Jornal Angola

“Angola” nosso Jornal de Umbanda e Candomblé é um informativo do Centro de Cultura Afro- Brasileira – CCAB. O jornal tinha como finalidade ser um órgão de divulgação de informações sobre encontros, festas e sobre a cultura para a comunidade afro-brasileira de Pernambuco. Trazendo, principalmente, informações acerca do universo religioso, como fica exposto em seu subtítulo. Entrou em circulação em maio de 1981, em Recife. Cada exemplar do Angola contém quatro páginas, impressas em offset em preto e branco, com exceção da edição especial de 2007 que saiu em formato A3 e com duas páginas, as demais tinham formato A4. (QUEIROZ, 2011, p. 536).

De acordo com a historiadora Martha Rosa Figueira Queiroz, Doutora em História pela Universidade de Brasília, em sua primeira edição o jornal era identificado da seguinte maneira “Angola. Um boletim da Boca do Povo Serviços Ltda – Praça Coronel João Lapa, 94 – Varadouro Olinda – CEP 53.000 Conselho Editorial: Edvaldo Ramos e Jorge Morais.” Entretanto, ocorreram mudanças cinco anos após esse número e a frase “Boca do Povo Serviços Ltda” deixou de ser citada e o endereço do jornal foi alterado para a Rua do Riachuelo, 105 – 10º andar – sala 1017, onde ficava o escritório de um dos fundadores do jornal o advogado Edvaldo Ramos.

Sobre Edvaldo Ramos e Jorge Morais, fundadores do Angola, pode-se afirmar que eram homens ativos na luta contra o preconceito racial, envolvidos não só com a produção desse jornal como em outras colunas, como a publicada no Diário da Noite chamada “Umbanda e Movimento Negro” anterior à criação do Angola. Eles ainda atuavam em outras áreas, por exemplo, Ramos foi presidente da União das Escolas de Samba de Pernambuco e presidente do Centro de Cultura Afro-Brasileira (CCAB). Morais atuou como o primeiro presidente do Afoxé Alafin Oyó, que surgiu no ano de 1986, além de ter sido militante do Movimento Negro do Recife e do Movimento Negro Unificado/PE.

Sobre o Centro de Cultura Afro-Brasileira é possível afirmar que foi fundado no final da década de 1930, de acordo com Maria Auxiliadora da Silva em 1936 (SILVA, 1994, p. 64) e segundo Fátima Aparecida da Silva em 1937 (SILVA, 2008, p. 11), após o fechamento da Frente Negra Pernambucana, criada em 1934. Teve como um de seus fundadores José Vicente Lima, militante que lutou contra o preconceito e pela projeção social do negro. Em uma entrevista publicada na primeira edição do informativo Djumbay, em março de 1982, Lima afirma, aos 81 anos, que a instituição “surgiu para elaborar estudos e pesquisas sobre a cultura afro-brasileira” (DJUMBAY, nº1, mar/1982). Promovendo a valorização e divulgação da cultura negra.

Serão disponibilizados nessa postagem dois exemplares do Angola o n°4, de abril de 1989, e o n°7 de julho do mesmo ano.

  • Angola Nº4 de 1989.

A edição nº4 traz em seu Editorial informações sobre a história do Angola e de suas dificuldades financeiras. Escrito por Jorge Morais, o Editorial conta que após a publicação do n°3 do jornal houve uma dificuldade imensa para a produção do número seguinte, em razão da falta de dinheiro e reafirma a importância do apoio da comunidade na luta contra o preconceito. Os Editoriais de edições anteriores não contavam com a assinatura de um autor, apenas com um título “AXÈ”.

Nesta edição o jornal traz informações acerca do I Encontro Estadual da Tradição dos Orixás, que se realizaria no período de 4 a 6 de agosto de 1989, no Centro de Convenções de Recife. Segundo a matéria, esse encontro teria um valor incalculável para a comunidade religiosa do estado de Pernambuco. O Angola continuou em outras edições trazendo informações obre o evento.

Este número contou com uma entrevista com o Babalawo Ajibola Badiw da Nigéria sobre, “As várias faces de Exu – Mensageiro dos Orixás, guardião dos limites.” Essa entrevista tem como escopo desconstruir a imagem deturpada de Exu, estabelecida há muitos anos em razão do sincretismo com a doutrina católica e da falta de conhecimento de alguns babalorixás. Não é informado na edição o entrevistador.

Ainda sobre o nº4, ele conta também com uma seção denominada Adarrum, que traz notícias sobre as festividades e rituais das casas de culto dos orixás de Pernambuco.

Esta edição também traz um artigo, denominado “81 anos de um culto brasileiro como surgiu a Umbanda em nosso país”, da pesquisadora Thereza Saidenberg sobre o surgimento da Umbanda no Brasil em 1908. Esse artigo teve a sua continuação no n°5 do Angola.

A edição traz ainda um agradecimento à vereadora Geralda Farias pelo apoio a comunidade.

Nº4:

 

  • Angola Nº7 de 1989.

O nº7 do jornal Angola traz em seu Editorial, assinado por Jorge Morais, uma reflexão acerca da dificuldade em promover a cultura negra no Brasil, quando se pretende ir além da questão folclórica, ele ainda enfatiza a necessidade de mostrar a comunidade negra sua força política.

Nesse exemplar é divulgada a programação do I Encontro Estadual da Tradição dos Orixás, além de informações básicas como o local de inscrição, preço da inscrição, transporte e alojamento dos participantes e sobre o certificado oferecido ao final do encontro.

Essa edição traz um artigo sobre Oxum, Orixá feminino, que segundo a matéria é bastante cultuado e conhecido no Brasil, sendo associado à maternidade. Não é informado o autor da matéria.

A coluna Adarrum também está presente trazendo informações acerca de eventos religiosos.

Vale ressaltar as propagandas presentes nesse exemplar, em sua maioria de artigos religiosos como “Casa Preto Velho Ltda”, “A Brasileira” tecidos e complementos, que segundo o anúncio é a preferida dos umbandistas e “Livro 7” livros de umbanda e candomblé.

N°7:

 


Referências:

  • DJUMBAY, nº1, mar/1982.
  • QUEIROZ, M. R. F. 2011. Do Angola ao Djumbay: imprensa negra recifense. Cad. Pesq. Cdhis v. 24 n.2.
  • SILVA, M. A. G. da. 1994. Encontros e desencontros de um movimento negro. Fundação Cultural Palmares. Brasília.
  • SILVA, F. A. 2008. A Frente Negra Pernambucana e sua proposta de educação para a população negra na ótica de um dos seus fundadores: José Vicente Rodrigues Lima – Década de 1930. Tese de Doutorado em Educação. Universidade Federal do Ceará, Fortaleza.