Boletins Informativos do MNU – Edição sem número

  • Boletim Informativo do Movimento Negro Unificado – Sem Número

Esse boletim de 8 páginas não apresenta data, nem número de edição e nem ano de lançamento, mas pelas informações colhidas durante as matérias, estima-se que seja ainda do primeiro trimestre de 1993. A página 1 expõe o caso no qual um homem negro fora morto a tiros disparados por um segurança que prestava serviços ao banco Itaú. A matéria é uma denúncia e um chamado para que a população negra se levante contra essa discriminação, sugerindo, inclusive medidas drásticas, como pode ser visto na citação:

Vamos nos organizar para enfrentar o Racismo e todas as suas manifestações e se for preciso temos de estar preparados para estabelecer a lei de “um branco racista por cada negro assassinado”.

A página 2 fala sobre a mulher: traz a música “Mulher brasileira”, se Jorge Benjor e dois quadrinhos: um com uma crítica à diferença de salários entre mulheres brancas e negras e outro em menção à luta da mulher negra dentro do MNU. A página 3 trata do Carnaval através de uma carta aberta em repúdio à atitude da TV Globo em negligenciar as atrações do carnaval paulista enquanto a programação do Rio teve sua transmissão normal e em seguida exalta a apresentação da escola de samba do Salgueiro, além de mostrar mais um quadrinho, desta vez sobre a ridicularização do trabalhador negro pelas elites e pela História oficial, e colocar a seguinte mensagem:

Mensagem de carnaval, dos opressores para a negrada:

“O teu cabelo não nega mulata (Negra) porque és mulata (Negra) na cor mas como a cor não pega mulata (Negra) mulata (Negra) eu quero teu amor.”

RESPOSTA, PARA OS OPRESSORES. E se a cor pegasse?

Na quarta página fora publicada uma nota de denúncia ao extermínio das populações negras em Salvador, pois enquanto os negros fazem a festa dos brancos no carnaval, outros estão sendo mortos pela arbitrariedade do Estado e da polícia. A manchete dessa matéria é “Não viemos mais pra prender não, viu porras! Viemos pra matar mesmo!”, em referência à truculência da força policial na invasão dos morros. A matéria seguinte data de 29/01/1993 e é do Diário Popular. Se chama “Negros subirão ao poder com reinado” e foi escrita por Ogan Naninho de Onaluavê, que divulga o plebiscito para a decisão da estrutura política brasileira: presidencialismo ou parlamentarismo e monarquia ou república; a opinião do autor é que a monarquia traria a possibilidade de ascensão do Reino de Palmares.

A quinta página critica, mais uma vez, a Rede Globo, mas dessa vez fala sobre a novela “Sem Corpo e Sem Alma”, que trata de forma diferenciada os negros e brancos dentro da trama, com um racismo disfarçado. A sexta página traz “O Negro e a Economia”, de Milton Barbosa. Inicialmente, fala que o negro era uma base sólida da economia brasileira, atuando nos mais diversos âmbitos e serviços, mas, mesmo assim, fora substituído pelo imigrante na tentativa de se branquear a população brasileira. Assim, o MNU coloca a importância da organização negra no âmbito econômico, não só organizando os trabalhadores, mas criando mais espaço para micro-empresas, negócios e cooperativas de trabalho. Aparece mais um quadrinho, agora falando sobre a entrada dos imigrantes nas fábricas e os créditos pelas artes: “Os desenhos deste Boletim são da autoria do Pestana, da Cartilha “Palavras do Trabalhador Negro” da CEERT – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades / M. Pestana Produções”

A página 7 continua falando de economia em “Organização Econômica”, que traz um quadrinho sobre a organização dos negros e como a entrada dos imigrantes foi motivada por um razões racistas e em “Cooperativa de Doces e Salgados”, na qual o boletim informa a criação de uma Cooperação de profissionais autônomos na área de alimentação, promovida pelo MNU, com intuito de montar uma força econômica livre de patrões, além de gerar um apoio financeiro ao Movimento. A última página fala sobre o plebiscito: “No dia 21 de abril – no plebicito (sic) VOTE PRESIDENCIALISMO”. Escrita por Milton Barbosa e ao contrário da matéria já exposta neste mesmo boletim, essa matéria defende o presidencialismo e expõe o motivo:

Há um movimento, a fim de que seja implantada a monarquia seguindo a linhagem dos comandantes do Quilombo dos Palmares. Respeitamos esta posição, defendida por pessoas dignas e lutadoras, mas entendemos esta posição desligada da realidade do país, um país que criou estruturas sólidas de dominação da população negra e pobre e, não será através de uma simples eleição que os brancos racistas que dominam o país, serão derrubados do poder. Será necessário uma luta de longa duração para que o negro construa o caminho da sua libertação.

A negação ao parlamentarismo se dá devido ao caráter que o boletim atribui aos políticos brasileiros: “ladrões sem honra, sem dignidade, sem história”. E, por fim, há a agenda de atividades do MNU.

Boletins Informativos do MNU – MNU Nordeste e Coletivo de Mulheres

  • Informe MNU Nordeste – Primeira Edição

De 1999, foi o primeiro Informativo do MNU da Região Nordeste e possui apenas 2 páginas. Na época, os Estados que compunham seções do Movimento nessa região eram Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Sergipe e Piauí, sendo a entrada deste último noticiada nessa edição. Em 1999 também se comemoravam os 21 anos do MNU. No final da edição, há as seguintes informações:

informeMNUnordeste é uma publicação sobre a responsabilidade da Coordenação de Articulação da Região Nordeste. Endereço: Rua Direita do Curuzu – 101 – 1º andar – Liberdade – Salvador – Bahia – Brasil – Cep: 40.365-000

A página inicial comunica o lançamento do “informeMNUnordeste” como uma maneira de dialogar e facilitar a interação entre as seções estaduais do Movimento. A matéria “Brasil Outros 500” menciona que o Movimento Nacional pela Resistência Indígena, Negra e Popular saiu no dia 2 de Julho em uma manifestação na Bahia e atenta para a importância do MNU organizar os Comitês Estaduais para lutar contra as formas de repressão e construir uma sociedade justa, igualitária, sem machismo e sem sexismo. Também fala do lançamento do 2º Encontro Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, que aconteceria em Abril de 2000 em Salvador-BA.

