Archive for agosto de 2011

Gilberto Gil encara discussões sobre refluxo autoritário na internet

Via Estado de São Paulo em 22/08/2011.

A temperatura caiu, mas o debate esquentou nos trópicos. Na semana passada, o cantor Gilberto Gil, de 69 anos, estrelou o primeiro festival youPIX, de cultura da internet, em São Paulo. O ex-ministro da Cultura volta à cidade nesta quarta, às 20 h, para discutir criatividade, tecnologia e políticas públicas no Auditório Ibirapuera (ao lado de Lawrence Lessig, do Creative Commons, e Danilo Miranda, do Sesc São Paulo). Incansável, na quinta-feira, no Rio, ele debate com o filósofo tunisiano Pierre Lévy o conceito de cibercultura, no Oi Futuro, no Flamengo, às 19h30.

Gil diz que vai abordar, entre outras coisas, a “tentativa do meio econômico de reduzir a realidade do ciberespaço ao modelo anterior, e ao mesmo tempo os avanços provocados pelo uso libertário do ciberespaço”. Há uma expectativa de que Gil comente os rumos do MinC na gestão Ana de Hollanda, mas suas intenções são outras.

“Não acho que esses encontros com o Pierre e o Lessig se devam à necessidade de discutir a questão brasileira. São encontros globais. Claro que a questão brasileira entra, eles estão aqui, nós estamos no Brasil. Mas essas coisas são transnacionais, e as questões brasileiras são hoje comuns no mundo inteiro – o retrocesso na França sob o governo Sarkozy, as declarações do premiê inglês (David Cameron, que fala em censura na internet). Tudo parecido, tudo se parece com o projeto Azeredo (senador Eduardo Azeredo, do PSDB de MG, cuja lei pretende tipificar na legislação brasileira os crimes cibernéticos)”.

O mundo está agitado. Na Inglaterra, estão prevendo um regime de exceção na internet…

Mas é essa possibilidade que a Lei Azeredo tenta garantir. É a questão da troca da liberdade por facilidades, por conectividade. O sentido civil da importância do ciberespaço fica secundarizado, torna-se tudo utilitarista, a fruição utilitarista da tecnologia – aparelhos cada vez menores, mais baratos, mas cada vez com possibilidades mais restritivas. Hermano Vianna fala do fechamento do interesse empresarial, produtivista, capitalista, imperialista, etc, sobre a dimensão libertária do ciberespaço. É um momento grave, importante. Porque, à sombra dessa árvore aprazível, da utilidade ciberespacial, está toda a questão da liberdade.

Como ministro da Cultura, você levou o debate para dentro do Estado. E agora esse debate recrudesceu dentro do governo. Ou você não pensa assim?

Isso vai de personalidades. Eu pessoa, artista, ente criativo, tinha interesse em me colocar pessoalmente nessa discussão. Não só o ministério, mas também meu empenho pessoal. É diferente da ministra de hoje. Ela não sou eu, ela é ela. Ao mesmo tempo, você tem coisas que têm crescido. Há um comitê interministerial que discute a propriedade intelectual de um modo amplo, desdobramentos positivos, importantes. A questão avança. A própria presidente da República tem um interesse cada vez maior que essas coisas se desdobrem. Há retrocessos e há avanços, é sempre assim. Muita coisa se passa à sombra, positivas e negativas. Tudo isso está em jogo dentro do Estado, fora do Estado. Essa coisa de ficar vendo “ah, o ministro tal”… O jogo é muito maior, envolve todo mundo, aquilo que o próprio Lévy chama de “as correntes turbilhonantes do novo dilúvio”. É um novo momento da cultura humana. O computador e o ciberespaço reeditam um potencial revolucionário que teve a criação da imprensa, o papel impresso. Esse momento da história da mundo é maiúsculo.

Acha ele comparável a algum outro momento histórico que tenhamos vivenciado?

