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Liberdade para a Mídia Livre

Enquanto empresas de telecomunicações e copyright tentam controlar o tráfego de dados na rede, a fim de lucrar mais com a circulação de informações e o compartilhamento de bens culturais, corporações digitais são coniventes com programas de espionagem governamentais, como o da Agência de Segurança Nacional dos EUA. A pergunta que fica é: O que os movimentos sociais, ativistas e organizações do terceiro setor fazem entre um protesto e outro para reverter este quadro?

Junho de 2013 foi marcado por uma série de manifestações no Brasil cuja principal característica foi a convocação pelas mídias sociais. Muitas destas convocações foram criadas por pessoas que até então não se davam ao trabalho de assinar petições online para salvar as baleias, mas que por inúmeras motivações, resolveram usar o potencial de mobilização direta da Internet: uma rede aparentemente sem filtros, sem lideranças estabelecidas e sem moderação.

O resultado disto, assim como na TunísiaMéxicoEUAEgito e Espanha, foram adesões em massa que refletiram-se em milhares de pessoas nas ruas que, em meio a polifonia de mensagens sintentizaram um recado às autoridades e corporações: Os governos e o mercado não são mais suficientes como mediadores do que as pessoas querem para elas mesmas e para a sociedade.

O grande porém nisso tudo é que as características que fizeram com que a Internet tenha se tornado esta grande ágora digital – como a neutralidade de rede, liberdade de expressão e privacidade – são frágeis e de duração cada vez mais breve.

O conteúdo é livre, mas a ferramenta é proprietária

Felizmente no planeta – e principalmente na rede – existe um número cada vez maior de pessoas debatendo e experimentando outras alternativas de organização e difusão de conhecimento.

Algumas destas pessoas encontraram-se no dia 24 de Janeiro no auditório da PROCERGS (Companhia de Processamento de Dados do Estado do Rio Grande do Sul) na Roda de Conversa “Mídia livre e apropriação tecnológica”.

O fio condutor do debate foi o uso das mídias sociais durante as Jornadas de Junho, tendo como ponto de partida, o fato de que a maior parte das mídias utilizadas nestas manifestações são softwares proprietários (de código fechado), controlados por empresas que – como todas as empresas – são guiadas por valores de mercado. Lembrando que o mercado está sujeito a tudo, inclusive à influência de governos ricos e autoritários.

“O debate também se faz fundamental especialmente neste período de espionagem multinacional das grande corporações financiadas pelos governos, principalmente pelo governo dos Estados Unidos, que fiscaliza, monitora os demais países e os movimentos sociais” comentou João Paulo Paulo Mehl, do Coletivo Soylocoporti e Lab Cultura Digital.

O temor de que em um ano de ânimos exaltados por causa da Copa do Mundo e das eleições presidenciais acelere a criação de recursos jurídicos, econômicos e técnicos de cerceamento da liberdade de expressão na rede não é a toa. No dia 28 de Fevereiro o Facebook retirou uma página criada por movimentos sociais para divulgar os protestos contra a Copa.

A justificativa expressa pela assessoria de imprensa da empresa foi a mesma de tantas outras remoções de conteúdo: “violações aos termos de uso do site”. Em se tratando da mesma mídia social que permite diversos posts preconceituosos e agressivos, como o de uma mulher sendo decapitada a sangue frio no México, a declaração é no mínimo curiosa.

Alternativas para a mídia alternativa

Uma das mais dramáticas influências do capitalismo na sociedade da informação se manifesta na exploração humana para além do expediente de trabalho, fazendo com que interesses, opiniões e dados privados se transformem em mercadoria.

Fórum Social Mundial, assim como as edições temáticas, reúne diversos atores sociais e organizações que se contrapõem ao “neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital”. Se cada organização, sindicato ou associação que compõe o FSM não só passasse a investir no desenvolvimento das suas próprias mídias sociais, mas também estimulasse o uso das alternativas livres existentes entre os seus associados desde a primeira edição do Fórum, teríamos hoje um cenário comunicacional diferente no terceiro setor e nos movimentos sociais no planeta.

Foi também em busca desta pactuação e do comprometimento que o Seminário do Fórum de Mídia Livre – ocorrido após as rodas de conversa, dentro da programação do Fórum Social Temático – produziu as bases para uma “Carta Mundial de Mídia Livre”, um documento com o objetivo de estabelecer princípios e garantias para o funcionamento de uma mídia alternativa para o exercício da liberdade de expressão em todo o mundo.

