MinC comemora o Dia do Samba, símbolo da identidade nacional

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“O Choro e o Samba me deram muito, me trouxeram oportunidades que eu não teria se não tivesse entrado em contato com a música desde muito cedo”, Nilze Carvallho, cantora e compositora (Foto: Acervo Pessoal)

Oriundo de tradições africanas e símbolo da identidade nacional, o País comemora o Dia Nacional do Samba neste sábado (2). A data foi criada pelo vereador baiano Luís Monteiro da Costa e sancionada pelo então prefeito de Salvador, Virgildásio Senna, no ano de 1963. A ideia foi homenagear a primeira visita a Salvador do compositor mineiro Ary Barroso, em 1940. Antes mesmo de chegar às terras soteropolitanas, Ary era querido da população local por conta da canção Na Baixa do Sapateiro, que cita já no título o famoso bairro da capital baiana. Gravada em 1938 por Carmen Miranda, a música alcançou sucesso internacional, ficando conhecida no exterior como Bahia. Inicialmente restrita a Salvador, a data passou a ser comemorada em todo o Brasil, com o passar dos anos.

Este ano, o Brasil ainda festeja os 101 anos do registro da música Pelo Telefone, efetuado em novembro de 1916 pela Fundação Biblioteca Nacional, vinculada ao Ministério da Cultura. Composta por Donga, em parceria com um grupo de músicos que participava de uma das festas na casa de Tia Ciata – baiana, mãe de santo e quituteira, cuja memória representa um marco na história samba-, a música foi sucesso no carnaval carioca de 1917.

Foi na casa de Tia Ciata que nasceram as primeiras rodas de samba de onde surgiram nomes como Hilário Jovino Ferreira, Donga, Sinhô e João da Baiana. A casa era localizada na região da Praça Onze, conhecida como Pequena África, que tornou-se ponto de encontro de personagens do samba, sendo palco dos primeiros desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro.

Nos últimos cem anos o samba ganhou nuances, variações sonoras como o samba carnavalesco, samba-canção, samba de partido-alto, samba de morro, samba-choro, samba de breque, samba exaltação, samba de gafieira, entre muitos outros. Nesse período a evolução pôde ser observada não apenas em termos sonoros, mas também sob o viés social: o gênero tornou-se símbolo de resistência da cultura negra e de reafirmação da mulher, desempenhando até mesmo um papel de emancipação social.

Pioneirismo feminino

Embora nascido na casa de uma mulher (Tia Ciata), demorou pelo menos 50 anos para que o trabalho de mulheres no samba tivesse visibilidade. As sambistas Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara foram as pioneiras em um universo predominantemente masculino. Homenageada da Ordem do Mérito Cultural (2016) – promovida pelo Ministério da Cultura -, Dona Ivone Lara foi a primeira mulher a participar da ala de compositores de uma escola de samba, abrindo caminho para novas compositoras e cantoras de samba que desenvolveram uma carreira de sucesso nas décadas após 1960. Entre elas, se destacam Leci Brandão, Beth Carvalho, Clara Nunes, Alcione, entre outras.

Para a cantora e compositora Nilze Carvallho, o papel das mulheres no período da criação do samba tinha outra função. “Tia Ciata, por exemplo, assegurava toda a estrutura para a realização das rodas de samba, mas não detinha o protagonismo dessas rodas. Ao longo dos anos o cenário mudou muito. O meio ainda é muito masculino, mas as mulheres hoje têm suas próprias rodas”, comemorou.

Nilze reconhece ainda que o samba tem papel fundamental na transformação da realidade de milhares de pessoas que tiveram, como ela, uma infância carente de recursos, ou vivem em áreas onde há limitações de acesso à direitos culturais e sociais. “O Choro e o Samba me deram muito, me trouxeram oportunidades que eu não teria se não tivesse entrado em contato com a música desde muito cedo”, completa.

Samba e Bossa Nova

O samba transformou não apenas as regiões mais carentes desde o período pós-abolicionista, como também o ambiente da classe média carioca. Surgida nos anos 50, também no Rio de Janeiro, a Bossa Nova foi um dos gêneros musicais que mais difundiu o samba ao redor mundo. Carlinhos Lyra, um dos criadores do gênero, afirma que sempre houve uma influência mútua entre os compositores e cantores de samba, com os jovens músicos bossa-novistas, como ele: João Gilberto, Tom Jobim, Nara Leão, entre outros.

Lyra conta que o samba teve muita importância para ele, desde o princípio de sua carreira. Quando atuava como diretor musical do Centro Popular de Cultura da UNE, por exemplo, conheceu Cartola durante a produção de um filme do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, no morro da Mangueira. “Naquele momento que tive acesso aos sambas não apenas do Cartola como também os de Nelson Cavaquinho e Zé Keti, fiquei fascinado com o talento desses três e os convidei para ir na minha casa mostrar suas músicas. Durante um bom tempo, essas reuniões aconteceram semanalmente. Eu gravava os sambas deles e eles ouviam minhas músicas”, lembra.

Os encontros promovidos por Lyra renderam, de imediato, a antológica gravação da música Diz que fui por aí, composta por Zé Keti e Hortêncio Rocha, na voz de Nara Leão. “Fiz uma harmonia mais sofisticada e Nara topou gravar o LP que colocou o samba Diz que fui por aí nas paradas de sucesso e fez com que esses compositores ficassem conhecidos. Com a repercussão, resolvemos montar o show Opinião – marco na história da música popular”, destacou.

Embora o papel de difusor do samba tenha sido atribuído depois ao movimento da Bossa Nova, Lyra ressalta que como gênero musical, o samba sempre foi natural para todos os bossa-novistas porque “é a música que reflete o nosso país e que todos a ouviam desde sempre”.

“O samba Bossa Nova é nada mais do que um samba tocado de maneira sofisticada. Só mudamos a maneira de tocá-lo para que ele chegasse em ambientes de classe média onde as referências eram o jazz e a música clássica. E assim, o samba acabou difundido no mundo através da Bossa Nova. Então, o samba é parte muito importante da minha carreira não só como compositor mas também como difusor dessa cultura”, declarou.

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