Não. É muito particular. É a ciência desembocando em situações ainda desconhecidas, novas. O social também, o político, a questão dos direitos. As universalidades, como o próprio Lévy diz, ou “as universalidades sem totalidade”. Isso é uma novidade. Porque as sociedades fechadas, num primeiro momento da cultura oral, viviam a totalidade sem universal, como ele diz. Num segundo estágio, imperialista, sendo usuárias da escrita, fizeram surgir o “universal totalizante”. E agora, com a cibercultura, a pós-ciência, a nanodimensão, a globalização concreta da sociedade, inventam o universal sem totalidade. E isso é muito novo. E as reações são essas. O imperialismo, o capitalismo clássico, tendem a querer puxar tudo para o totalizante anterior, não querem saber dessa visão fragmentária, tudo como foi previsto em Suberbacana, do Caetano, “os estilhaços sobre Copacabana”. O tropicalismo é isso, o tropicalismo viu isso, especialmente Caetano, com sua inteligência agudíssima. Ele viu essas coisas todas, colocou na ação, na canção, e foi aquele pandemônio. O ciberespaço faz isso. A pós-modernidade é assustadora, vem chacoalhar a coisa toda.

Você, quando começou a aliar sua arte com sua posição política, ativista, começou também a aliar a reflexão teórica do mundo à ação. Como seu esforço de lançar sua obra completa em aplicativo para iPad e iPhone…

É a atualização do esforço que já vem sendo feito há pelo menos 20 anos, desde que eu inaugurei, fiz o primeiro site institucional de um artista. Coloquei no meu discurso a defesa e a apologia das grandes novidades. Isso vem desde Lunik 9 e Cérebro Eletrônico. Sempre fui apaixonado pela atualização.

E agora veio a Björk com o aplicativo dela, outra atualização.

E o dela é lindo, não? É uma coisa. Já é uma escultura no ciberespaço, é uma instalação multidimensional, belíssima. Do ponto de vista estético, é um avanço extraordinário. Ela sempre foi assim. Tem uma visão estética, e ao mesmo tempo profunda, da cultura em geral.

E ao mesmo tempo, a gente vê alguns artistas de relevo na cultura brasileira tentando tirar o atraso. É o caso do Chico Buarque. Ele surpreendeu você, não?

Bacana, bacana. Ele tá associado afetivamente a uma pessoa nova, uma menina (a cantora Thaís Gulin), que lida com essas coisas, trabalha nesse campo das novas linguagens. Ele foi estimulado por isso, pelo próprio amor, não é? (risos). Inteligente e culto como ele é, não ficou de fora. Caetano também, quando veio para trabalhar no ciberespaço, lançou o disco por meio do blog Obra em Progresso. É isso. A mim coube exatamente o papel de arauto, o que sai na frente tocando a corneta. Agora os meninos todos vêm.

E a saída de Marina do Partido Verde? Catalisou uma vontade nacional, e usou o PV para tentar a sua aventura. E agora ela saiu…

Ela acabou constatando que o PV ainda é, instrumentalmente, um partido desqualificado, sem ferramental moderno, sem quadros de personalidade, dirigentes e etc. Constatou o que eu já tinha constatado há muito tempo: o Partido Verde não dá, né, no Brasil? Nas mãos de quem ele ficou, não dá. É um partido sem elã, sem pacto, sem gosto pela defesa dos seus próprios postulados fundadores. Um partido que caiu numa esparrela, ficou ali, meio bobinho.

E agora?

Agora não sei. Não sei como ela vai fazer, se vai se empenhar pela criação de um novo partido, de uma nova possibilidade, ou se vai achar uma brecha num dos partidos que já existem, no sentido de encaixar uma vertente modernizadora. No próprio PT, no PSDB, no PSD, qualquer um desses. E há a Dilma se aproximando do PSDB, tentando reeditar uma expectativa que já houve, no Brasil, de que os dois partidos de centro-esquerda se juntassem para alavancar um processo modernizador de fato na política. Marina também está vendo, como eu, tudo isso que está acontecendo, e vai se mexer.

