Jornal Negritude

Negritude é um boletim informativo do Movimento Negro Unificado de Pernambuco, instituição fundada no início da década de 1980, na cidade de Recife. O jornal tinha como função promover as atividades e o pensamento dessa entidade. Sua primeira edição foi publicada no ano de 1986, em papel jornal, com 4 páginas, impresso em offset e com tiragem de 1000 exemplares, distribuídos gratuitamente (QUEIROZ, 2011, p. 540) em reuniões e eventos do MNU-PE.

Sobre o MNU-PE pode-se afirmar que ele foi fundado com a intenção de se diferenciar de outras entidades de cultura negra já existentes, como grupos de dança, teatro, etc., pois defendia uma atuação de caráter mais político. O MNU-PE procurou, desde sua fundação, combater o mito da “democracia racial”, que promove a ideia de que devido às particularidades do povo brasileiro, não existem no país diferenças raciais. Notabilizou-se pela luta pela transformação do dia 20 de novembro, dia da morte de Zumbi, em Dia Nacional da Consciência Negra, combatendo assim, imagem de passividade do negro, representada pelo dia 13 de maio. O jornal publicou diversas matérias sobre esta temática.

No que se refere ao jornal, de acordo com Martha Rosa Figueira Queiroz, o Negritude era um propagador do pensamento do MNU-PE, em meio ao (quase) total silenciamento da voz negra na imprensa local (QUEIROZ, 2011, p. 544). Por ser um jornal gratuito o MNU-PE era responsável por todos os gastos, apesar do apoio de alguns colaboradores.

No ano de 1986 foi publicada a primeira edição do Negritude, e a única do ano. Em 1987 foram organizados três números, em 1988 foi publicada uma edição especial, em 1993 mais uma publicação e três números em 1994.

As matérias, primeiramente, eram elaboradas e assinadas pela Comissão de Imprensa, que representava o MNU. Entretanto, o projeto editorial do Negritude sofreu alterações e a partir do número 6, entre outras mudanças, as matérias passaram a ser assinadas pelos autores. Segundo Queiroz, o expediente passou a ter os seguintes créditos: Coordenação de Comunicação: Alzenide Simões (Leu); Redação: além da coordenadora de Comunicação, outros militantes: Mônica Oliveira, Vilma de Deus, José Alves Dias (Zeca); Marcelo Pedrosa, Martha Rosa. A diagramação e composição alternavam, porém a militante do MNU, Vilma de Deus, cumpriu essas funções em alguns números (QUEIROZ, 2011, p. 541).

O primeiro número do jornal Negritude compreende os meses de outubro e novembro de 1986. Sua primeira matéria de capa, como mostra o título “o negro e a constituinte”, chama atenção para as eleições do dia 15 de novembro de 1986, onde a população elegeria os representantes responsáveis pela elaboração da Constituição, fazendo uma crítica à exclusão dos negros, índios e pobres das instâncias legislativas (QUEIROZ, 2011, p. 541), ainda nessa matéria o MNU-PE apoia a candidatura avulsa, para que possam ser eleitos representantes que “veem a comunidade negra não só como elemento capaz de elegê-los, mas que tem interesses próprios a serem defendidos e que precisam de leis para punir severamente a prática racista existente em nosso país” (NEGRITUDE, nº1, ano I, out/nov/1986). Segundo Queiroz, que na época era colaboradora desse jornal teria sido exatamente nessas matérias que o Negritude se destacava, pois procurava discutir e noticiar a situação social do negro no país.

  • Negritude – Ano I/N°01 – Outubro e Novembro de 1986.

Essa primeira edição traz no Editorial os problemas que dificultaram a publicação desse boletim, além de desmascarar o mito de democracia racial apresentando dados importantes acerca da realidade do negro no país, dessa forma a Comissão afirma que é importante lutar para que possa existir uma verdadeira democracia racial.

Na segunda página do jornal temos uma matéria, “Debatendo problemas e avançando na luta”, sobre o VI Encontro de Negros do Norte e Nordeste, que ocorreu em maio de 1986, na cidade de Aracaju em Sergipe. É apontado que foi discutido nesse encontro o tema “Ancestralidade, participação e voz da comunidade negra”, além de debates sobre o Negro e o Poder, partidos políticos e a comunidade negra, Mulher Negra, entre outros temas. Ainda é divulgada a cidade do VII Encontro ­- Belém- PA.

