Boletim Informativo Êlemi

Êlemi é um boletim informativo do Grupo Cultural Os Negões, entidade formada no dia 11 de fevereiro de 1982, na cidade de Salvador na Bahia. O boletim foi lançado três anos após a fundação do grupo e procurou debater temas ligados a cultura e tradições negras. Pode-se afirmar que o boletim tinha uma periodicidade irregular, pois entre a primeira e segunda edição ocorreu o intervalo de mais de 12 meses, além do mais só são conhecidos três exemplares, que podem ser encontrados na sede do grupo na Rua Avenida Vasco da Gama, em Salvador (SALOMÃO, 2012, p.70). Cada edição possui 6 páginas e o formato duplo ofício. Em sua primeira edição o Êlemi não conta com nenhum tipo de anúncio. É interessante mencionar que o termo Êlemi significa “frutos da vida”, esse nome busca apontar que o grupo pretende representar na comunidade mais uma “semente informativa, comunitária e participativa” (ÊLEMI, Nº01, p.1, 1985).

O Grupo Cultural Os Negões surgiu na porta da Catedral Basílica de Salvador, às 20 horas do dia 11 de fevereiro de 1982, com o objetivo de promover uma reunião, de 15 negros amigos, para determinar como o grupo iria se encontrar no carnaval. Esse grupo já participava de vários eventos em Salvador e cidades vizinhas, mas na época do carnaval acabava se dividindo e frequentando blocos diferentes (ÊLEMI, Nº01, p.2, 1985).

Conforme a primeira edição do jornal, o nome do grupo foi escolhido após diversas discussões, pois os membros desejavam um nome que refletisse a sua luta, ou seja, do homem negro discriminado. Todos os membros que formaram a entidade possuíam mais de 1,80 de altura e eram discriminados, entre outras coisas, por isso. Devido a sua aparência lidavam com o estereótipo do “negro violento, mal encarado” e queriam acabar com essa imagem. Após o carnaval, na Quarta-Feira de Cinzas, o grupo se reuniu e tomou a decisão de permanecer realizando encontros. Durante as primeiras reuniões o número de membros era limitado, apenas 75 pessoas.

 Assim que se tornou popular em Salvador o grupo passou a ser questionado por sua postura de defesa apenas dos problemas particulares do homem negro, ou seja, a exclusão da mulher negra do debate e de suas atividades, e também de seus critérios para participação nas reuniões: apenas homens negros com 1,80 de altura ou mais.

Em seu estatuto o grupo se definia como uma entidade cultural e sem relação com partidos políticos, além disso, afirmava também que um de seus objetivos era promover o esporte e outros cursos nas áreas de cultura e educação para os jovens da comunidade.

Os boletins do grupo foram publicados em outubro de 1985, janeiro de 1988 e dezembro de 1994 (SALOMÃO, 2012, p.71). Nesse post iremos disponibilizar a primeira edição do informativo Êlemi, que se encontra no acervo do Movimento Negro Unificado seção Pernambuco.

  • Boletim Informativo Êlemi – Ano I – N°01.

A primeira edição do boletim do Grupo Cultural Os Negões, foi publicada no mês de outubro de 1985. Logo em seu editorial o grupo trata de questões fundamentais para os possíveis leitores do informativo. Inicialmente é comentado o objetivo da entidade e de seu boletim, posteriormente se comenta a importância do leitor para a realização desse trabalho e também informações acerca da capa criada para o Êlemi pelo artista plástico Francisco Santos, que tem como sua inspiração a cultura afro-brasileira, principalmente questões religiosas.

O boletim traz espaço para o debate de assuntos relacionados ao tema da educação, dessa vez, abordando o “Seminário de Pedagogia Interética” que contou com a participação de 60 pessoas. O seminário foi promovido pelo Núcleo Cultural Afro-Brasileiro na UFBA, pela Secretária de Educação e Cultura do estado, entre outros, nos dias 23, 24 e 25 de setembro de 1985. O objetivo do seminário era discutir sobre “pedagogia interética em contraposição à pedagogia vigente (pedagogia etnocentrista)”. A matéria é assinada por Meire Ferreira de Andrade.

Ainda na primeira página o Êlemi traz informações acerca do Centro Histórico de Salvador e dados sobre cursos de inglês, dança, violão, basquete, entre outros, promovidos pelo Grupo Cultural Os Negões, para a comunidade de Salvador. Além de um aviso sobre o tombamento da área onde existia o quilombo dos Palpares, em Alagoas.

Posteriormente, o boletim apresenta, através de uma matéria, a origem do Grupo Cultural Os Negões e traz uma nota onde afirma que “Os Negões” estão de portas abertas, iniciando uma nova fase de trabalho, com o objetivo de reestruturar a entidade, com novas regras e a criação de Comissões de Trabalho – CT.

Em sua terceira página o boletim debate sobre política com o tema “África hoje: Diplomacia na África Austral” e sobre a educação na África. Com relação a essa última matéria, assinada pelo professor Antônio Vieira, o boletim pretende falar, nessa e nas próximas edições, sobre a educação em diversos países africanos, como Nigéria, Angola, Benin, Moçambique, entre outros, e a sua ligação com os países colonizadores.

Por fim, o boletim procura trazer discussões como “O negro e a sexualidade”, texto de Wilson Santos, “O negro e na Igreja Católica e no Protestantismo” e ainda, em sua última página, apresenta a música oficial do grupo, criada por Mello Dias, e poemas.

Nº01:


Referências:

 

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