Rita Freire, da Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada, avaliou que o seminário “mostrou um trabalho sério, intensivo, de muita concentração e diálogo entre midias livres de diversos lugares para apontar direções comuns”. Rita também comentou sobre a contribuição brasileira para a construção da carta, que será finalizada em 2015, durante o Fórum Social Mundial: “Descriminalização das rádios, ocupação do espectro eletromagnético, ecologia nas redes sociais, ecoprotocolos e internet livre para todas as pessoas, foram temas importantes apontados no Brasil e que agora vão receber contribuições da África e da Europa”.

dos protocolos 
brotam colos para
proto-loucos
 (*)

Os “Ecoprotocolos” citados por Rita Freire, também chamados de “Protocolos Livres” tratam-se de uma pactuação política e tecnológica entre os movimentos sociais que envolva ação, método, tecnologia e até semântica em torno do estabelecimento de uma comunicação autônoma, independente e em consonância com os princípios midialivristas.

debate sobre os Ecoprotocolos é realizado deste o III Fórum de Mídia Livre em 2012, em Porto Alegre. Deste então, ainda tenta-se superar a questão técnica: O desenvolvimento de recursos para que as muitas mídias sociais utilizadas por ativistas em todo o planeta formem uma grande rede livre e diversa, e que se complementem, para evitar o retrabalho e facilitar o encontro de soluções para problemas comuns.

É nesse ponto que uma autocrítica se faz necessária aos próprios participantes do Fórum Mundial de Mídia Livre. O evento foi todo transmitido com sistema proprietário de transmissão de áudio e vídeo e divulgado mais enfaticamente em mídias sociais comerciais. A autocrítica entre os mídialivristas presentes no FMML foi feita durante o próprio seminário e após o evento, em grupos de e-mails. O fato é que textos e debates serviram para solidificar bases conceituais e expandir a problemática das mídias proprietárias versus mídia livre. O momento agora é de se usar as alternativas existentes.

Outra questão crucial levantada tanto nas Rodas de Conversa quanto no Seminário do Fórum de Mídia Livre foi a necessidade de formação de ativistas. De nada adianta desenvolver plataformas digitais sem o comprometimento das diversas organizações e coletivos com ações de formação e o uso cotidiano de ferramenta livres.

Sem este compromisso, o “outro mundo possível” não vai passar de mais umaecobag guardada nas casas de ativistas ao redor do mundo.

(*) Meio Haikai, meio concreto, subtítulo com licença poética.

P.S.

MÍDIAS SOCIAIS

Coolmeia – Mídia social voltada para o bem comum.

Saravea – Rede experimental de ativistas desenvolvida com software livre.

Noosfero – Software livre brasileiro para criação de redes sociais.

Friendica – Mídia social federada com capacidade de descentralização.

N-1 – Software livre para construção de redes sociais.

Diáspora – Mídia social com capacidade de descentralização que permite a instalação distribuída em vários servidores e o compartilhamento de recursos.

Diáspora [Pod Juntadados] – A rede diaspora é composta por centenas de servidores autônomos espalhados pelo Mundo. O coletivo JuntaDados desenvolveu e mantem uma versão brasileira.

Sneer – Software que implementa o conceito de computação soberana e permite a troca de mensagens sem depender de um servidor distribuidor (P2P).http://sneer.me/

Phyrtual –Rede social focada em projetos de inovação social em que se pode trocar experiências e colaborar para estes projetos.

PLUGINS

Ágora Delibera – Plugin WordPress que permite a criação de processos de deliberação e comunicação interna e externamente entre organizações.

PLATAFORMAS COLABORATIVAS

Corais – Plataforma livre para criação colaborativa de projetos. corais.org

CulturaDigital.BR – Plataforma da comunidade da Cultura Digital brasileira. culturadigital.br

Iteia – Projeto que promove o software livre, a diversidade cultural e visa desenvolver formas democráticas de expressão e acesso livre a conteúdos artísticos. iteia.org.br

Estúdio Livre – Ambiente colaborativo para formação de espaços reais e virtuais que estimulem e permitam a produção, a distribuição e o desenvolvimento de mídias livres. estudiolivre.org

TRANSMISSÃO DE ÁUDIO DE VÍDEO

Como instalar um Servidor Icecast:

Flumotion – Transmissão de streaming na web via software livre:

OUTRAS INFORMAÇÕES

Site do Fórum Mundial de Mídia Livre: fmml.net

Cobertura do Seminário do Fórum de Mídia Livre da Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada:

Edição Especial da Revista Ganesha Especial:

As Redes Sociais Livres – Ana Sena:

 

Thiago Skárnio – Coordenador do Pontão Ganesha de Cultura Digital

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O Gigante não acordou. As pessoas é que não são mais pequenas e desconectadas

Uma das muitas hashtags utilizadas pelas mídias sociais para relacionar mensagens sobre os protestos ocorridos no Brasil nas últimas semanas foi #OgiganteAcordou.