A segunda página mostra um espaço reservado aos filiados e filiadas exporem quaisquer questões que acharem pertinentes, chamado “Eis a questão…”. Neste, Stânio de Sousa Vieira, coordenador do MNU-PI, traz uma discussão sobre uma marcha dos Irmãos Valença e Lamartine Babo, que coloca em evidência o termo “mulata”, um termo pejorativo por si só, mas que dentro da letra assume um caráter ainda mais racista ao se analisar o que está implícito. “O teu cabelo não nega, mulata […] mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o teu amor”. Em seguida, mostra-se o Planejamento do MNU Nordeste, cujas pautas e perspectivas foram: Contatos permanentes com as seções, Fundação de seções nos Estados de Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte, Lançamento de Boletim Informativo, Encontro Regional, Encontro de Mulheres do MNU da Região Nordeste, Seminário Nordeste Negro, Escola/Centro de Formação do MNU no Nordeste. Por fim, anuncia-se o Congresso Extraordinário do MNU, que ocorreria de 4 a 7 de Setembro e teria como pautas a organização política, o projeto político, e a revisão de documentos básicos do Movimento.

  • Informativo do Coletivo de Mulheres do Movimento Negro Unificado/RS

Lançado na seção do Rio Grande do Sul pelo Coletivo de Mulheres do MNU local em Novembro de 2002, esse informativo conta com 4 páginas e é voltado especificamente para as mulheres negras, mas possui aspectos que tangem á resistência geral do Movimento. A primeira página é toda dedicada à discussão em cima do ALCA. Segundo o informativo, “Alca é uma proposta de acordo comercial apresentada pelo governo norte-americano durante a 1ª Cúpula das Américas, reunião dos chefes de nações realizada em Miami, em 1994”, e teria por objetivo consolidar a influência e dominação norte-americana nos maiores Estados da região. Por se tratar de uma proposta que beneficiaria poucos e prejudicaria muitos, a autora do artigo, Cledi Oliveira, pontua que a ALCA caracterizaria mais discriminação, mais exploração e relembra a entrada das mulheres no mercado em substituição aos homens devido aos menores salários pagos às mulheres graças à desigualdade de gênero e, por isso, coloca que as mulheres seriam as mais prejudicadas caso a proposta fosse aceita. Devido a essa situação, houve a Marcha dos Sem, na qual as Mulheres Trabalhadoras em Educação participaram juntamente à CUT, a CTA da Argentina e a PIT-CNT do Uruguai, e onde houve o encontro com a Marcha dos Trabalhadores Argentinos. Em Setembro ocorreu o plebiscito pela aceitação ou não do ALCA, no qual a imensa maioria votou pelo “NÃO”.

Concluindo, é compromisso do coletivo de mulheres do MNU, dizer não a ALCA, não a discriminação, não as desigualdades, e assumir o compromisso de formar novas consciências, novos valores e fazermos pulsar a solidariedade, o respeito, a dignidade na relação entre mulheres e homens.

A segunda página traz um “Você Sabia Que” e é dedicada a trazer informações e dados sobre o desemprego das mulheres, principalmente das negras; sobre as dificuldades de ascensão social das mulheres, mesmo com mais tempo de estudo que homens; sobre a diferença de salários entre homens e mulheres; e ainda traz um infográfico com a distribuição dos ocupados da RMPA, segundo sexo e cor, de 2002, que mostra as desigualdades de gênero e cor no âmbito do trabalho.

A terceira página põe em pauta a saúde da mulher negra com a matéria “A Mulher Negra e os Alimentos Através da Prevenção”, escrita por Irene Paula da Silva, na qual fala que mulheres negras têm tendência a obesidade ou desnutrição principalmente por causa da má alimentação, fruto de jornadas diárias corridas ou até mesmo de dificuldades financeiras. Traz algumas dicas de alimentos importantes de serem ingeridos pra a melhor saúde da mulher e uma dica de leitura do livro ACAÇÃ, do Pai Cido do Oxum, sobre pratos que tiveram origem na tradição religiosa de matriz afro.

A quarta e última página encerra a edição com o poema “SOU NEGRA” e o texto “Menina Mulher Negra”, de Malu Viana, sobre a resistência da mulher negra.

Boletins Informativos do MNU e Quinta Edição

Veiculados pelo Movimento Negro Unificado, esses boletins tinham por objetivo informar a comunidade negra nacional, regional e estadual sobre casos de racismo, eventos dentro da temática de resistência negra e também para divulgar a entidade e as diversas áreas em que ela atuava. O MNU surgiu sob o título de “Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial”; em 18 de Junho de 1978, se torna apenas Movimento Negro Unificado e já em 7 de Julho do mesmo ano, lança suas diretrizes e cobra ações efetivas de combate ao racismo, como já fora relatado no post sobre o Jornal Djumbay. Foi, portanto, umas das mais antigas entidades representativas dos Movimentos Negros, e também a de maior permanência na militância.

Através dos poucos exemplares desse boletim que serão expostos aqui, podemos perceber algumas características básicas de estruturação e movimentação do MNU. Primeiramente, por ser um movimento de resistência nacional, foram necessárias as criações de “seções” do MNU em cada Estado. Em 1999 haviam sido formadas 14 seções, sendo 6 do Nordeste. Além dessas seções individuais de cada Estado, era possível, também, uma seção regional, visto que fora lançado o “Informe MNU Nordeste” também no ano de 1999.

Outra característica importante é que não se restringia ao panorama geral. Em 2002 é veiculado uma pequena edição do Coletivo de Mulheres da seção do MNU no Rio Grande do Sul. Assim como havia o boletim Omnira em Pernambuco, as outras seções do Movimento Negro Unificado também possuíam seus coletivos e grupos de trabalho femininos voltados para discutir o racismo, o preconceito, mas também o machismo, a misoginia e as dificuldades pelas quais as mulheres passavam, especialmente as mulheres negras.

Há poucas informações sobre a frequência desses boletins, especialmente devido à fragmentação das seções. Esses boletins apresentam um caráter mais informal que os jornais veiculados na época, com linguagem mais próxima do cotidiano e eventuais erros ortográficos, o que sugere que não passavam por uma revisão antes de serem lançados. No acervo do Blog, possuímos duas edições de 1993, uma de 1999 e outra de 2002, sendo que um dos exemplares de 1993 não conta com a data nem a numeração do editorial explícitas.