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Música: a fronteira do futuro – Criatividade, Tecnologia e Políticas Públicas

Evento, que faz parte da Série Pensar Música, traz ainda Ronaldo Lemos,Danilo Miranda, Claudio Prado, Sergio Amadeu e Ivana Bentes.
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Dia 24 de agosto, às 20 horas, não acontece nenhum show no palco do Auditório Ibirapuera. Ao invés disso, professores, músicos e profissionais do ramo reúnem-se para discutir o futuro da música no seminário “Música: A Fronteira do Futuro – Criatividade, Tecnologia e Políticas Públicas”, parte do projeto Série Pensar Música. Para debater o tema estarão presente no evento: Lawrence Lessig, um dos fundadores da Creative Commons, organização sem fins lucrativos que propõe a distribuição de cópias e compartilhamentos de obras criativas por licenças menos restritivas; Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas e diretor do Creative Commons Brasil; Gilberto Gil, músico e ex-ministro da Cultura; Danilo Miranda, diretor do SESC-SP; Claudio Prado, da Casa de Cultura Digital; Sérgio Amadeu, Sociólogo, Doutor em Ciências Políticas e professor; e Ivana Bentes, professora e pesquisadora da pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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O objetivo do encontro é repensar o ambiente institucional, legal e econômico para o setor musical, que vem mudando com a democratização de tecnologias da informação, o acesso ao conteúdo e as novas possibilidades de produção e consumo. A Série Pensar Música é um projeto do Auditório Ibirapuera que promove a reflexão sobre o universo musical através de filmes, debates e encontros abertos ao público, com apoio da Lei de Incentivo a Cultura – Lei Rouanet. O evento será gratuito até a lotação dos 800 lugares da casa.
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O Auditório Ibirapuera vai disponibilizar 200 fones de tradução simultânea por ordem de chegada.
O evento é uma realização do Centro de Estudos do Auditório Ibirapuera em parceria com o Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio, com o Instituto Overmundo e com a Casa de Cultura Digital.
AUDITÓRIO IBIRAPUERA
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Capacidade: 800 lugares
Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 2 do Parque do Ibirapuera.
Informações: info@auditorioibirapuera.com.br
Informações: 3629-1014 – Priscila/ 3629-1075 – Luciana
Site: www.auditorioibirapuera.com.br

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TENDÊNCIAS/DEBATES – As razões do diálogo com os hacker

ALOIZIO MERCADANTE . Via Folha de São Paulo.

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A capacidade criativa desses coletivos de desenvolvedores de tecnologia precisa ser incentivada, pois pode nos gerar inovações importantes


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À medida que o acesso à internet se torna realidade em todas as camadas sociais, milhões de novos usuários desfrutam de suas facilidades e de seu potencial transformador. Ao mesmo tempo, aumenta a dependência da sociedade em relação à rede. Atualmente, mais de um terço das operações financeiras são feitas de modo virtual, e serviços essenciais de energia, de trânsito e de comunicações dependem cada vez mais dela.

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Esses setores podem sofrer ataques cibernéticos com consequências imprevisíveis, e também o Estado brasileiro precisa se precaver. Por isso, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Ministério da Defesa estão trabalhando juntos para o desenvolvimento de tecnologias que permitirão prevenir, defender ou restabelecer serviços essenciais afetados por ataques dos chamados crackers.

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Os crackers são criminosos, muitos dos quais nem mesmo sabem programar, sendo usuários avançados de softwares que não necessariamente desenvolveram.
Já os hackers são decifradores, desenvolvedores de softwares e hardwares que permitem adaptação ou construção de novas funcionalidades. Em geral, são jovens autodidatas e criadores de soluções inovadoras para a utilização de tecnologias da informação.

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Quase todas as relações sociais existentes na sociedade existem na rede, inclusive os crimes. No entanto, não podemos iniciar um processo de cerceamento das liberdades na internet e de criminalização generalizada por episódios localizados, ainda que preocupantes, tampouco contribuir para simplificar o significado do movimento libertário e transformador que representa a comunidade hacker.

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Esse movimento começou nos anos 1960, influenciado pela contracultura. O sociólogo Manuel Castells, em seu livro “A Galáxia da Internet”, deixou claro que a cultura hacker foi uma das formadoras da internet. A rede mundial de computadores não era o único modelo de rede digital. A França possuía a rede Minitel, completamente centralizada e fechada.

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Já a internet tem sua inteligência distribuída, é completamente aberta, o que permite que hackers continuem criando soluções inovadoras, como as redes P2P, (do inglês “peer-to-peer”), sistema que permite o compartilhamento de informações conectando dois clientes e transformando o cliente em servidor e vice-versa. Isso a consolidou como uma rede sem centro, sem dono, cuja inteligência encontra-se nas máquinas dos usuários.

