Jornal Frente Negra

A Frente Negra é um jornal publicado pelo IPCN (Instituto de Pesquisas das Culturas Negras), idealizado por integrantes do movimento negro do Rio de Janeiro para mobilizar a população negra brasileira, trazendo informações do povo negro do Brasil e do Mundo. Tinha Como jornalista responsável Luís Antônio dos Santos e como redatores: Aderaldo, Amaury e Yedo. A redação localizava-se na sede do IPCN e sua impressão era feita pelo “Jornal do Commercio”. O nome do jornal foi dado em menção a Frente Negra fundada em setembro 1931. Como forma de recuperar a memoria daqueles que lutaram pelos ideais negros na FNB e como forma de homenagear os integrantes do movimento negro: José Correia Leite, Raul Joviano do Amaral, Aristides Barbosa, Henrique Cunha entre outros, foi como surgiu o jornal Frente Negra.

  • Frente Negra – Ano 1, N° 1.

Sua primeira edição foi lançada no ano de 1982, referentes aos meses de julho e agosto, contendo sete oito páginas incluindo a capa. A capa da edição em questão, apresenta algumas informações do jornal, assim como as colunas em destaque, o logotipo do jornal e a imagem de Solano Trindade na margem superior em homenagem aos dez anos de sua morte. A página dois destaca uma matéria sobre a situação da apartheid nos seguintes países da África do Sul, Angola, Namíbia, Botsuana, Lesoto, Zimbábue e Moçambique. Na mesma página, encontra-se uma pequena coluna descrevendo a visita de Coreta King, viúva e do ativista negro dos EUA, Martin Luther King. Segundo a coluna, Coreta teria vindo ao Brasil, a pedidos de Abdias do Nascimento (ativista dos direitos civis das populações negras), em comemoração ao aniversário de sessenta anos do mesmo e para acompanhar a posse do governador Leonel Brizola.

A página três traz algumas colunas descrevendo encontros de entidades negras. Dessa forma, foi apresentado o 1° Encontro Afro-brasileiro, tendo como patrocinador o Centro de Estudos Afro-Asiáticos. O encontro reuniu militantes de todo país na cidade do Rio de Janeiro. Estiveram presentes sete estados de diferentes entidades, o que possibilitou a organização do 1° Convenção Nacional do Movimento Negro. Na mesma página destaca-se também o 11° Encontro de Negros do Norte e do Nordeste, promovido entre os dias 2 e 4 de junho, na cidade de São Luís do Maranhão, tendo como objetivo procurar uma melhor maneira de organização e discutir questões ligadas a população negra. Por ultimo foi destacado, o IV Congresso do Movimento Negro Unificado, que aconteceu na cidade de Taboão da Serra em São Paulo, entre os dias 4 e 5 de junho, o congresso contou com a participação de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Minas Gerais,Distrito Federal e Rio Grande do Sul. As pautas mais importantes no congresso foram necessidade do envolvimento do MNU com as entidades negras em nível nacional, e o ensino da História do negro no Brasil.

Na página quatro, temos uma coluna de título “A evolução da Black Music”, tendo como destaque uma foto do astro da Black Music entre os anos 60 e 70, James Brown e o “Rei do pop” Michael Jackson. A coluna apresenta um pequeno resumo da história da musica negra nos Estados Unidos.
A página cinco exibe uma coluna com temas como: a imagem do negro na sociedade e a denuncia da violência sofrida nas abordagens policiais. Inicialmente, a coluna expõe todo o julgamento feito, pela sociedade no qual o negro é visto como a imagem da marginalidade. Para exemplificar, a coluna verbalizou o modo truculento de como a policia militar aborda pessoas negras e pobres, fazendo até mesmo o negro passar por humilhações. Em contrapartida, a coluna apresenta o novo comandante da policia militar, conhecido com Coronel Cerqueira, sendo este negro e também secretário de estado, além de lançar a duvida de como essa novidade andava repercutindo entre os policiais.

