o patrimônio da cultura popular do país. O objetivo do prêmio, que homenageia o mestre paraibano Leandro Gomes de Barros, é estimular uma das nossas maiores riquezas, a cultura feita pelo povo do Brasil.

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