À medida que as manifestações pela redução das tarifas do transporte público no Brasil, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, foram ficando numerosas e tensas, a discussão política também foi tomando conta das redes sociais.

Durante dias, governo e boa parte da imprensa ficaram atônitos, sem entender bem o que queriam aquelas milhares de pessoas convocadas pela Internet, que não estavam ali só por causa do aumento de centavos nas passagens.

Entre as tantas hashtags, escolhi #OgiganteAcordou justamente por discordar do seu significado. Reivindicações e protestos existem no país desde sempre. A diferença é que hoje, as pessoas podem associar-se a uma causa com um click no computador ou celular. Envolver-se já é outra história.

Envolver-se é dedicar horas do dia, perder relacionamentos e, até, passar fome. Por isso, muitos militantes de movimentos sociais e organizações tradicionais tratam com relutância e desdém o “Ativismo de Sofá”. Mas também esse é um tratamento que deve começar a mudar após o dia 19 de Junho de 2013, data e que os aumentos da tarifa do transporte público do Rio de Janeiro e São Paulo foram revogados em função dos protestos.

Em movimentos cujos integrantes cresceram em contato com a Cultura Digital, dinâmicas de rede não são novidade. É o caso do Movimento Passe Livre (MPL), que desde seu início utiliza a internet para divulgar as suas ações e articular-se de forma descentralizada. Oficialmente o MPL foi fundado em 2005, durante o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, mas existiam movimentações desde 2001 em Salvador e Florianópolis.

Inicialmente por meio de listas de e-mails, hoje utilizando blogs, sites e redes sociais, o MPL ganhou destaque pela sua capacidade de replicação em várias cidades do país e pela promoção de grandes mobilizações por um transporte público, gratuito e de qualidade. Além de uma bandeira de fácil assimilação, existem práticas offline que não podem ser deixadas de lado: a sua organicidade é presencial, em reuniões, debates e, claro, manifestações.

Com a popularização dos dispositivos digitais (principalmente câmeras e smartphones) e a atuação muito próxima de coletivos de mídia independente, o MPL passou a usar cada vez mais a internet para denunciar abusos policiais e perseguições. Durante uma das suas maiores manifestações na capital catarinense, em 2005, conhecida como a “Revolta da Catraca”, o vídeo “Amanhã Vai Ser Maior“, produzido coletivamente durante os protestos e distribuído pela internet, foi amplamente compartilhado.

Movimentos sociais em rede são uma realidade em várias partes do mundo. Mas suas maiores realizações não foram na Tunísia, durante a “Primavera Árabe”, na Espanha com os “Indignados”, nos Estados Unidos com a “Ocupação de Wall Street”, e nem no Brasil, durante os “#ProtestosBR”. Foi, isso sim, o despertar das pessoas para o fato de que a tecnologia pode fazer bem mais pela cidadania do que enviar a declaração do imposto de renda para o governo.

Thiago Skárnio é Coordenador do Pontão Ganesha de Cultura Digital.
Matéria publicada originalmente no Caderno de Cultura do Diário Catarinense no dia 22 de Junho.

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Princípios e propostas para uma Cultura Digital Livre, Inovadora e Inclusiva

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No campo das políticas públicas de Cultura Digital há um desafio sobre o qual muitas novas ações vem sendo pensadas por muitos coletivos de vanguarda e destaque da temática. Campo da Experimentação e da Inovação, mas também da valorização do acesso a TICs como direito humano fundamental e espaço de luta de muitos movimentos social modernos, a Cultura Digital vem ganhando cada vez mais espaço tanto nos olhares daqueles que reconhecem nela uma esperança possível para uma sociedade mais igualitária, como também vem sendo observada de modo diferente por gestores públicos.
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Mas de que Cultura Digital, afinal estamos falando? Quais são os valores que a norteiam? Quais são as propostas aplicáveis e de sucesso que podem ser adotadas em ambito público?
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Considerando essas questões e a proximidade das eleições municipais por todo Brasil, publicamos aqui um documento escrito a muitas mãos, por muitos dos protagonistas e entusiastas de uma Cultura Digital Livre, Inovadora e Inclusiva. Queremos com isso que não só a cidade de São Paulo e seus candidatos a prefeito como quaisquer outros candidatos dessas eleições municipais de 2012, possam dar a devida atenção ao tema, fazendo deste um ponto estratégico para o avanço social que almejamos.
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Vale recordar que desde a ascensão do uso de redes sociais e o inicio das campanhas políticas pela Internet, cada vez mais os eleitores tem tomado consciência da importância dos processos democráticos abertos e publicar esse texto aqui, bem como advogar por sua inserção nos planos de governo dos futuros gestores e gestoras de nossas cidades, é algo muito caro para todos nós.
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Cidade Aberta