  • Boletim Informativo do Movimento Negro Unificado – Quinta Edição

Contando com 8 páginas, esse exemplar fora veiculado em São Paulo no ano de 1993 e possuía o apoio do Sindicato dos Condutores. A primeira matéria, intitulada “SKINHEADS RACISTAS OTÁRIOS”, ainda na página 1, critica e denuncia o comportamento dos grupos de Skinheads, que estavam praticando atos contra judeus e nordestinos, e que apareceram no programa “Documento Especial da SBT”. Tendo em vista esses casos, há uma chamada para a população negra reagir a esses casos e se juntar ao MNU. Inclusive, esse caso envolvendo Skinheads também fora noticiado pelo Djumbay. Ainda nessa página o informativo traz um relato datado de 11 de Agosto de 1885, no qual a notícia veiculada informa a fuga de ex-escravos quilombolas em resistência à tentativa de prisão por parte da polícia, que alegava a “falta de segurança” daquela região graças ao quilombo formado. Pode-se dizer, então, que a temática central desse exemplar foi atentar a população negra para a necessidade de um levante de resistência.

A segunda página trata do caso no qual mais de 300 policiais entraram em um presídio e executaram 111 presos com armamentos de alta qualidade. A foto da matéria mostra os corpos enfileirados e possui a legenda “as expressões de terror, pânico, medo e dor no rosto dos mortos resumem a violência do massacre de sexta-feira durante a invasão da PM na Detenção”. A página 3 faz mais uma chamada para o levante negro contra os ataques de skinheads, e pontua que os negros não esperem que entidades brancas assumam um posicionamento, pois este deve partir da população negra. Ao lado é exposta uma foto de uma mulher chamada Jurema Batista e o seguinte texto, que funciona como uma forma de dar mais visibilidade para a mulher dentro do movimento:

Mulher negra, 34 anos, mãe de três filhas, carioca nascida e criada no morro do Andaraí. Ativista do Movimento Negro, faz parte da Coordenação Nacional do MNU, movimento de mulheres, professora e militante do Partido dos Trabalhadores.

E em seguida, colocam-se dois poemas: “Hino do MNU”, por Nethio Bengela, e “Instante Universal”, por Chico Silva.

A página 4 noticia um episódio ocorrido na USP. Um aluno de medicina do 6º ano, coreano, destratou uma ascensorista no Hospital Universitário falando a ela “Não nega a cor, e nem fica cor-de-rosa. Você é uma grande cretina!”. Ela prestou queixa e o acusado, em sua defesa, alegou não ser racista porque seus pais têm empregados negros, que são competentes, fala que já namorou nordestinas – que também são discriminadas – e que por ser da “raça amarela”, ele também sofre preconceito. Por fim, o rapaz ainda ameaçou a direção do H.U. – e a própria ascensorista – caso sofresse alguma retaliação pela denúncia. Com isso, logo abaixo, o boletim traz uma coletânea de definições do que é racismo, discriminação social e preconceito de acordo com os dicionários.

Na página seguinte aparece uma crítica feita por Francisco Ernesto Silva, Coordenador Municipal do MNU-SP, na qual ele fala sobre como a mídia, em especial a Rede Globo, veiculou as notícias sobre o assassinato – que envolvia “magia negra” – dos meninos Evandro e Leandro no PR, e como o termo “pai de santo” fora utilizado de maneira pejorativa, o que fica perceptível ao comparar o tratamento dado ao brasileiro em relação ao estrangeiro envolvido no crime, este sendo taxado, diferenciadamente, por “bruxo”. Em baixo aparecerem um anúncio do livro “Bruxas, Espíritos e Outros Bichos”, do autor Edson Lopes Cardoso, e alguns dados importantes que retratam a violência e o racismo contra as populações negras.

A sexta página é inteiramente direcionada a uma crítica à Folha de São Paulo, que veiculara uma matéria sobre uma noite de funk no Rio de Janeiro de maneira unilateral e preconceituosa. A página 7 conta com uma crítica ao 1º Encontro Nacional de Entidades Negras, por causa da superficialidade e inúmeros outros problemas da composição do evento, mas também há a pontuação de importantes conquistas para o movimento, além de uma autocrítica do MNU sobre seu comprometimento e atuação no espaço político nacional. A página 8 relata uma denúncia contra o caso dos bantaustões, que eram regiões que ocupam 13% do território sul-africano mas que se tornaram autossuficientes numa tentativa do governo do apartheid de tornar a maioria da população branca. Por fim, a última matéria conta a história de Steve Biko, um importante militante da Consciência Negra que fora interrogado, humilhado e torturado pelo governo racista da África do Sul.

Jornal Djumbay – Vigésima Quinta Edição

Esta foi a penúltima edição do Jornal Djumbay, lançada em 1997. Ela faz parte da última fase (ou ano V) e aparece como uma publicação da “Djumbay – Cidadania com Identidade Racial”, Situada à Casa da Cultura de Pernambuco, Raio Oeste, 2ª andar, sala 303 e com Conselho Editorial formado por Daniel Souza, Gilson Pereira, Glaucia Maria, Lepê Correia e Verônica Gomes. A “Djumbay – Organização pelo Desenvolvimento da Arte e Cultura Negra” se torna a Representação Jurídica da associação do jornal. Ela também traz uma nova diagramação e um índice com as novas seções. São elas:  DIREITO, EDUCAÇÃO, DICIONÁRIO YORUBÁ, FUNDAMENTADO, REENCONTROS, MULHER NEGRA, AFRO-REMANESCÊNCIA, COMUNICAÇÃO, NEGRAS MEMÓRIAS, INFANTO-JUVENIL, UM TOQUE AFRO, PSIQUE E NEGRITUDE, RAÍZES, FALA NEGRITUDE e IDENTIDADE. Importante notar que com o crescimento nacional do jornal, essa edição possui matérias de diversos lugares do Brasil, e essa procedência aparece junto aos nomes dos autores dos artigos publicados.