Esse número conta com a editoria ‘eventos’, que traz informações sobre os ensaios do Afoxé Alafin Oyó, em Olinda, acerca das reuniões do MNU-PE na Livraria Síntese e sobre eventos realizados como o VII Congresso Nacional do Movimento Negro Unificado.

Essa publicação também traz avisos sobre cursos profissionalizantes, a inscrição, a instituição que está oferecendo e os requisitos.

A terceira página é preenchida por uma entrevista com os militantes: Marcos e Adelaide, do MNU-PE. Eles abordam questões sobre a posição do MNU com relação a problemas sociais e políticos da comunidade negra, a respeito da fundação da seção Pernambuco, relação com partidos políticos, sobre a ideia de que os militantes do MNU-PE são intelectuais e burgueses e não deixam de mencionar a constituinte e a participação dos brancos no MNU.

Outra matéria relevante é sobre a situação da Mulher Negra, destacando o abandono social no pós-abolição, as dificuldades encontradas no mercado de trabalho e os problemas de saúde, como o aborto. Além disto, é apontada a educação racista promovida pelos textos escolares, que deixam as mulheres negras fora das lutas históricas. Por último, a matéria pede uma reflexão sobre o verdadeiro papel da mulher negra no processo de libertação de todo o povo negro (NEGRITUDE, nº1, ano I, out/nov/1986).

Para finalizar a edição, o Negritude traz uma matéria sobre a História do Movimento Negro Unificado, que surgiu em 1978, e uma seção chamada “Dicas para leituras” que recomenda obras como: Tornar-se Negro, da psicóloga Neusa Santos, Raízes do Protesto Negro, ensaio do sociólogo Clovis Moura sobre a situação do negro, A Cor Púrpura, de Alice Walker, entre outras obras.

N°1:


Referências:

  • NEGRITUDE, nº1, ano I, out/nov/1986.
  • QUEIROZ, M. R. F. 2011. Do Angola ao Djumbay: imprensa negra recifense. Cad. Pesq. Cdhis v. 24 n.2.

Jornal Angola

“Angola” nosso Jornal de Umbanda e Candomblé é um informativo do Centro de Cultura Afro- Brasileira – CCAB. O jornal tinha como finalidade ser um órgão de divulgação de informações sobre encontros, festas e sobre a cultura para a comunidade afro-brasileira de Pernambuco. Trazendo, principalmente, informações acerca do universo religioso, como fica exposto em seu subtítulo. Entrou em circulação em maio de 1981, em Recife. Cada exemplar do Angola contém quatro páginas, impressas em offset em preto e branco, com exceção da edição especial de 2007 que saiu em formato A3 e com duas páginas, as demais tinham formato A4. (QUEIROZ, 2011, p. 536).

De acordo com a historiadora Martha Rosa Figueira Queiroz, Doutora em História pela Universidade de Brasília, em sua primeira edição o jornal era identificado da seguinte maneira “Angola. Um boletim da Boca do Povo Serviços Ltda – Praça Coronel João Lapa, 94 – Varadouro Olinda – CEP 53.000 Conselho Editorial: Edvaldo Ramos e Jorge Morais.” Entretanto, ocorreram mudanças cinco anos após esse número e a frase “Boca do Povo Serviços Ltda” deixou de ser citada e o endereço do jornal foi alterado para a Rua do Riachuelo, 105 – 10º andar – sala 1017, onde ficava o escritório de um dos fundadores do jornal o advogado Edvaldo Ramos.

Sobre Edvaldo Ramos e Jorge Morais, fundadores do Angola, pode-se afirmar que eram homens ativos na luta contra o preconceito racial, envolvidos não só com a produção desse jornal como em outras colunas, como a publicada no Diário da Noite chamada “Umbanda e Movimento Negro” anterior à criação do Angola. Eles ainda atuavam em outras áreas, por exemplo, Ramos foi presidente da União das Escolas de Samba de Pernambuco e presidente do Centro de Cultura Afro-Brasileira (CCAB). Morais atuou como o primeiro presidente do Afoxé Alafin Oyó, que surgiu no ano de 1986, além de ter sido militante do Movimento Negro do Recife e do Movimento Negro Unificado/PE.