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1. Criação de um portal de dados abertos com todos os dados públicos gerados e/ou organizados pela prefeitura, disponíveis em formato legível por máquinas, com API (Interface de Programação de Aplicativos) para facilitar a apropriação das informações pela sociedade civil e pelos órgãos do poder público;
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2. Desenvolvimento, em parceria com a sociedade civil, de aplicativos e plataformas de democracia interativa, com estímulo a espaço de diálogo, definição orçamentária e serviços públicos voltados para o fortalecimento da relação dos cidadãos entre si e com a administração da cidade;
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Cidade Livre

3. Desenvolvimento de uma política pública de fomento às liberdades na rede, baseada nas competências do gestor municipal, com o desenvolvimento de: a-) licenças livres de obras culturais e educacionais custeadas ou realizadas pela prefeitura, e de todos os documentos públicos; b-) adoção e promoção do uso de software livre pela administração pública, com fomento à produção de softwares abertos;
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4. Estímulo à criação e ao compartilhamento de recursos educacionais abertos, à produção colaborativa de materiais didáticos e processos de aprendizagem, à disseminação de criações, invenções e troca de saberes, envolvendo escolas, professores, estudantes e a comunidade em geral. São Paulo Conectada
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5. Conexão aberta e livre, por meio de tecnologia sem fio, de pontos de alta concentração de pessoas, em especial de regiões da periferia da cidade, estimulando a geração de renda por meio de serviços comunitários de provimento de acesso;
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6. Desenvolvimento de um programa de apropriação crítica das tecnologias, por meio de laboratórios de garagem, espaços para ciência de bairro e pontos de cultura digital, a serem desenvolvidos em parceria com pequenos empreendedores (donos de Lan House), grupos da sociedade civil e/ou equipamentos da prefeitura, como Telecentros, instituições culturais e escolas, principalmente os CEUs, fortalecendo mecanismos de governança participativa (Conselhos Gestores);
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De Baixo pra Cima

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7. Realização de um trabalho coletivo e colaborativo de mapeamento da cidade (cartografia crítica e afetiva), com detalhamento de seus problemas e soluções, a ser desenvolvido em parceria com a sociedade civil;
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8. Estímulo a ações de ocupação das ruas por artistas e produtores culturais, como forma de ampliar o compromisso dos cidadãos com o espaço público; Estimulo a apropriação tecnológica livre, potencializando espaços públicos, para disseminar conhecimentos tecnológicos direcionados a produtores aprendizes de cultura das diversas linguagens audiovisuais. Organização e articulação de processos de realidade aumentada com a colaboração dos cidadãos construindo os caminhos múltiplos entre o ciberespaço e os prédios, praças e ruas;
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9. Valorização das expressões vivas da cultura da cidade, com a adoção do programa Cultura Viva em âmbito municipal, que resultará na criação de Pontos de Cultura nos moldes da ação desenvolvida no Governo Lula, priorizando as periferias;
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10. Fomento aos meios alternativos de comunicação, em especial ao midialivrismo, com apoio às rádios comunitárias, música livre, estúdios livres, às plataformas de comunicação em rede, como blogs e sites de produção de conteúdo informativo;
Esta é uma WikiPlataforma que enfatiza a necessidade de experimentarmos modelos radicais de participação política. Um governo comprometido com a cultura digital é um governo que revê suas estrategias baseando-se nas experiências coletivas, o que pode ser feito com muito mais facilidade quando utilizamos a tecnologias do nosso tempo.

Também no Coletivo Digital e no Trezentos.

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Metareciclando em um HiperTropicalizado céu de ideias