A página 3 apresenta a seção “Direito”, cuja primeira matéria é “Programa de Ação – uma ferramenta útil no combate à discriminação racial”, escrita por Geraldo Costa, de Brasília-DF. O programa de ação é uma medida que constitui informações precisas no diagnóstico de práticas discriminatórias. A matéria ainda indica as etapas de um programa de ação: diagnóstico, elaboração, implantação e controle e avaliação. Na página 4, a seção “Educação” traz uma matéria sobre o II Seminário Estadual: “A Questão das Relações Raciais na Educação”, que ocorreria na UERJ em setembro de 1997. Nessa mesma página há o Dicionário Yorubá. A página 5 coloca na seção “Fundamentado” um Especial de História escrito por Simão Matsinhe (Recife-PE), que conta um pouco da história de Moçambique, da colonização portuguesa, da cultura e do socioeconômico do local. A página 6 apresenta as seções “Reencontros” e “Mulher Negra”. A primeira contém uma crítica ao V Congresso Afro-brasileiro (CAB), que, segundo Gilberto Leal (Salvador-BA), não empolgou a militância, pois o caráter meramente academicista acabou por afastá-la do espaço; também é divulgado o 18º FECONEZU, que aconteceria em Novembro de 1997. A segunda coloca em pauta o XII Encontro Nacional Feminista, o primeiro organizado por mulheres negras, em artigo escrito por Carmem Lúcia e Vilma Reis (Salvador-BA), e também fala sobre o Programa de Saúde do Geledés. Essa matéria fora escrita por Edna Roland, presidente do “Fala Preta” (São Paulo-SP), que é como se chamava o programa, e conta que ele nasceu em Abril de 1997 e propunha promover o desenvolvimento humano sustentável livre de todas as formas de discriminação.

A seção “Afro-remanescência” apresenta um artigo sobre o mapeamento das terras quilombolas remanescentes que fora organizado pela Fundação Cultural Palmares, mostrando ainda uma planilha com as terras já mapeadas. A “Comunicação”, das páginas 8 e 9, traz três matérias: “Imprensa Negra – uma história antiga”, por Glaucia Maria (Recife-PE), que conta a história da imprensa negra desde o início até a atualidade (no caso, até os anos de 1996/1997); “CONEN em Ação – Seminário Nacional da CONEN”, sobre o adiamento do seminário para Março de 1998; e “Pauta Lembadilê – Central de Notícias Afro-brasileira”, mostrando os materiais disponíveis de congressos, seminários, etc. As páginas 10 e 11 pontuam, na “Negras Memórias – parte II”, as datas importantes para a comunidade negra, durante os meses de Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro. Também conta com uma nota sobre o falecimento de Luís Carlos Felipe, importante militante do SINTAEMA-SP.

A seção “Infanto-Juvenil” coloca em pauta a necessidade de se abrir um espaço para crianças e adolescentes compartilharem suas vivências e agonias com o preconceito. A “Um Toque Afro” faz a mostra da “Vitrine Afro”, com indicações de livros sobre a África, quilombos e africanidades gerais, além de peças nessa temática e poesias. A “Psique e Negritude” apresenta um texto de Lepê Correia sobre a criação de um espaço para debate sobre o comportamento dos afro-descendentes. Essa seção também traz um assunto centrado na sexualidade dentro do Movimento Negro na matéria “Homossexuais Afro-brasileiros”, escrita por Waltecy Santos (SP), que fala sobre os dois coletivos que tratam dessa temática no Brasil: o Dudu Adé – Coletivo de Homossexuais Afro-brasileiros e o Quimbanda Dudu – Grupo Gay Negro da Bahia. A seção “Raízes”, em texto de Jorge Morais e Jairo Pereira, fala sobre o Centro de Estudos das Tradições Religiosas da Humanidade. Por fim, a seção “Identidade”, em matéria de Mário Nelson, de Brasília-DF, fala sobre o Ceabra, o Coletivo de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros, criado com intuito de fomentar o mercado de empresários negros no cenário nacional.

Jornal Djumbay – Vigésima Terceira Edição

Edição de 1996 (sem mês informado), apresenta Conselho Editorial formado por Gilson Pereira, Glaucia Maria, Lepê Correia, Rosilene Rodrigues e Verônica Gomes. Essa edição aparece menos separada por seções, contando na maior parte por matérias independentes. A seção “Editorial” fala um pouco sobre o começo do jornal e as mudanças do Djumbay nesse percurso, menciona  o envolvimento em projetos locais e nacionais na agenda de resistência dos movimentos negros e também a entrada na coordenação da Central de Notícias Afro-brasileira (Cenab). Na página 3, há uma matéria de Glaucia Maria explicando o que é o Cenab e como se dá o envolvimento do Djumbay e das outras entidades negras nessa nova empreitada pela interação da Comunidade Negra Nacional. Também nessa página, há uma imagem interativa patrocinada pelo DETRAN-PE, para incentivar o cuidado no trânsito como uma forma de exercer a cidadania. Na página seguinte encontramos uma matéria intitulada “Direitos Sócio-Raciais”, escrita por Maria Edite, a advogada e assessora do Djumbay, na qual ela informa a inserção de uma nova seção no jornal cuja temática abordaria assuntos jurídicos. Nessa matéria ela dá uma breve explicação sobre os remédios constitucionais, as leis infringidas no ensino e a resistência de Zumbi.

Na página 5, Lepê Correia fala sobre o papel social da escola e como o racismo dentro dessa instituição aparece, tornando-a um serviço para a classe elitizada. Ainda nessa página, há um pequeno artigo que conta um pouco sobre a história da Nigéria e da cultura material de lá. As páginas 6 e 7 são voltadas para as eleições de 1996. Nessa pauta, Glaucia Maria questiona se há voto racial no Brasil, a importância da reflexão sobre esse tema, a responsabilidade envolvida na eleição e elenca alguns candidatos negros que estariam concorrendo ao cargo de Vereador. Na página 7, há também um espaço intitulado “Um momento de reflexão”, que divulga estatísticas e ponderações sobre a situação do negro na sociedade. No fim da página, há ainda uma publicidade patrocinada pela Celpe para a conscientização sobre a necessidade de economizar energia.