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A experiência e a genialidade dos criadores de códigos não podem ser ignoradas. No início de julho, estive no Fórum Internacional de Software Livre, em Porto Alegre. Temos jovens desenvolvendo ciência e tecnologia fora da academia e das grandes empresas, hackers éticos que querem mais transparência e participação na relação com o Estado.

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A capacidade criativa desses coletivos de desenvolvedores de tecnologia precisa ser reconhecida e incentivada, porque ela pode gerar inovações importantes para o nosso país. Felizmente, a ciência comunitária e as tecnologias livres avançam, contribuindo para derrubar ditaduras e o pensamento conservador e preconceituoso.

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Agora, no Brasil, a cultura hacker terá o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Estamos desenvolvendo um conjunto de políticas públicas para que essa promissora comunidade possa contribuir para o desenvolvimento de novas tecnologias e soluções para a sociedade.


ALOIZIO MERCADANTE, doutor em economia pela Unicamp, é ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação.

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[off topic] COMO TRAPACEAR E SE MANTER ÉTICO AO MESMO TEMPO

Em tempos de Plano Nacional de Banda Larga sendo dominado por empresas e monopólios de telefonia num processo visto como “normal” por instâncias governamentais, em tempos de interrupta falta de ética nas relações governamentais, em tempos de deturpações dos conceitos de democracia que visam interesses particularizados, em tempos de criminalização do livre compartilhamento e de caça aos commonistas, eis que surge uma pequena parábola para reflexão.

O sociólogo Peter Berger escreveu o livro: Introdução à Sociologia. Um dos seus capítulos tem um titulo estranho: “Como trapacear e se manter Ético ao mesmo tempo”.

Estranho à primeira vista, mas logo se percebe que, na política, na vida pública, no cuidado do bem comum, tem sido rotineiro juntar ética e trapaça. Daí talvez toda uma sorte de movimentos, pessoas, ações, passeatas, revoltas que se levantam como aquilo que azeda cada dia mais a chance de um outro mundo possível.

Para explicar,  segue a  historieta:

Havia  em  uma cidade dos Estados Unidos uma igreja batista. Os batistas,  como  se  sabe,  são um  ramo  do  cristianismo  muito rigoroso nos seus princípios éticos. Na mesma cidade, havia também uma fabrica  de  cerveja  que,  para  a  igreja batista, era a vanguarda de Satanás. O pastor não poupava a fábrica de  cerveja  nas  suas  pregações.  Aconteceu, entretanto, que, por razões pouco esclarecidas, a fábrica de cerveja fez uma doação  de  150  mil  dólares  para  a igreja.

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Foi um tumulto na cidade… Os membros mais ortodoxos da igreja foram unânimes  em  denunciar  aquela quantia como dinheiro do Diabo e que não poderia ser  aceito.  Mas,  passada  a  exaltação  dos  primeiros   dias, acalmados os ânimos,os mais ponderados começaram a analisar os benefícios que aquele dinheiro poderia trazer: uma pintura nova para a igreja, um órgão de tubos, jardins mais bonitos, um salão social para festas.  Reuniu-se então a igreja em assembleia para a decisão democrática. Depois de muita discussão registrou-se o  seguinte  no livro de  atas:  “A  Igreja  Batista  Bethel  resolve  aceitar  a  oferta  de  150  mil  dólares  feita  pela cervejaria na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o  seu  dinheiro  vai ser usado para a glória de Deus.”

Políticos incorporaram essa ética: “O diabo ficará furioso quando souber que o dinheiro que estamos roubando será usado em benefício de nossa eleição, para ajudar o povo”.

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Edição Especial: Cultura Digital

A segunda edição da revista do Pontão Ganesha de Cultura Digital trata do tema Cultura Digital e os seus desdobramentos como o AI5 Digital, compartilhamento do conhecimento e o direito autoral.

A revista Ganesha Digital (licenciada em Creative Commons) pode ser visualizada NESTE LINK e baixada em PDF NESTE LINK.

A reprodução e distribuição da Ganesha Digital não é só autorizada como também estimulada pela equipe do Pontão Ganesha.

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