Tux na praia

Nos dias 25, 26 e 27 de Maio de 2012, na cidade de Ubatuba (conhecida ironicamente como Ubachuva, mas não dessa vez) aconteceu o Encontrão HiperTRopical da Rede MetaReciclagem. Acompanhei com entusiasmo, desde outubro de 2011 através da lista de discussão dessa rede, as movimentações, empreendidas sobretudo por Felipe Fonseca, para a realização deste encontro.
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Participar disto foi minha maior inserção presencial nesta rede que já há algum tempo me provoca a refletir sobre algumas estruturas sociais presentes no Brasil e a função da tecnologia na promoção de condições mais sustentáveis de viver.
Mas antes de continuar, vale dizer que desde meados 2008 tenho dedicado parte considerável da minha vida a um projeto chamado Nós Digitais e que por conta disso, sempre que posso, me meto a tocar algum processo de formação (curso, oficina, palestra, roda de bate-papo, etc) voltado ao ensino de tecnologias de código aberto. Está no escopo do Nós Digitais a ideia de que não existe um eu-digital se relacionando com a tecnologia em separado de outros sujeitos pensantes de uma mesma comunidade (seja ela virtual ou real), mas sim, acreditamos que toda experiência de digital é precedida por um “nós”, isto é, toda experiência é norteada (ainda que não-conscientemente) por uma ligação com um coletivo no qual o “Eu” é parte. “Nós” também podem ser pontos de circuito ligados a dois ou mais elementos, daí toda filosofia trocadilhesca da coisa… e esse projeto é voltado, em sobremedida, a formação de outros atores visando empoderamento e autonomia operacional na utilização der sistemas e aplicativos open source.
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Dada a ocasião do Encontrão HiperTropical, nada mais instigante do que gerar alguma ação de formação partindo desse lugar de apoio. E foi isso que acabou acontecendo. Chegamos lá pela madruga de quinta-feira (24/05), com a providencial e generosa carona de Talita Maiani, e já na sexta-feira estivemos na ETEC Ubatuba para uma intervenção sobre Tecnologias Livres e Sustentáveis, TecnoMetaRedes, Futuros Tecnológicos Possíveis e Software Livre. Sessenta jovens, de dezesseis a cinquenta anos, estiveram com a gente (Eu, Felipe Fonseca, Chico Simões e prof. Alvaro). Da parte institucional, Alvaro Golçalves, professor da ETEC Ubatuba, junto com Felipe Fonseca imaginaram a possibilidade dessa ação desde um encontro na Virada Digital, em Paraty-RJ, dias antes. Aliás, vale aqui um agradecimento pela receptividade. A ETEC Ubatuba não só esteve de portas abertas como disponibilizou uma estrutura bem adequada para a oficina.
Felipe Fonseca abriu a atividade apresentando a rede MetaReciclagem e na sequencia falou um pouco sobre os desafios de pensar o uso da tecnologia num tempo no qual cada vez mais há descarte de equipamentos fruto de uma obsolescencia mercadológica. Falou também sobre apropriação cultural da tecnologia e os trabalhos que muitos dos membros da rede ajudaram a empreender.
Na sequencia, eu o o Chico falamos um pouco sobre nosso trabalho no Nós Digitais e sobre o Lab Macambira e propusemos uma atividade prática de instalação e configuração de sistemas linux em máquinas antigas.
Veja um pouco de como foi no vídeo abaixo:

[youtube XsL8qE53uaw]

Em Ubatuba, até a presente data, não há quase cursos universitários então só resta aos habitantes locais poucas opções privadas de graduação (ao que consta à distância em EAD)  ou cursos técnicos se assim desejarem algum tipo de formação para além da escola (ou mudar de cidade). Situação dificil, em diversos aspectos. Por essa ocasião da oficina, fizemos o que chamei de “GiantIntallFest“. Abrimos máquinas, instalamos mini-distros linux (LubuntuXubuntuFedora), entregamos alguns equipamentos nas mãos dos alunos a fim de que eles próprios pudesse registras seus processos fazendo assim um registro mais colaborativo (parte das fotos e dos vídeos do encontro foram registrados por eles)…. foi bem interessante esse movimento.
No sábado (26/05), fomos todos para a Fundação Alavanca, um espaço social voltado para atividades educacionais e artístico-culturais que tem estado fechado por falta de corpo humano e recursos financeiros para funcionar. A ideia de fazer o Encontrão lá foi pra casar duas oportunidades: dar conta de receber o grande número de pessoas que ia a Ubatuba, membros da rede MetaReciclagem, e dar apoio ao espaço fornecendo Internet 3g como contrapartida do uso do local, conectando-os.
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Neste dia, houve convergência de uma série de assuntos, bate-papos e diversas situações simultâneas a tarde. Peixe fresco na brasa, comida vegetariana preparada a muitas mãos, antenas ouvindo satélites, adolescentes da ETEC ocupando o espaço para colaborar… Não há palavras suficientes pra descrever. Corre um pequeno veio d’água, quase um rio-nascente dentro da propriedade! Água corrente no meio de uma propriedade incrustada no Parque Estadual da Serra do Mar, local frequentado por beija-flores e colibris, com 5 coretos edificados em formato de hexagono, alguns cobertos de placas de caixa de leite reciclado, outros de garrafa pet, sendo um deles espaço de uma biblioteca com livros de ocultismo, ufologia, magia e xamanismo.
Reverberando em boas sensações, ganhei um grande presente: o Vince, um italiano da Sicilia que está de volta ao Brasil fazendo trabalhos com aRede Mocambos, me apresentou ao trabalho do Tinariwen. Eles fazem parte de um povo de uma dinastia muito antiga de moradores dos desertos da mãe África. O entoar de suas palmas, atabaques, cordas, de suas vozes e cânticos, conversa com as forças da criação num mantra profundo e ritmado. Através desses sons eles conversam com estrelas e com as energias da criação. Vale a pena ouvir e assistir:

[youtube 5P0oO8nphMY]


No sábado fim da tarde, nos reunimos todos numa grande roda, ao ar livre, debaixo de um céu bonito e estrelado, com uma lua que não se intimidou em aparecer. Um verdadeiro #CeudeIdeias que, se a imaginação deixar correr nessa escrita, foi um dos responsáveis pelas convergências positivas do encontro. Conversamos sobre de como as tecnologias mudaram ordens dadas, do desejo de cidades de código aberto e de como precisamos de mais conexões, entre pessoas, entre espaços, entre sensações, entre afetos, pra buscar o tal mundo novo possível, terra prometida, por nós mesmos, que queremos. E no fim de tudo ainda aconteceu um ritual com palmas nas costas, circular, roda gira, roda gira.
No domingo explorações. Dia de pedalar em bando. BikeBeach com oBikeTux. Percorremos quase 30 km do parque da Serra do Mar até a Praia Vermelha ao som do coração batendo forte. Foi bom demais!
Fotos aqui:

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O Saber é Livre e Compartilhado, a Cultura é Viva e Digital e a Prosa é Forte e a Beira Mar: Cultura Digital Caiçara

E se a gente sonhasse com um lugar onde o Saber fosse Livre para ser compartilhado? Onde a Cultura fosse Viva tal qual um pássaro no céu ou um peixe no Mar? Onde o Digital tivesse vez na mesa para fazer Rede entre parceiros e amigos? Onde a comida fosse lenta, afetuosa, de respeito e sustentável? Onde a prosa fosse forte e a Beira Mar? E se a gente acordasse e visse que não era sonho?

Pois é, pois é: existem lugares, pessoas e ações, nesse Brasil, que parecem existir só nos nossos sonhos mais felizes, mas eles existem no mundo real e estão aí para serem descobertos, redescobertos e principalmente publicizados.

Não é de hoje que as ações desenvolvidas pelo Pontão Nós Digitais e pelo Ponto de Cultura Caiçaras são admiráveis. Ocorre que cada vez mais estas ações vem apresentando caminhos possíveis para um mundo novo onde a palavra popular tem vez e os sonhos são vividos acordados. Vejamos na tela um poucos do registros do que vai ficando.

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Na tela

[youtube Ik5-Pvjnmp0]

[youtube Urr0o0FyttQ]

[youtube 9Zpxb0-ysRE]

[youtube lIymCWWSb_4]

Estes vídeos foram produzidos a partir de um encontro entre Pontos de Cultura do Estado de São Paulo, realizado em Cananéia, litoral sul do estado, entre os dias 10 a 12 de maio de 2012. Intitulado Encontrão dos projetos especiais, este evento de formação e troca se deu, principalmente, pela articulação e pelos trabalhos realizados entre o Pontão de Cultura Nós Digitais e o Ponto de Cultura Caiçaras de Cananéia, contando com a presença dos Projetos Especiais: Cala Boca Já Morreu, Jeca Tatu, Oca, Ilé Edé Dúdú, Caiçaras além do Teia das Culturas e de outros 8 pontos de cultura do Vale do Ribeira.
A intenção do encontro foi, além de aprimorar as ações de formação em Software Livre, trabalhar, desenvolver e estimular a produção dos produtos digitais de cada grupo cultural envolvido e também aprofundar o contato e os vínculos entre os mesmos.

Paralelamente, aconteceu o “I Encontro de Cultura Digital e Conhecimentos Livres dos Pontos de Cultura do Vale do Ribeira”. Esse evento fez parte do programa “Arte Digital sem limites”, aprovado no edital “Prêmio Cultura Digital 2010 – Esporos de Pesquisa e Experimentação” do Ministério da Cultura (MinC). A proposta teve como principal objetivo oferecer um curso de formação técnica em arte digital fundamentada no uso de software livre e na prática de criação e/ou produção de mídias livres e redes locais sem-fio.

@pen @stra é o nome divertido para um pequeno tutorial de preparo, abertura e degustação das Ostras advindas da região de Cananéia, que são servidas no Bistro Caiçara.
Já o “Bistrô Caiçara”, apresentado aqui, é parte do complexo de ações do ponto de cultura caiçaras e tem como princípio básico o desafio de oferecer serviços gastronômicos especializados em alimentos e bebidas saudáveis (naturais e/ou orgânicos) adquiridos diretamente de pequenos produtores (pesca artesanal e agricultura familiar) e/ou de associações comunitárias (cooperativas de produção) baseando-se na filosofia e conceitos do “Movimento Slow Food” (www.slowfoodbrasil.com/) e gastronomia sustentável.