As páginas 8 e 9 colocam importantes eventos e discussões a âmbito nacional no “Pelo Brasil afora”. Dentre São Paulo, Espírito Santo, Paraíba, Rio de Janeiro e Brasília (DF), duas matérias merecem atenção. A primeira é a do Distrito Federal, escrita por Glaucia Maria, que fala sobre o fim do ensino gratuito nas universidades públicas brasileiras, um projeto que fora idealizado pelo professor Hélio Santos, e cuja proposta visava à democratização do ensino superior para que mais negros pudessem ingressar nas universidades. No entanto, essa proposta foi contraposta pela UNE. A segunda é a do Rio de Janeiro, escrita por Verônica Gomes, cujo título é “Povo Negro, desperta pra Aids!” e na qual ela fala sobre o I Seminário Nacional “A Comunidade Afro-brasileira e a Epidemia de HIV/AIDS”, que ocorreu em Outubro de 1996. No fim da página 9, há um anúncio que informa que a Organização Djumbay passaria a promover a Mostra de Vídeo-Debate “Cidadania com Identidade Racial” mensalmente nas comunidades.

Na 10ª página, Gilson Pereira e Verônica Gomes revelam as pretensões do Djumbay na Cenab (Central de Notícias Afro-brasileira) e divulgam que o Djumbay é parte integrante da CONEN (Coordenação Nacional de Entidades Negras), além de pontuar as atividades da organização do jornal nos eixos de Educação, Comunicação e Direito. Na página seguinte aparece novamente uma matéria sobre o caso de Mumia Abu Jamal [1], o jornalista negro americano acusado de assassinar um policial branco. A matéria é mais uma explicação do caso e suas irregularidades e pede, mais uma vez, ajuda para o custeio financeiro da revisão do caso, além de trazer uma mensagem de Abu-Jamal para os negros brasileiros. A página 12 expõe uma carta aberta ao cantor Carlinhos Brown, escrita por Samuel Vieira, na qual ele critica o posicionamento de Brown quando este afirma que a África “aceitou” ser colonizada e escravizada e que os africanos são um povo fraco e, por isso, são o contrário do brasileiro, que representa um povo “forte e miscigenado”. Samuel quebra o que foi dito por Carlinhos, dizendo que o Brasil também foi colonizado e que aqui ainda possui muita pobreza. A página 13 elenca datas importantes para a memória do povo negro e também conta com outra imagem lúdica patrocinada, desta vez, pela Compesa.

A página 14 apresenta uma novidade: o Dicionário Yorubá. A penúltima página expõe relatos e congratulações ao Djumbay feito por figuras de associações e do movimento negro, tanto em Pernambuco como em outros estados, e também divulga o Seminário Estadual sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos, que contou com participação de Dom Hélder Câmara. Por fim, a edição é concluída com um pequeno texto de Lepê Correia sobre a história de Luís Gama, filho de africana livre que fora vendido como escravo pelo próprio pai e que posteriormente se tornou um grande abolicionista e poeta satírico.

Jornal Djumbay – Vigésima Primeira, Vigésima Segunda e Edição Especial

  • Jornal Djumbay – Vigésima Primeira Edição

Essa edição, de Julho de 1995, retorna ao total de 8 páginas, mas possui a mesma diagramação da anterior e as mesmas seções, menos a “Baseado”. A “Editorial” homenageia Solano Trindade e os 87 anos que ele faria naquele ano. A “Resistência”, em matéria de Glaucia Maria, fala um pouco sobre o cantor de reggae Dionorina. A “Fala Negritude” traz as opiniões e relatos das pessoas sobre essa nova fase do Djumbay. Na página 4, a “Crenças”, em matéria de Verônica Gomes, anuncia a morte de Mãe das Dores, ou Talaby, umas das primeiras mulheres a fundarem a Casa de Candomblé em Pernambuco. Ainda nessa seção, Lepê Correia faz homenagem a Talaby no texto “Axexé”. A seção “Outros Axés” divulga o Centro para Mulheres do Cabo, que visa a capacitar e entender as mulheres do Cabo de Santo Agostinho, além de realizar diversas atividades e oferecer serviços de saúde preventiva, consultas ginecológicas, acompanhamento de gestantes, etc.

Na página seguinte, a seção “Fundamentado” traz a questão da mulher negra em texto de Verônica Gomes, inspirada no discurso de Sueli Carneiro, Coordenadora Executiva do Geledés. A matéria seguinte, de Nei Lopes, já fala sobre os problemas léxicos da língua banto e sobre o Dicionário Banto do Brasil, feito pelo africanista Nelson de Sena. A sexta página contém o “Negritude Lúdica”, com alguns jogos, palavras-cruzadas, dicas de livros infantis e divulgação do Balogunsinho, uma linha especial do salão Baloguns, especializado no público infantil. A penúltima página, a “Atualidades” fala sobre o Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) e a “Raízes”, sobre o cartaz que o jornal estaria enviando aos assinantes em comemoração não só ao “novo Djumbay”, mas também pelo ano do tricentenário da morte de Zumbi. Ainda nessa página, Verônica Gomes homenageia o aniversário de 50 anos da atriz Ruth de Souza. A oitava página só possui anúncios da próxima edição, do show “Reggae na Cidade” e da assinatura do jornal.

  • Jornal Djumbay – Vigésima Segunda Edição

Publicada em Agosto de 1995, também possui 8 páginas e segue a mesma linha da nº 21. A seção “Editorial” traz a matéria “Uma noite no Quilombo com o Ylê de Egbá”, de Verônica Gomes, que fala sobre o Afoxé Ylê de Egbá e a participação deste no Projeto Kizomba Njinga-Zumbi. A matéria seguinte, da seção “Fala Negritude”, trata da homenagem a Solano Trindade que seria realizada no evento do projeto supracitado e coloca relatos de militantes, amigos e familiares de Solano. Na seção “Crenças”, Lepê Correia procura desmistificar a imagem de Exu como demônio: “Exu é o princípio da existência diferenciada”.  A “Outros Axés”, em matéria de Glaucia Maria, conta sobre o forrozeiro paraibano que redimensionou e reafirmou o forró de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro.

