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Há risco de Autoritarismo – Boris Fausto

Como esse conteúdo tem relevância à censura da cultura digital, segue…

Boris Fausto, 80 anos, é um dos mais notáveis cientistas políticos brasileiros contemporâneos

17/10/2010

O historiador e cientista político da USP, Boris Fausto, acredita que não está afastado o risco de o Brasil conviver com o autoritarismo numa eventual vitória de Dilma Rousseff, “que sofreria pressão de setores do PT para tal”

Até que ponto o senhor acredita ser possível o Brasil viver uma era autoritária, conforme apregoam os adversários de Dilma Rousseff, notadamente após a eleição do novo Congresso?

Acho possível, sim. Essa tendência está em marcha de há muito, desde o início do governo Lula. Portanto, é algo que transcende o período eleitoral. Existem, dentro do PT, setores autoritários. É preocupante, porque processo idêntico está em curso em países como o Equador, a Bolívia e a Venezuela.

Como isso aconteceria?

Não estou falando de golpe de estado. Esse tipo de coisa está amplamente descartado. As Forças Armadas estão longe disso. Quando falo de autoritarismo me refiro, por exemplo, às tentativas de controlar os meios de comunicação. A mídia pode cometer seus erros, mas existem outras maneiras de contestá-la, sem que haja tentativas de cerceamento à liberdade.

O novo Congresso seria subserviente a Dilma Rousseff?

Aparentemente, a coligação comandada pelo PT e PMDB está com a faca e o queijo na mão para fazer mudanças até mesmo na Constituição. Entretanto, quando for colocar isso em prática, a coisa não vai funcionar bem assim. Os interesses particulares e do PMDB irão aflorar e, dessa forma, o governo terá que negociar.

José Serra declarou que terá maioria no Congresso Nacional , se eleito. Como isso é possível?

Não duvido que tal possa acontecer, tendo em vista a natureza do PMDB, que tende a seguir a velha política do toma-lá-dá-cá. Se com a Dilma terá que haver negociação, com Serra isso não vai ser diferente. Só que ele terá um pouco mais de dificuldade.

José Alencar é tido como um vice-presidente ideal, que não causa grandes problemas ao titular. Em relação a Dilma Rousseff e José Serra, há diferença consideráveis entre seus vices ?

Há, sim. Acredito que o Indio da Costa não incomodará o José Serra. Em relação ao Michel Temer, existe o temor de que, por ser uma figura poderosa e ter por trás um partido forte (PMDB), deverá exercer algum tipo de pressão. Isso será inevitável. Ele não se comportará como um mero coadjuvante.

O senhor considerou a disputa no primeiro turno como um tanto fria, sem interesse por parte da população.

Os programas do horário eleitoral gratuito se transformaram numa espécie de enlatado, onde qualquer um usava para falar o que bem entendesse. Tivemos a candidatura predominante da Dilma, que saiu do bolso do colete do presidente Lula e que não se afirma sozinha; do outro lado, a do Serra, apoiada pelos que são contra a social-democracia ou contr o PT.

Acha que esse desencanto pode se repetir no próximo dia 31?

Creio que não. O segundo turno, até mesmo pelo seu caráter de decisão, deve ser mais interessante. Isso não quer dizer que os debates serão melhores, mais esclarecedores. Penso que vai ser uma batalha para se derrotar o adversário.

Que diferença fundamental existe entre Dilma Rousseff e o presidente Lula?

Lembro que o Lula, há oito anos, tinha um cacife enorme para montar suas alianças. A Dilma não tem. Ela carece de legitimidade para grandes avanços. E, se ela vencer, já estou ouvindo petistas perguntando: “Como carece de legitimidade?” Não falo de legitimidade legal, mas de legitimidade política. Porque ela não tem luz própria, não tem carreira na política. E, a julgar pelo caso Erenice Guerra, chegaria ao Planalto com a marca de quem não sabe escolher seus auxiliares.

Serra relegou no primeiro turno a figura de FHC a um certo ostracismo. O senhor acredita que ele acertou?

De forma alguma. O PSDB errou bastante ao deixar de lado Fernando Henrique Cardoso pelo fato de ele ter concluído o seu governo com baixos índices de popularidade. Não se pode ignorar um ex-presidente dessa forma. É uma visão curta. Acho que esse motivo contribuiu muito para a derrota da oposição nas últimas eleições. Ela deveria ter feito a defesa de FHC e das suas duas gestões lá atrás, quando ele passou a ser atacado.

Qual foi o grande diferencial do primeiro turno?

Sem dúvida alguma, a Marina Silva. Eu diria que foi a única candidata que despertou entusiasmo. Ela foi o algo de novo na campanha, até mesmo para quem optou por outros nomes.

Quem ela vai apoiar neste segundo turno?

Creio que ela não vai aderir a ninguém. Vai liberar o voto daqueles que a acompanharam. Já o seu partido (PV) deve tomar diferentes posições, conforme os interesses regionais.

Uma incógnita é quanto ao futuro político do presidente Lula. O senhor apostaria num retorno em breve?

Na hipótese de o Serra vencer, não tenho dúvida de que ele será candidato a presidente daqui a quatro anos. Se for a Dilma, essa possibilidade perde força, mas não está descartada. Vai depender muito do que acontecer até 2014.

Um dos fatos mais marcantes da eleição foi a votação obtida pelo palhaço Tiririca, eleito deputado federal por São Paulo com mais de 1,3 milhões de votos. Qual a leitura que o senhor faz desse episódio?

Faço a leitura mais triste que se possa imaginar. Esse eleitorado expressou a visão (ou falta dela) que tem da política. Acha que a política é uma palhaçada.

PERFIL

Liberdade

Historiador e Cientista Político da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências. Em 1953, formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco da Universidade de São Paulo. Tornou-se mestre pelo Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, onde leciona desde 1989. Sua principal obra é “A Revolução de 30: historiografia e história”. Escreveu também “História Concisa do Brasil”; “Getúlio Vargas: o Poder e o Sorriso”; “Trabalho Urbano e Conflito Social” e “Brasil e Argentina”. Mais recentemente, estreou na área da ficção com “O Crime do Restaurante Chinês”.

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