Unindo as diversas e criativas técnicas da gastronomia mundial e os conceitos sustentáveis da ecogastronomia buscamos formas de valorizar as receitas tradicionais caiçaras apresentando-as de forma contemporânea sem que se perca a essência da relação entre o alimento e o conhecimento tradicional popular.

Mais informações:
http://galerialagamar.matimperere.com.br
http://nosdigitais.teia.org.br

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Aluna da Unicamp desenvolve sistema para uso educacional de SMS

Via Jornal da Unicamp.

O uso dos celulares em sala de aula é assunto polêmico. Em 2010, o ex-deputado federal Pompeo de Mattos (PDT-RS) apresentou à Câmara um projeto de lei que proibia o uso dos aparelhos por alunos e professores nas salas de aula de todas as escolas públicas do país. A proposta foi aprovada pela Comissão de Educação e Cultura, mas acabou sendo arquivada. Recentemente o Projeto de Lei 2806/11, de autoria do deputado Márcio Macêdo (PT-SE), retomou a proposta, permitindo porém a presença destes equipamentos, desde que relacionados ao desenvolvimento de atividades didáticas e pedagógicas e após a autorização dos professores ou da diretoria da escola. O uso das novas tecnologias de informação, como lousas eletrônicas, iPads e e-readers, para citar alguns poucos exemplos, parece estar sendo cada vez mais incorporado ao ambiente escolar e, ao mesmo tempo, alimenta discussões pedagógicas sobre qual seria a melhor forma de utilizar tais tecnologias para que elas representem um benefício real ao processo de ensino e aprendizagem.

A tese intitulada “Um ambiente virtual de aprendizagem que utiliza avaliação formativa, a tecnologia de mensagens curtas e dispositivas móveis”, de autoria de Samira Muhammad Ismail, aluna da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC), vem contribuir para este debate. O trabalho trata do desenvolvimento de um sistema chamado SMS2E (Short Message Service To Educate), o qual permite a possibilidade da utilização da tecnologia SMS como uma ferramenta de apoio à educação. Segundo Samira, o SMS2E oferece uma solução que facilita o uso da avaliação para a formação, e não para a punição. Este procedimento, que pode ser aplicado em aulas presenciais ou a distância, utiliza os celulares, o serviço SMS e os ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) – como o TelEduc, elaborado pela Unicamp – para permitir que professor e aluno possam verificar instantaneamente os resultados do processo de ensino e aprendizagem.

“O professor formula uma questão de múltipla escolha relativa ao conceito apresentado em sala e os alunos, então, respondem utilizando seus celulares e escolhendo a alternativa que lhes parece correta. Em poucos segundos, as respostas são consolidadas através do sistema e os resultados são apresentados imediatamente aos alunos e professores em forma de gráficos. Esta apresentação, feita durante a aula, permite aos alunos e ao professor identificar possíveis falhas de ensino ou aprendizagem, a tempo de serem corrigidas”, explica Samira.

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Ronaldo Lemos: Educação será revolucionada pela tecnologia

Via folha.

Se São Tomás de Aquino reaparecesse hoje vindo da Idade Média, ficaria surpreso ao ver um hospital ou um prédio em construção. Mas se sentiria em casa ao ver uma escola. As salas de aula até hoje são organizadas como no fim da Idade Média: o professor na frente e os alunos (grande parte entendiados) ouvindo o que ele tem a dizer.

A educação cedo ou tarde será revolucionada pela tecnologia. Pense no material didático. Se bem transposto para o digital, tudo muda. Pode tornar-se ferramenta em constante transformação. Alunos e professores participando de seu aperfeiçoamento constante. Cada tópico gerando uma discussão multimídia, com alunos de diferentes escolas disputando soluções originais.

Um desafio é que a educação ainda é excessivamente baseada no texto. Só que a vida dos alunos é cada vez mais rica em mídias: vídeos, sites, redes sociais, música e remixes. “Quando chegam na escola, volta o reinado do bom e velho texto”, afirma Ronaldo Lemos.

A esse respeito, ganha força o movimento internacional dos Recursos Educacionais Abertos. A ideia é fazer com que todos materiais didáticos sejam colocados online de forma livre para serem manipulados, adaptados e remixados (o modelo tem apoio da UNESCO).

“Faz muito sentido”, diz o colunista da Folha. Nada mais pobre do que colocar material didático em PDF, formato que só reproduz limitações do mundo físico no digital. “O desafio hoje, é construir novas relações entre a informação e envolver alunos e professores neste processo”.

Ouça mp3.

Ouça ogg.