Na seção da página 5, “Fundamentado”, Lepê Correia trata da Pedagogia Interétnica, que é centrada na modificação de “comportamentos preconceituosos”, com metodologia de cunho interdisciplinar. A “Negritude Lúdica” traz um jogo para as crianças e como sugestão de leitura, o livro “Liberdade – O Sonho dos Palmares”, da autora Jussara Rocha Koury. Na sétima página, a seção “Atualidades” anuncia a entrega do Manifesto de Reivindicações do Povo Negro ao Poder Executivo da Presidência da República e evidencia a participação das entidades negras nacionais. A “Raízes” fala mais um pouco sobre a série de Vídeo-debates do Djumbay, que seriam mostrados para os estudantes do Recife. Por fim, na última página, além dos anúncios normais, também é divulgado o curso de “Africanidade e Afrodescendência”, ministrado na UFCE.

  • Jornal Djumbay – Edição Especial de 1995

Nessa edição de 4 páginas, a temática central foi o 1º Encontro de Reggae, realizado pela África Produções, e que contou com Êxodus, Alphorria, Tribo de Jah, Favela Reggae, Edson Gomes, Marcelo Santana & Bando do Reggae, Lazzo, Dionorina, Coração Tribal, Rebel Lion, Valdi Afonjá, Nikko e a YingYang Band, José Mário Austregésilo e Rádio Cidade. As bandas e artistas contam um pouco das suas relações com o reggae e falam também da importância desse estilo no Recife. No final da edição, ainda há um breve comentário sobre a criação e as perspectivas da África Produções.

Jornal Djumbay – Vigésima Edição

Depois de um grande hiato desde a edição de número 19, em Junho de 1995, a edição nº 20 finalmente chega ao público. Publicada em formato tablóide, é a primeira edição com capa colorida. Possui o dobro de páginas (16) das edições anteriores, uma nova disposição de seções e nova diagramação. Já na seção “Editorial”, são mostradas algumas mudanças na diagramação e a inclusão de três novas seções: “Atualidades”, “Negritude Lúdica” e “Extraordinária”. A página 3, com a seção “Resistência”, traz duas matérias: uma que fala sobre a história do início do quilombo dos palmares, e outra sobre o Centro Cultural Daruê Malungo, que se localizava no bairro de Chão de Estrelas, e cujo objetivo era atingir a profissionalização de crianças e jovens da comunidade através das artes. A “Identifique-se”, também com duas matérias, trata do cenário musical, traçando a formação da “África Produções” – produtora voltada para o público do reggae – e fala sobre o show de Edson Gomes promovido em Recife graças a essa produtora. A “Crenças” divulga uma nova série de estudos, debates, aulas e teses sobre religiões asiáticas e africanas que aconteceriam na UERJ; também se fala mais uma vez sobre o Memorial da Nação Xambá [1]. A “Fala Negritude” traz uma entrevista exclusiva com o cantor africano Alpha Blondy, que veio ao Recife para realizar um show. A “Baseado” põe em pauta o delicado tema da “faxina étnica” e expõe como isso é realizado no Brasil.

A nova seção “Atualidades” traz o caso do jornalista negro Wesley “Abu-Jamal” Cook, acusado de assassinar um policial branco e condenado à morte na cadeira elétrica. Essa matéria divulga a campanha feita para exigir uma revisão do caso pelas autoridades. Em seguida, o Djumbay faz a campanha da senadora Benedita da Silva, senadora do PT-RJ que apoiava a libertação de Cook, alegando que a punição dada a ele tem caráter claramente racista. A seção “Negritude Lúdica” traz desenhos de instrumentos para colorir, sugestão de leitura do livro “Atabaque Menino” e palavras cruzadas. A “Outros Axés” fala sobre uma escola alternativa que utiliza cultura e ensino alternativo para estimular a expressão das crianças. Também coloca uma matéria sobre a ocarina, instrumento feito de barro, propagado por Mestre Nado aqui no Nordeste. Ainda nessa seção, duas pequenas matérias falam sobre a 1ª Conferência Sindical Interamericana Pela Igualdade Racial e sobre o tema da campanha salarial do SINTEPE, que foi “A educação do centro das atenções”. Na página seguinte, a seção “Afins” coloca 4 matérias diversificadas. Uma é sobre uma universidade dirigida por negros que surgiu da ideia inicial de ensinar ex-escravos a ler e escrever e que passou a se destacar pelo alto nível de ensino; outra é sobre o jornal “Abibimam”, publicado pela Associação de Resgate da Cultura Afro em Arcoverde-PE e há também uma sobre a revista norte-americana “Emerge”, voltada para o público negro. Por último, há ainda nessa seção uma homenagem os 4 anos de existência da entidade “Soweto: Organização Negra”, cujo nome é uma referência ao levante de Soweto, na áfrica do sul, em resistência à morte de 600 militantes negros que reivindicavam seus direitos durante o período do apartheid em 1976.

A seção “Raízes” anuncia que o Fórum de Entidades Negras de Pernambuco entregara o Projeto Njinga-Zumbi – Educação do 3º Milênio” ao antigo prefeito do Recife, Jarbas Vasconcelos. Esse projeto tinha o objetivo de oferecer uma “educação complementar através da utilização de instrumentos pára-didáticos que tenham a Arte e Cultura Negra como ponto primordial[…]”. Nessa parte ainda é divulgado o subprojeto do Njinga-Zumbi: o evento KIZOMBA NJINGA-ZUMBI, de cunho político, artístico e cultural. Como o nome “Kizomba” já indica, esse evento foi uma “festa” para divulgação de trabalhos e outros projetos envolvidos na causa negra. Por fim, essa seção ainda traz uma nota sobre o gradativo empoderamento da mulher negra e fala que a equipe do Jornal Djumbay é composta, em sua maioria (80%), por mulheres. Na página 13, a seção “Extraordinária” faz um traçado da imprensa negra. Nessa matéria, o Djumbay menciona o Jornal Angola, o Negração, o Negritude, o Omnira, o Afro reggae, entre outros. Dentro dessa temática, o jornal ainda lança uma nota em que propõe a realização do 1º Seminário Nacional da Imprensa Negra.

