Nêgo

Nêgo é um boletim informativo do Movimento Negro Unificado seção Bahia, que circulou de 1981 até 1988. O informativo foi criado em julho de 1981, três anos após a fundação da entidade, com o objetivo de divulgar o trabalho do MNU e suas ideias, além de ser mais um meio de comunicação entre a organização e os negros.

O boletim possuía em média 8 páginas e uma tiragem de 3.000 exemplares (SOUZA, 2005, p.201). Os principais temas abordados estão relacionados à questão do racismo, à história do negro, ao carnaval, entre outros temas como religião, mulher negra, violência policial e o homossexual negro. Ainda eram divulgados os eventos e atividades culturais de outras entidades da cidade de Salvador.

Pode-se afirmar que, como a maioria dos jornais da Imprensa Negra, o informativo do MNU-BA também sofreu para dar início as suas publicações. Vários problemas dificultaram o seu lançamento e a sua continuação. Apesar disso, diferentemente de outros boletins, o Nêgo durou por muitos anos, graças a sua transformação em boletim de circulação nacional.

Em Afro-descendência em Cadernos Negros e Jornal do MNU, Florentina Souza conta a história desse boletim e suas diversas fases:

Do número 1 ao número 5 predominam as discussões de questões mais ligadas às culturas de origem africana e ao desejo explícito de conscientização da comunidade negra no tocante ao mito da democracia racial brasileira e à importância de se resgatarem os fatos históricos que possam contribuir para o desenho de uma história do negro que se constitua em motivo de orgulho de sua participação na construção do país (SOUZA, p. 205).

A primeira grande mudança no boletim foi a partir da 12° edição, quando o informativo passou a ser um jornal do MNU Nacional, com uma tiragem de 5.000 exemplares. Apesar de cada edição ter se tornado também responsabilidade das outras seções do MNU pelo país, a redação e a distribuição continuaram a encargo da seção Bahia.

Serão disponibilizadas no blog duas edições do Nêgo como boletim regional, e uma edição como jornal nacional do Movimento Negro Unificado.

  • Nêgo – Janeiro de 1983/ N°4

A quarta edição do boletim Nêgo foi publicada em janeiro de 1983 e traz em sua primeira página uma imagem de Zumbi, com sua data de nascimento e de morte. Tudo isso com o intuito de lembrar o dia da consciência negra e o que ela significa. Em seu Editorial a comissão de imprensa do MNU afirma que o número apresentado é muito especial, pois pretende tratar de três momentos da história. O primeiro seria o Quilombo dos Palmares, o segundo A Revolta da Chibata, e o terceiro A Revolta dos Malês. Cada um desses momentos significa um grande exemplo de luta por uma vida digna e por liberdade, entretanto, como destaca o texto, apesar de ser de suma importância para a história do Brasil, esses fatos não são ensinados na escola. A luta dos negros ainda é escondida no sistema educacional brasileiro.

Na página seguinte o informativo apresenta um texto de título “20 de Novembro de 1695 Morre Zumbi”. Esse texto procura apresentar informações sobre a história do Quilombo dos Palmares e seu último líder – Zumbi. O artigo ainda ressalta que essa história é ignorada pela “história oficial”. Porém, apesar disso, os negros a cada dia se conscientizam e ajudam a divulgar essa, e outras histórias.  Ainda nessa página são apresentados versos do poema “Canto dos Palmares” do poeta pernambucano Solano Trindade.

Essa publicação ainda expõe matérias sobre as realizações do MNU durante o ano de 1982 e suas contribuições para a luta contra a discriminação racial. Apresenta também textos sobre a Revolta dos Malês e sobre a história da Revolta da Chibata. Como foi dito anteriormente, essa edição tem como finalidade destacar acontecimentos e personagens da história negra.

Nº4:

 

  • Nêgo – Novembro de 1983/N°5

Em sua quinta edição, publicada em novembro de 1983, o boletim Nêgo, traz em sua capa diversas ilustrações e informações sobre o que será tratado nesse número. Matérias sobre os blocos: Ilê Aiyê – Angola, Olodum – Tanzânia, Ilê Obá – Namibia.

Em sua segunda página o boletim apresenta algumas informações acerca dos cinco anos de luta, do MNU, contra o racismo. Comentários sobre como surgiu, suas conquistas, as seções pelo Brasil e a sua principal realização que seria a instituição de uma data nacional da consciência negra. Ainda nessa página temos uma matéria de título “O Brasil de hoje, mas até quando?”, nesse texto o boletim fala sobre a situação política e econômica do Brasil na década de 1980.

Por fim, é apresentada a principal matéria “Blocos Afros 10 Anos”, texto de João Jorge Santos. O autor inicia seu texto afirmando que há 10 anos o carnaval na Bahia passou a contar com a criação de blocos compostos somente por pessoas negras. Para Santos esses blocos são uma força negra impressionante e que contribuem profundamente para a conscientização do negro. Dessa forma, o autor se propõe a comentar sobre os fatores positivos e negativos do bloco e suas dificuldades.

Nº5:

 


Referências:

  • SALOMÃO, Renê Santos. “Que Imprensa é essa? Os jornais negros de Salvador na década de 1980”. 2012. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Comunicação Social – Jornalismo) – Universidade Federal da Bahia. Disponível em: http://facom.ufba.br/portal/wp-content/uploads/2013/08/tcc_versaofinal.pdf. Acesso em: 25/03/2017.
  • SOUZA, Florentina da Silva. Afro-descendência em cadernos Negros e Jornal do MNU. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

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