Sobre o Centro de Cultura Afro-Brasileira é possível afirmar que foi fundado no final da década de 1930, de acordo com Maria Auxiliadora da Silva em 1936 (SILVA, 1994, p. 64) e segundo Fátima Aparecida da Silva em 1937 (SILVA, 2008, p. 11), após o fechamento da Frente Negra Pernambucana, criada em 1934. Teve como um de seus fundadores José Vicente Lima, militante que lutou contra o preconceito e pela projeção social do negro. Em uma entrevista publicada na primeira edição do informativo Djumbay, em março de 1982, Lima afirma, aos 81 anos, que a instituição “surgiu para elaborar estudos e pesquisas sobre a cultura afro-brasileira” (DJUMBAY, nº1, mar/1982). Promovendo a valorização e divulgação da cultura negra.

Serão disponibilizados nessa postagem dois exemplares do Angola o n°4, de abril de 1989, e o n°7 de julho do mesmo ano.

  • Angola Nº4 de 1989.

A edição nº4 traz em seu Editorial informações sobre a história do Angola e de suas dificuldades financeiras. Escrito por Jorge Morais, o Editorial conta que após a publicação do n°3 do jornal houve uma dificuldade imensa para a produção do número seguinte, em razão da falta de dinheiro e reafirma a importância do apoio da comunidade na luta contra o preconceito. Os Editoriais de edições anteriores não contavam com a assinatura de um autor, apenas com um título “AXÈ”.

Nesta edição o jornal traz informações acerca do I Encontro Estadual da Tradição dos Orixás, que se realizaria no período de 4 a 6 de agosto de 1989, no Centro de Convenções de Recife. Segundo a matéria, esse encontro teria um valor incalculável para a comunidade religiosa do estado de Pernambuco. O Angola continuou em outras edições trazendo informações obre o evento.

Este número contou com uma entrevista com o Babalawo Ajibola Badiw da Nigéria sobre, “As várias faces de Exu – Mensageiro dos Orixás, guardião dos limites.” Essa entrevista tem como escopo desconstruir a imagem deturpada de Exu, estabelecida há muitos anos em razão do sincretismo com a doutrina católica e da falta de conhecimento de alguns babalorixás. Não é informado na edição o entrevistador.

Ainda sobre o nº4, ele conta também com uma seção denominada Adarrum, que traz notícias sobre as festividades e rituais das casas de culto dos orixás de Pernambuco.

Esta edição também traz um artigo, denominado “81 anos de um culto brasileiro como surgiu a Umbanda em nosso país”, da pesquisadora Thereza Saidenberg sobre o surgimento da Umbanda no Brasil em 1908. Esse artigo teve a sua continuação no n°5 do Angola.

A edição traz ainda um agradecimento à vereadora Geralda Farias pelo apoio a comunidade.

Nº4:

 

  • Angola Nº7 de 1989.

O nº7 do jornal Angola traz em seu Editorial, assinado por Jorge Morais, uma reflexão acerca da dificuldade em promover a cultura negra no Brasil, quando se pretende ir além da questão folclórica, ele ainda enfatiza a necessidade de mostrar a comunidade negra sua força política.

Nesse exemplar é divulgada a programação do I Encontro Estadual da Tradição dos Orixás, além de informações básicas como o local de inscrição, preço da inscrição, transporte e alojamento dos participantes e sobre o certificado oferecido ao final do encontro.

Essa edição traz um artigo sobre Oxum, Orixá feminino, que segundo a matéria é bastante cultuado e conhecido no Brasil, sendo associado à maternidade. Não é informado o autor da matéria.

A coluna Adarrum também está presente trazendo informações acerca de eventos religiosos.

Vale ressaltar as propagandas presentes nesse exemplar, em sua maioria de artigos religiosos como “Casa Preto Velho Ltda”, “A Brasileira” tecidos e complementos, que segundo o anúncio é a preferida dos umbandistas e “Livro 7” livros de umbanda e candomblé.

N°7:

 


Referências:

  • DJUMBAY, nº1, mar/1982.
  • QUEIROZ, M. R. F. 2011. Do Angola ao Djumbay: imprensa negra recifense. Cad. Pesq. Cdhis v. 24 n.2.
  • SILVA, M. A. G. da. 1994. Encontros e desencontros de um movimento negro. Fundação Cultural Palmares. Brasília.
  • SILVA, F. A. 2008. A Frente Negra Pernambucana e sua proposta de educação para a população negra na ótica de um dos seus fundadores: José Vicente Rodrigues Lima – Década de 1930. Tese de Doutorado em Educação. Universidade Federal do Ceará, Fortaleza.