Ainda na seção “Extraordinária”, porém na página seguinte, o jornal, na “Vitrine Afro-Pernambucana”, que aparece como uma subseção nessa edição, divulga e sugere a leitura dos livros Caxinguelê (Lepê Correia), As Senhoras do Pássaro da Noite (organizado por Carlos Eugênio Marcondes de Moura) e OBI – Oráculos e Oferendas (Jorge Morais), além do LP Rebeldia e Dança, de Ívano e Banda Rebeldia. Na mesma seção, agora na página 15, fora colocada uma matéria de Nei Lopes – advogado e assessor da presidência da Fundação Cultural Palmares do MinC – na qual ele refuta a tese do “líder homossexual” – nas palavras do próprio Nei – Luiz Mott, sobre a homossexualidade de Zumbi. Por fim, a última página também coloca uma subseção intitulada “Espaço do Leitor”, na qual convida os leitores do Djumbay a escreverem para o jornal na “Fala Negritude” e participarem da construção através de críticas, elogios, divulgações, etc.

Jornal Djumbay – Décima Terceira e Décima Nona Edição

  • Jornal Djumbay – Décima Terceira Edição

Publicada em Fevereiro/Março de 1994. Conselho Editorial: Edmundo Ribeiro, Daniel Silva, Gilson Pereira, Glaucia Gurgel, Irismar Silva, Lepê Correia, Rosilene Rodrigues, Silvio Meirelles, Verônica Gomes.

A seção “Editorial” inicia a edição com um texto lúdico sobre a Cultura Afro e o negro no Carnaval. A “Identifique-se” anuncia o concurso de beleza “Garota Raça Negra”, organizado pela Gigantes do Samba, sob a manchete  “Ser negra é lindo”. A seção resistência relembra e homenageia a figura de Solano Trindade, grande poeta negro recifense, mas que não recebera o devido reconhecimento. Nas páginas 4 e 5, a seção “Baseado” nos mostra a história da Rainha Nzinga, princesa angolana do Matamba que recebeu treinamento e se tornou uma grande guerreira, disputando o trono posteriormente com seu irmão e se tornando a Rainha Nzinga, importante figura da resistência aos portugueses do século XVI, em Angola. Ela também influenciou fortemente as formas de luta locais, inclusive nos quilombos brasileiros, que eram bastante semelhantes aos quilombos angolanos.

Na página 6, a temática política se encontra presente tanto na seção “Crenças” como na “Afins”. A primeira coloca sob a manchete “Valor político da Religião” a discussão sobre a resistência negra no Brasil e a exaltação de Zumbi não só como figura histórica, mas como parte de um cenário político que influencia nas estruturas modernas. A “Afins” denuncia Eliel Rodrigues – Deputado Federal pelo PMBD do Pará em 1994 –, que propôs eliminar o artigo 68 da Constituição, o qual garante aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras, que estas sejam reconhecidas como propriedades definitivas. A “Raízes” comemora os dois anos de publicação do Djumbay e anuncia a entrada de Glaucia Gurgel e Silvio Meirelles na equipe do jornal. A “Fala Negritude” desta edição traz uma matéria em colaboração com o Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (SINTAEMA) sobre a história do dia 8 de Março, no qual houve um protesto de trabalhadores têxteis que terminaram sendo mortas por um incêndio proposital na fábrica Cotton em 1857. A data fora reconhecida na II Conferência Mundial de Mulheres Socialistas.

  • Jornal Djumbay – Décima Nona Edição

De Setembro de 1994, essa edição já entra nas últimas fases do Djumbay. Com tiragem de 10.000 exemplares – o quádruplo da edição de número 13 – e com Conselho Editorial formado por Claudia Regina, Daniel Silva, Gilson Pereira, Glaucia Maria, Irismar Silva, Lepê Correia, Rosilene Rodrigues, Verônica Gomes, é a última publicada no ano de 1994.

A seção “Editorial” fala um pouco sobre a edição como um todo: das matérias aos anúncios. A “Resistência” fala sobre o livro “Os negros do riacho”, escrito por Luiz Carvalho de Assunção, no qual ele conta a história de um grupo de famílias de negros descendentes de um ex-escravo chamado Trajano Lopes da Silva no município de Currais Novos-RN. A “Baseado” traz um importante debate sobre o voto negro, a importância do voto consciente da população negra e coloca como exemplo a eleição de Nelson Mandela na África do Sul. A seção “Crenças” anuncia o 1ª Encontro da Tradição Orixá “Desenvolvimento dos Cultos Afro em Sergipe”, coordenado pelo Instituto Nacional da Tradição e Cultos Afro-brasileiros (INTECAB/SE). A “Outros Axés” põe em pauta o descaso que havia com o Teatro do Bonsucesso e o ato organizado pela Associação de Teatro de Olinda na tentativa de exigir que as autoridades públicas tomassem a iniciativa de reformá-lo. Por fim, a “Raízes” divulga que os fóruns estaduais da Coordenação de Entidades Negras se reuniram em Setembro para avaliar o I Seminário de Planejamento Estratégico da Coordenação Nacional de Entidades Negras.

Jornal Djumbay – Décima Primeira e Décima Segunda Edição

  • Jornal Djumbay – Décima Primeira Edição

De Outubro/Novembro de 1993. A seção “Editorial” fala sobre o Seminário da CUT que discutiria sobre o racismo e também critica a falta de sindicatos pernambucanos no evento. A “Identifique-se” traz uma matéria de Sam Ford, correspondente internacional do Djumbay nos EUA, falando sobre os 30 anos da Marcha sobre Washington, uma caminhada pelos direitos civis dos negros em uma época de apartheid. A “Resistência” anuncia a oficialização da Semana da Consciência Negra em Camaragibe. A “Baseado” pauta uma matéria de Francisco C. Weffort, professor da USP, na qual ele defende que há um apartheid  social e racial no Brasil, mais escondido que o americano e o sul-africano, mas tão ruim quanto. Também há uma notícia sobre o recebimento do Nobel da Paz por Mandela e De Klerk.

A seção “Crenças” divulga o livro OBI – Oráculos e Oferendas, de Jorge Morais, fundador do Alafin Oyó e a “Afins” coloca em pauta novamente a discussão sobre a Serra da Barriga, dessa vez levada ao Seminário de Valorização Histórica, Turística e Cultural da Serra da Barriga. A “Raízes” traz uma matéria sobre a Medicina Natural e a “Outros Axés” parabeniza o cantor Ednaldo Lima pelos 17 anos de carreira e também anuncia a ampliação dos prazos do IV CAB.