Na página seguinte, o jornal inicia com uma matéria de título “Racismo nosso de cada dia”, onde é exposto casos de racismo. O primeiro caso é da empregada doméstica, Sueli Luiz da Cruz, acusada de furto pelos donos de um apartamento localizado na Morada do Sol, no bairro de Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro. Após o acontecimento, Sueli teve imagens suas espalhadas pela sindica do prédio em que trabalhava, aconselhando que os moradores tivessem cuidado com a empregada doméstica. No seguinte caso, temos uma criança de nove 9 anos negra, recusada a ser batizada pelo padre Alvaro Noschang. Revoltado pela atitude do padre, o padrinho da criança, também de cor negra reagiu, porém foi expulso aos gritos pelo padre Noschang, que o chamava de ”negro sujo”. Por final, temos o caso de um morador do Morro da Cachoeira Grande, localizada no Rio de Janeiro, que teve seu pescoço amarrado por PMs. Um dia depois, o movimento negro se posicionou contra o ato covarde dos PMs, mas como forma de deslegitimar o ato, o arcebispo do Rio de Janeiro alegou que o movimento teria como infiltrados, alguns grupos políticos.

Abaixo encontra-se algumas matérias com temas de bastante comoção na época. A primeira matéria em destaque tem como título “O descuido das elites”, tem o propósito denuncia um documento do governo de Paulo Maluf, feito por meio da GAP (Grupo de Ação e Participação), em que se expressa o controle da natalidade da população negra. Segundo o documento, o grupo seria um grande perigo para as elites. Além disso, a matéria também mostra a fala do dirigente da COPERSUCAR, em que se expressa seu ódio para com a população negra. Esta mesma página, também apresentou mais informações complementares a anterior. Dessa forma, como o título de “Racismo e controle de natalidade”, o jornal mostra a participação das mídias, na propaganda feita para o controle de natalidade e também denuncia o banco mundial que distribuiu as pílulas anticoncepcionais no nordeste brasileiro, sendo esta a mesma incentivadora do segundo filho em países considerados desenvolvidos.

Ficou a cargo da página sete, temas envolvendo mulheres negras. A primeira matéria em destaque, tem como título ”Em debate a questão da mulher”, está relacionada à invizibilização das mulheres negros no próprio jornal. A autora da matéria expressa toda a sua indignação para com um artigo que colocava as mulheres negras omissas de seus trabalhos no jornal. A segunda matéria ,com o título “Mulher Negra”, é uma fala da vice comunitária do IPCN ( Instituto de Pesquisa das Culturas Negra), tem como o objetivo principal, denunciar o racismo e o machismo no Brasil. Além disso, ela também traz dados da época a cerca do desemprego entre as mulheres negras e periféricas e expõe a situações humilhante pela qual elas passam.

Nesta Mesma página, podemos encontrar dados importantes na coluna “Mulhere Negras…”, sobre as reuniões no IPCN, localizado na cidade do Rio de Janeiro. Estas reuniões aconteciam todas as quartas feiras, tendo como participantes um número considerável de mulheres negras. A primeira reunião aconteceu no ano de 1981, no mês de julho, tendo como objetivo a organização das mulheres para a 1° Convenção Nacional do Movimento Negro. Logo depois, o mesmo grupo organizou no mês de Março no ano de 1982, o 1° Encontro de Mulheres Negras do Rio de Janeiro. Seguindo na mesma coluna, o jornal também tem informações sobre o 11° Encontro Feminista Latino Americano e do Caribe, que iria ser realizado na cidade de Lima no Peru no ano de 1983, entre os dias 19 e 23 de julho. O encontro contava com a presença de militantes do movimento negro, entre elas: Adélia Azevedo dos Santos, Abgail Pachoa e Jurema da Silva.

A última parte da coluna apresenta o 1° Encontro de Mulheres de Favela e Periferia, na cidade do Rio de Janeiro tendo como ponto o Clube Municipal. O encontro teve como pauta, questões como saúde, violência, educação, entre outras questões. Após o encontro, foram feitas reivindicações, além de apresentar ideias para solucionar problemas de descriminação enfrentada por elas.
Esta mesma página, anunciou em matéria o aniversário de oito anos do IPCN. A instituição foi fundada no dia 8 de junho de 1975, tendo sua sede na Avenida Mem de Sá, n° 208, Rio de Janeiro. O instituto tem como proposta a valorização da cultura negra, denunciar e combater o racismo e lutar pela igualdade de direitos, entre outras propostas.

Para finalizar, a última página informa sobre a II Noite da Beleza,que seria realizado no dia 29 de julho em 1983. A Noite da Beleza Negra é uma festa organizada pelo grupo-afro Agbara Dudu, em seu segundo ano a festa foi realizada na Vila Izabel, um dos bairros mais visitados do Rio de Janeiro. Seguindo na mesma página, o jornal identifica seus organizadores e colaboradores, além de expor em uma pequena coluna de título “Jornal Nacional”, as falhas apresentadas no jornal e um pequeno incentivo aos leitores.

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