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Manifesto para a engenharia reversa de nossas redes

Por Bartolina Sisa via CMI.

“É das paixões que brotam as opiniões; a inércia do espírito as faz enrijecerem na forma de convicções.
Mas quem sente o seu próprio espírito livre e infatigavelmente vivo pode evitar esse enrijecimento
mediante uma contínua mudança”
Friedrich Nietzsche – Humano, demasiado humano


“Digitalismo é uma forma de gnosis moderna, igualitária e barata, onde o fetiche do conhecimento foi
substituído pelo culto da rede digital”
Matteo Pasquinelli: A ideologia da cultura livre e a gramática da sabotagem


“Querer a autonomia supõe querer determinados tipos de instituição da sociedade e rejeitar outros. Mas
isso implica também querer um tipo de existência histórica, de relação com o passado e o futuro. Uma
como a outra, a relação com o passado e a relação com o futuro devem ser recriadas.”
Cornelius Castoriadis – As uncruzilhadas do labirinto volume VI

Esse texto visa percorrer alguns conceitos que despontaram no Brasil em nossa contemporaneidade acerca de novos e velhos intrumentos sócio-técnicos, chamados aqui de experiências de apropriações midiáticas brasileiras. Uso essa terminologia (que li pela primeira vez em LaymertGarcia, no livro Politizar as novas tecnologias) no sentido de articular uma via de mão dupla entre tecnologias e comunidades, impossibilitando qualquer interferência de um objetivo ou subjetivo determinismo tecnológico, abrindo portanto, e com mãos femininas, sua caixa preta.

Na década de 90, muito devido ao barateamento das ferramentas de produção de mídia e uma relativa liberdade política, surge na Holanda o conceito de mídia tática, cunhada por David Garcia e Geert Lovink, que ganhou notoriedade com a série de festivais Os Próximos Cinco Minutos (N5M – The Next Five Minutes [1]) que popularizou as experiências de rádios livres, blogs, publicações independentes, arte-ciência, ciberfeminismo e videoativismo de todo o mundo. É a pulverização de pequenas e médias iniciativas midiáticas baseadas na colaboração e descentralização. Finalmente as mídias ganhavam as ruas, reconectando-se aos movimentos sociais como verdadeiras armas de dissenso, e muitas vezes descoladas de seu suporte ciber ou digital.

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Carro Movido a Ar Comprimido

O pensamento e a reflexão radical sobre os rumos climáticos e econômicos que nossa civilização tem empregado cotidianamente em seus modos de viver pode produzir invenções tecnológicas sem precedentes nesse inicio de século. Carros Movidos a ar comprimido, por exemplo, então entre os inventos tecnológicos mais surpreendentes de um mundo novo possível.

Para ilustrar, segue um video-documentário elaborado pelo Discovery Channel sobre as tecnologias de carros movidos a ar comprimido e seus motores. Primeiro são mostrados os carros do Guy Negre e seu motor a pistão. http://www.catvolution.com/ Depois o motor rotativo do Angelo Di Pietro. http://www.engineair.com.au

[youtube tU4oF-7rGrg]

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Tablets, computadores e a escola

Por Nelson Pretto.

Mais novidades para a educação com o anúncio da distribuição pelo MEC de tablets para os professores do ensino médio. Para “discutir” o tema, aconteceu semana passada, em Brasília, uma reunião promovida pelo próprio MEC com diversos pesquisadores brasileiros. A compra dos tablets foi anunciada pelo ministro Mercadante, mas a decisão já estava tomada pelo anterior, ministro Haddad. Fui convidado para a reunião, meio que sem saber direito o que iríamos ter por lá. Para variar, a reunião virou evento como bem gostam certos educadores e gestores públicos. Evento, não: aula, seminário.

É curioso, pois tive a oportunidade de participar de uma reunião com o próprio Mercadante, então ministro da Ciência e Tecnologia, que foi, de fato, uma bela conversa com os hackers e pesquisadores presentes na 12º Fórum Internacional do Software Livre (FISL), acontecido em junho passado em Porto Alegre. Lá, com um número mais ou menos igual de pessoas do encontro da semana passada, um círculo foi formado, as ideias circularam livremente numa grande roda de conversa, e foram feitas inúmeras sugestões sobre as possibilidades do MCT construir, efetivamente, uma política pública no campo do software livre, do desenvolvimento científico e tecnológico do país e da formação científica da juventude, com a possibilidade de implantação e apoio a algo do tipo “garagens digitais de C&T”. Conversa boa, que fluiu leve e com perspectivas positivas. Mas Mercadante deixou a Ciência & Tecnologia e não sabemos se o ministro Raupp dará continuidade ao encaminhado, o que seria um grande perda.

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