  • Jornal Djumbay – Décima Segunda Edição

Publicada na transição de 1993 para 1994, essa edição traz mais uma modificação: passa a ser uma publicação da Djumbay – Organização pelo Desenvolvimento da Arte e Cultura Negra. O Conselho Editorial permanece o mesmo das últimas edições. A seção “Editorial” expõe o problema da lei 7.716, que teoricamente deveria proteger a vítima de racismo, mas que funciona muito mal, como no caso do Kléber, constrangido pela gerente do banco, cujo caso foi arquivado por falta de provas. O curioso é que na edição de nº 9, a matéria que traz esse caso, coloca que a gerente fora condenada, mas nesta edição, a informação é de que o caso fora arquivado. Tudo isso em um período de menos de um ano. A “Resistência”, sob a manchete de “20 de novembro é festa para a negrada”, fala sobre a participação do Djumbay no FECONEZU (Festival Comunitário Negro Zumbi), sobre as exposições “História, Arte, Comunidade e Movimento do Povo Negro no Brasil” em Brasília e também sobre o Movimento Afro-Pernambucano, formado por diversas entidades, dentre elas o Djumbay e o MNU. Além dessa vertente cultural, o Djumbay também esteve presente no ato organizado pelo Movimento Afro-pernambucano em frente à Câmara dos Deputados.

A “Baseado” apresenta as mudanças e realizações do Djumbay para além do jornal. Fala sobre a ênfase dada à Arte e Cultura negra, as diretrizes da organização e a preocupação em participar de eventos da militância. A “Crenças” divulga o jornal “U&C – Ciência, Cultura e Magia”, que possuía matérias específicas sobre a religiosidade afro. A “Afins” anuncia uma cartilha para orientação de mulheres contra a violência, organizada pela Sociedade Afro-Sergipana de Estudos e Cidadanias. Na “Raízes” o jornal escreve novamente sobre o lançamento do livro OBI e, na “Fala Negritude”, vemos uma matéria sobre o despejo do Grupo Afro Axé da Lua por causa de irregularidades na casa em que funcionavam. Com os 300 anos da morte de Zumbi se aproximando, o Djumbay também divulga nessa edição que lançará um encadernado com as 10 primeiras edições e que essa Coletânea iria se somar ao acervo de Bibliotecas e Arquivos Públicos, complementando cada edição com uma apresentação e histórico do jornal.

Jornal Djumbay – Nona e Décima Edição

  • Jornal Djumbay – Nona Edição

Essa foi a terceira edição lançada no ano de 1993, durante o mês de Maio, e traz o mesmo Conselho Editorial das edições passadas. Ela tem “Instituto da Mulher Negra (SP) Ameaçado por Neonazistas” como manchete principal. A “Editorial” fala da luta encabeçada pelo MNU para tornar o dia 13 de Maio um dia de Debate e Denúncia Contra o Racismo. A “Resistência” põe em pauta o caso de racismo da gerente de banco Ezilda Monteiro em relação ao empresário negro Kléber José de Oliveira. Ela, desconfiando que um negro seria incapaz de trabalhar com um alto montante de dinheiro, o denunciou e constrangeu. Kléber processou a gerente e ela fora condenada à prisão.

A seção “Baseado” traz a matéria “Memória do Quilombo do Catucá em Pernambuco”, do professor Marcus Carvalho, do departamento de História da UFPE; o Quilombo do Catucá foi o maior quilombo pernambucano do século XIX, que mostrava certa estabilidade social dentro daquela comunidade e até hierarquias bem definidas. Ele fora destruído após a Cabanada (1832-1835) e seu ápice parece ter sido depois da Confederação do Equador (1824). É, portanto, símbolo essencial da resistência quilombola pernambucana. Na “Crenças”, aparece mais uma notícia da Casa de Xambá [1], a qual receberá um Memorial, o “Memorial Severina Paraíso da Silva” (Mãe Biu) que contaria com exposição de fotos, livretos e documentos sobre religião afro e da casa Xambá. A “Fala Negritude” traz uma denúncia aos ataques de grupos de skinheads adeptos do neonazismo ao Geledés e ao crescimento desses grupos no Brasil. A “Outros Axés” divulga o lançamento do livro “Caxinguelê”.

  • Jornal Djumbay – Décima Edição

Publicada em Junho/Julho de 1993, é nessa edição que o Djumbay passa a ser uma produção da Djumbay Organização pelo Desenvolvimento da Comunidade Negra. A seção “Editorial” faz um chamado para a população negra se inteirar dos seus direitos com o objetivo de atingir a revolução social necessária para impedir o alastramento do racismo e da hipocrisia judiciária. A “Identifique-se” divulga a volta da circulação do boletim informativo Negritude, do MNU-PE, que passara 2 anos sem circular e voltou no mês de Junho/Julho de 1993, com tiragem inicial de 1000 exemplares distribuídos gratuitamente. A seção “Resistência” fala sobre o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), que recebeu a primeira oficina de capoeira angola e que, ao final dela, o Mestre Moraes – que fundou o Grupo no Rio de Janeiro – comunicou que seria criado um núcleo do GCAP em Olinda.

A seção “Baseado” coloca em pauta o I Seminário Nacional da União de Negros pela Igualdade, que ocorreu na UFBA, e na qual um tema largamente discutido foi a terceira grande onda de racismo que atingia a sociedade da época através da dizimação de povos não brancos, escassez de trabalho, esterilização das mulheres negras, etc. A “Afins” também trata de um Seminário, o SENUN (Seminário Nacional de Universitários Negros) que também ocorreu em Salvador-BA, de 3 a 7 de Setembro de 1993. A “Raízes” fala sobre a parceria do Djumbay com o Afro-Camarás em um debate sobre a realidade negra juntamente à exibição de um curta-metragem sobre o tema na IV Conferência Estadual de Educação, que ocorreu de 28/06 a 01/07 de 1993; a Mostra de Vídeo-Debates “Realidades Negras” seria itinerante a partir dessa divulgação e circularia por sindicatos falando sobre a questão do trabalho e do negro. A “Fala Negritude” apresenta uma entrevista feita com Carlinhos Brown, na época integrante do Timbalada, falando sobre ritmo e instrumento.

No entanto, e com grande pesar, é também nessa edição que o Djumbay anuncia a morte de Vicente Lima praticamente um ano depois da primeira edição do jornal, na qual continha uma entrevista com ele.